THALES GUARACY 
  Romances
LANÇAMENTO
A odisséia de um jovem rebelde pelo Brasil cheio de conflitos dos anos 1920 para resgatar o amor paterno, sua paixão de infância e a paz interior...
FICÇÃO
Pai e filho fazem uma viagem a Machu Picchu, onde eles encontrarão a mais eterna das amizades e o segredo para enfrentar o medo diante da morte...

A saga brasileira de uma família de imigrantes italianos movidos pela paixão no sertão paulista....

Cinco contos de amor revelam a visão masculina sobre os relacionamentos em tempos de reconstrução....
REPORTAGEM
21 perfis com as idéias, a luta, os sentimentos e segredos de 21 brasileiros de sucesso....
INFANTIL
A morte de um passarinho e como pais e filhos podem lidar com problemas delicados...
BIOGRAFIA
A épica vida de Rolim Adolfo Amaro, de quase-mendigo a dono da maior companhia de aviação do país....
 

11/01/2010
A descoberta do Brasil

Um país no caminho da educação

Nos últimos tempos, voltei a ler livros em série, por conta do trabalho – recentemente, assumi a direção editorial da Editora Saraiva para fazer livros de ficção e não-ficção. Não me dava conta de quanta falta estava sentindo de ler; recuperei assim um prazer de menino.

Não deixei de ler bastante por falta de tempo ou de interesse. Quando enconram em um livro uma ideia que os interessa, muitos escritores param a leitura, compelidos a escrever. Quando algo me desperta, passo imediatamente para o papel. Depois de certo tempo, o que temos a escrever passa a ser mais importante do que aquilo que queremos ler, exceto quando isso traz informação ou contribui de alguma forma para o texto.

Então o autor acaba sempre ocupando o tempo do leitor.
Agora que o editor se impõe, o leitor volta a tirar o tempo do autor. Tenho de criar produtos e ler, não como diversão, mas com os olhos do avaliador de mercado.

É enorme o número de livros que eu gostaria de ler por interesse prático ou puro prazer. Muitos deles passaram para o final da fila; agora, a prioridade são aqueles que devo ler, por razões profissionais. Fico feliz, no entanto, de saber que o Brasil está no bom caminho. Sabemos que o desenvolvimento de um país depende da educação, e a educação depende da formação de leitores. E nossos leitores estão aumentando em número e qualificação.

Um sinal disso é que já não são tão raros os livros que alcançam números expressivos de vendas. Há livros que chegam aos 500 mil exemplares vendidos. No mercado de livros para adolescentes, em que estão títulos da série crepúsculo e Harry Potter, as cifras superam a casa do milhão. É gente cujo interesse pela leitura certamente não se perderá.

Pouca gente sabe, mas o Brasil tem um dos maiores, se não o maior programa de distribuição gratuita de livros do mundo. Todos os anos, o governo compra e distribui cerca de 130 milhões de livros didáticos e paradidáticos. Com isso, acaba aumentando o número de pessoas que tem acesso ao livro pela base, ainda que o ensino de massa somente aos poucos venha ganhando qualidade.

Quem começou esse programa maciço de distribuição de livros foi José Sarney, quando ocupou a presidência; no meio de tantas barbaridades por ele cometidas, o presidente que é também imortal da academia acabou pouco reconhecido pela melhor coisa que talvez tenha feito - o seu Bolsa Família na área educacional.

A leitura aumenta também porque nunca tivemos tantos alunos de segundo grau e de nível universitário. As escolas são fracas, dizem os especialistas, mas é assim que se começa. Quando há mais oportunidade de estudar, o topo de pirâmide acaba também por aumentar com o crescimento da base. E, com o tempo, a qualidade vai crescendo, depois do salto inicial da quantidade.

Para completar, creio que a internet, em vez de destruir o livro, só vem a ajudá-lo. Democratiza, barateia e estimula o acesso à informação e à cultura. Nunca se leu e escreveu tanto quanto hoje, graças à internet. O preço de todo produto virtual será mais baixo e com certeza provocará muitas transformações no mercado editorial. Mas ao final disso a escala de vendas será como nunca jamais se viu.

A Câmara Brasileira do Livro estima que o brasileiro compre, em média, 1 livro por ano. Nos Estados Unidos, são nove. Creio que essa é a distância que nos separa do primeiro mundo. No entanto, significa que há um grande espaço para crescer. Quando se fala tanto em desaparecimento do livro por conta do meio digital, acredito que no Brasil seu futuro está apenas começando.


