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12/12/2008

* Entre a segurança e a liberdade

Todos os seres humanos precisam das mesmas coisas, mas os artistas, por definição, anseiam ainda mais por liberdade, algo associado à sua necessidade de autoexpressão. É uma força íntima que, se por um lado os faz serem mais investigadores, inquietos, e por isso às vezes desprendidos de algumas convenções, por outra os lança num certo conflito com outras necessidades básicas da vida, como a paz, a tranquilidade e tudo aquilo que podemos traduzir como “segurança”.

Conheço muito artistas que vivem claramente tal conflito. Admiram, invejam e buscam o que chamam de “normalidade”. Dependem da família, desejam a estabilidade e são capazes de viver por algum tempo de maneira dita convencional: criam família, têm filhos, mantém uma união estável. Quando alcançada, porém, a felicidade convencional devora a si mesma. Artistas sentem-se presos, entram em crise.

O artista sente sempre necessidade de se reinventar; a rotina logo o leva a sentir o velho desejo de mudança. O que faz o artista é essa ansiedade essencial, a busca permanente pela vida, um sentimento muita vezes confundido com insatisfação. O que faz das pessoas criativas incansáveis perseguidoras da felicidade é também o que muitas vezes as leva a sofrer.

Pessoas estáveis, com relação com alguma atividade artística ou não, também necessitam de liberdade. Certos períodos da vida, quando se exige ainda mais responsabilidade, nos levam a um estado de saturação da deternminação exterior em nossas vidas que, sem algumas doses de mudança ou de liberdade, podem acabar numa explosão, como numa panela de pressão. Nesses momentos, se quer mudar de casa, de casamento, de país. Em suma, de vida.

Para todos, é assim: balançamos entre uma coisa e outra, segurança e liberdade, querendo fugir e ao mesmo tempo ficar, querendo família e ao mesmo tempo independência. A maturidade nos ensina quando estamos no limite, seja da liberdade sem segurança, seja da segurança sem liberdade. Mesmo assim, o equilíbrio sempre é muito difícil de alcançar.

Não por acaso, meu próximo romance (Amor e Tempestade, a ser lançado em março pela Objetiva) é sobre esse assunto. Discute o que nos faz ficar, o que nos faz partir e o que nos faz voltar. Não é um romance sobre artistas, mas sobre gente comum, cujo destino acaba por adquirir contornos extraordinários. Aventura ambientada no período da história brasileira em que a Coluna Prestes andava pelo sertão do Brasil numa jornada épica, Amor e Tempestade procura desvendar a fórmula para aquietar nossos demônios e encontrar a paz que tanto associamos a uma felicidade verdadeira, porque duradoura, vencendo a ansiedade.

A escolha entre segurança e liberdade não é difícil: é inútil. Trata-se de um falso dilema, pois precisamos de ambas as coisas. Somos infelizes quando perdemos uma delas. Não há homem na segurança perfeita, assim como não há ser humano completamente livre. O aprendizado da vida é saber andar não em escolhas bem definidas ou opções radicais, mas num equilíbrio precário. O tempo muda, as condições mudam, as pessoas mudam, e o que precisamos também muda – o artista, mais que tudo, mostra como é duro acertar.

 

 

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