Comecei a lutar Kunf Fu, uma arte marcial pela qual sempre me interessei, por buscar a harmonia entre corpo e espírito, saúde mental e física, matéria e espiritualidade. Estando já na idade em que os atletas se aposentam, vejo no Kunf Fu também a beleza de um esporte praticado até a velhice, como o Tai Chi Chuan. O declínio físico, segundo crêem os chineses, não impede que com a idade você se torne melhor, graças ao ganho paralelo em sabedoria.
Entre outras coisas, eu queria me exercitar na virtude da humildade. Meu sifu, o professor de Kunf Fu, tem a metade da minha idade e provavelmente numa briga de rua me partiria ao meio. Levanto as pernas como um mamute, minhas engrenagens enferrujadas somam-se a reflexos descoordenados e a barriga proeminente no espelho é a redonda evidência do que não podemos ser. Eu sabia que passaria por pafúncio e mesmo assim decidi ir adiante. Assumi o papel temporão de gafanhoto, como o astro da antiga série de TV Kung Fu, quando jovem aprendiz.
No final da minha segunda aula, no entanto, o sifu se despediu assim de mim: “Até mais, doutor”. Não é só por causa da minha idade. Mesmo quando me inclino como o mais humilde e inepto aprendiz, há algo em mim que as pessoas interpretam como uma postura meio professoral. Já era assim na revista Veja, quando eu tinha 25 anos de idade e o jornalista Elio Gaspari, venerado diretor-adjunto da revista, com mais tempo de profissão do que eu tinha de vida, me dava o mesmo tratamento. “E aí, doutor?”
É difícil explicar o que acontece, já que pouco falei com o sifu. Lembro-me de ter lhe perguntado se conhecia o lado espiritual da vida dos monges shaolin, se estivera na China, e como esperava que eu batesse em alguém com o pulso dobrado sem quebrar antes a mão. Mais nada.
Isso me lembra a história de Dashiell Hammett, o mais célebre escritor de contos policiais da literatura americana. Por algum tempo, ele trabalhou no porto, como estivador. Como bebia até cair, com freqüência faltava no trabalho ou chegava atrasado. O chefe o chamou então à sua sala para uma decisiva conversa disciplinar.
- Você tem de prometer que não chegará mais atrasado, caso contrário eu terei de mandá-lo embora – disse o homem.
- Então me mande embora, porque isto eu não posso prometer – disse Hammett.
O chefe ruminou aquela resposta e depois de alguns instantes, vencido sabe-se lá por que força, cedeu.
- Está bem – disse ele. – Pode continuar mesmo assim.
Havia em Hammet alguma espécie de força imanente que lhe dava dignidade, mesmo sendo um encrenqueiro notório. Imagino que se tratava de sua firmeza em ser exatamente o que era, expressa na sua postura, na sua maneira de ser. Hammett era reconhecido por algum tipo de valor que não estava exatamente no que ele fazia, na maneira ou onde fazia, mas nele mesmo. Transpirava. Isto, mesmo intuitivamente, era reconhecido, respeitado e fazia com que tolerassem suas faltas.
Como disse certa vez sua mulher, a também escritora Lillian Hellman, ao vê-lo sair de um barco, numa roupa branca: “Você é o santo pecador de Dostoiévski!”, exclamou ela. Mais tarde, Hammett lhe perguntou o que desejara dizer com aquilo. E Hellman não soube responder exatamente.
Por isso, creio que tenho de me conformar em ser o “doutor”. Existem uma imagem que os outros fazem de nós, não importa o que façamos, como e onde façamos. Mesmo metido numa atividade da qual não sei nada, acabo sendo visto como alguém que sabe alguma coisa, ainda que as pessoas não entendam exatamente o quê é que eu sei e que me dá esse diploma involuntário.
Também eu gostaria de descobrir o que é. |