3/1/2010
Infeliz ano novo

Razões para comemorar no meio das tragédias

Feliz ano novo, dizem todos nesta época do ano. E no noticiário vemos somente a tragédia: a chuva que faz descer os morros que levam as casas que soterram as pessoas. Fim de ano, revisão de vida: agradecemos os que estamos vivos, pensamos nas perdas, tentamos olhar adiante. Acima de tudo, procuramos não perder a alegria.

Vejo as fotos das pessoas que tentam ajudar em meio ao caos: os bombeiros, os vizinhos, os anônimos e desconhecidos que surgem de toda parte, solidários na tragédia, irmanados no desastre. Um homem que leva o corpo de uma menina morta na enchente. A pousada no paraíso que virou inferno. As chuvas mataram mais que o acidente célebre com o Bateau Mouche no Rio de Janeiro, outro acidente que fez um reveillon se tornar inesquecível, é o que dizem as estatísticas.

Por quê o período de festas parece ser cada vez mais trágico? O mundo contemporâneo é superlativo em tudo. Milhões de pessoas se deslocam para se divertir. Quando milhões se deslocam, as estatísticas crescem em grande proporção para todos os lados – acidentes de todo tipo, congestionamentos, confusão.

O crescimento das cidades e o consumo dos recursos naturais também vem provocando as forças fenomenais da natureza. A civilização ocidental vem roubando o equilíbrio da Terra, que devolve (ou se vinga) na mesma medida. O planeta aquecido pela ação predatória do ser humano é um planeta de chuva: o sol tórrido logo é encoberto pelas nuvens que procuram repôr a vida com a água. O homem mata a natureza e a natureza em contragolpe mata o homem com violência descomunal.

Quando eu era criança, chegar em 2000 – Século XXI – era coisa de ficção científica. Encerramos a primeira década deste século cabalístico para ver que o mundo não mudou tanto assim, embora tudo seja em maior escala. O homem continua tentando dominar a natureza, inutilmente. A intolerância e a selvageria sem limites ainda desafiam os iluministas que procuram trazer a harmonia à sociedade. Por isso, o tema mais importante deste século não é a tecnologia, mas o equilíbrio ecológico e o desenvolvimento sustentável.


Ainda tentamos nos alegrar com nossas pequenas vitórias e o fato de ainda estarmos vivos, enquanto a tragédia, a pobreza e a inconsequência coletiva ainda ameaçam a paz. Comemoramos porque no mundo imperfeito ainda podemos nos agarrar à esperança trazida por qualquer amor – e qualquer flor, qualquer saúde, qualquer felicidade ganham importância como nunca.

E aguardemos agora o carnaval.

26/12/2009
A história por trás da história

Raízes do romance Filhos da Terra

No final do Século 19, a Europa vinha de um período de guerras e grande pobreza, especialmente a Itália. Antes um país dividido, recém-reunido em uma campanha militar liderada pelo rei da Lombardia e do Piemonte, Vitor Emanuel II, havia pouco emprego, sobretudo no campo. No final dos anos 1800, começou a migração de mutios italianos para os países do Novo Mundo, que ofereciam oportunidades distantes, como os Estados Unidos e o Brasil.

Entre 1880 e 1930, vieram para o Brasil cerca de 1,4 milhão de italianos, de acordo com um levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE. Trazidos por navios a vapor, desembarcaram principalmente no Rio Grande do Sul, onde foram trabalhar como artesãos ou camponeses na serra gaúcha, e em São Paulo. No interior paulista, que precisava de mão de obra com o fim do trabalho escravo, eles eram contratados como colonos, trabalhadores assalariados.

Além de seus rendimentos, aos colonos era permitido também plantar para seu próprio sustento entre os pés de café nas terras do patrão. Com isso, os imigrantes italianos, bem como os portugueses e espanhóis, tinham uma renda adicional. Eles moravam em “colônias”, conjuntos de casas construídas especialmente para abrigá-los, e que acabavam por aproximar as famílias, incluindo pelos laços de casamento.

A união das famílias de mesma nacionalidade permitiu que os imigrantes juntassem recursos para mais tarde comprar suas próprias fazendas em sistema de consórcio e depois novas propriedades para cada uma das famílias. Muitos deles enriqueceram no início do Século 20 com as plantações de café, então o principal produto de exportação do Brasil, enviado ao exterior por meio do porto de Santos.

Nessa época, a cidade de São Paulo passou a brilhar com os casarões dos fazendeiros de café, que tornaram famosa a Avenida Paulista, onde se construíam casas com telhas importadas da França, mármore de Carrara e madeira de lei brasileira. Os primeiros italianos a se aventurar na indústria fizeram fortuna, como o Conde Francisco Matarazzo (1854-1937), que a partir da venda de barris de banha de porco construiu o maior império industrial do país (as Indústrias Reunidas Matarazzo). O nome Matarazzo, desde então, se tornou um símbolo de riqueza, especialmente em São Paulo.

No interior de São Paulo, os colonos italianos não encontraram uma vida fácil. Seu trabalho era desmatar o sertão, para permitir o plantio do café, uma cultura favorecida pelo clima e a célebre “terra roxa”. Esse nome é também uma influência italiana, pois terra roxa não existe. Trata-se de uma terra muito rica em nutrientes, de cor vermelha (ou “rossa”, em italiano).

No sertão paulista, além das dificuldades naturais do trabalho e de um país diverso de sua terra natal, os italianos enfrentavam o preconceito dos brasileiros, que os consideravam uma gente bronca, mal educada e temperamental. Em sua maior parte contadinos, como eram chamados na Itália os trabalhadores da terra, eles tinham pouca instrução, mas muita vontade de trabalho. E, aos poucos, começaram a se impôr e influenciar também a cultura do país com sua comida, sua língua e seus costumes.

Com a crise mundial de 1929, quando as exportações de café praticamente foram paralisadas, muitos italianos que possuíam fazendas ficaram com pesadas dívidas e voltaram à pobreza. Muitos deles migraram para o norte do Paraná, onde ainda havia terras virgens e baratas a serem exploradas.

Outros deixaram o campo e migraram para São Paulo, instalando-se em bairros como o Brás, Móoca e Bela Vista, que tiveram uma forte influência da cultura italiana. Eram os bairros das cantinas e das cadeiras na calçada, onde se jogava baralho e bingo aos domingos, e de festas como a da Nossa Senhora Achiropita, promovida pela igreja do mesmo nome, que existe ainda na rua Treze de Maio, na capital paulista, realizada uma vez por ano.

Hoje, a influência da migração italiana ainda está muito presente na vida cultural e econômica do Brasil. O consulado italiano em São Paulo estima que existam hoje cerca de 25 milhões de descendentes de italianos no Brasil, o que seria cerca de um sexto da nossa população. Os italianos participaram ativamente do primeiro grande ciclo de crescimento do país, agrícola e exportador, na era do café. Fizeram parte também da primeira fase de industrialização do Brasil, no papel dos primeiros grandes empreendedores de origem popular, como o Conde Matarazzo, ou como formadores do operariado brasileiro.

Os italianos deixaram sua marca no urbanismo, não apenas nos casarões neo-clássicos da Avenida Paulista como nos bairros operários. Sua identidade ficou na religião, de predominância católica, assim como entre descendentes de portugueses e espanhóis, e na culinária. A influência italiana é forte sobretudo no gosto do brasileiro pelas massas.

Em São Paulo, a pizza foi incorporada como um prato “local”. No Rio Grande do Sul, a influência italiana na culinária pode ser vista também nos cafés coloniais, onde se pode desfrutar de uma mesa farta; nas galeterias, onde o frango é servido com polenta e uma massa fina, conhecida como “cabelo de anjo”; e no vinho, que por influência italiana, e com o auxílio de um clima mais favorável, passou a ser produzido na serra gaúcha.

Essa influência se estende até ao futebol, onde ainda há clubes cuja tradição se liga ao passado do imigrante italiano, como o Palmeiras, de São Paulo, antigo “Palestra Italia”, que mudou de nome por causa de Segunda Guerra Mundial, quando os italianos passaram a ser hostilizados por estarem ao lado dos alemães no conflito. E o Cruzeiro, em Belo Horizonte, cuja fundação também se liga à tradição da colônia italiana.

É possível dizer que, assim com a mão de obra escrava fez do Brasil um país racialmente miscinegado, com grande presença dos descendentes do negro e sob forte influência das culturas africanas, o país seria outro sem os imigrantes italianos. No Brasil, a Itália hoje se encontra em toda parte, o que ajuda a fazer do nosso país um pedaço do mundo onde a diversidade melhor encontrou uma forma de convivência pacífica: não uma fonte de discórdia, mas de enriquecimento da vida.

 

 

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