Faz três meses que minha mãe faleceu; ela se torna mais distante, porém é comum que me venha em certos momentos: quando escrevo, quando estou sozinho ou por vezes quando faço algo banal, como subir uma escada, comer uma fruta, vestir o pijama, colocar meu filho na cama. São pequenas coisas do cotidiano que por alguma razão estão associadas a ela, quando me dava de comer, me vestia para dormir, me ajudava a caminhar, quando eu ainda não fazia muitas coisas sozinho.
Alguém que sofre uma perda importante fica uma lástima; ficamos fugidios, calados, pensativos; às vezes a gente tem vontade de chorar no meio do jantar, ou no trânsito, ou quando passa uma criança chupando um picolé. A vida vai seguindo enquanto aquilo vai sendo resolvido dentro de nós, tanto quanto possível. Não é apenas a perda que tem de ser resolvida, mas nós mesmos: o que os outros fizeram em nós é sempre parte da gente, sua herança está em nossa presença.
Quando penso em minha mãe, penso em mim mesmo: falhas e virtudes, fraquezas e forças, importância e insignificância; penso na fragilidade da vida e o que podemos fazer com ela; penso que minha mãe ainda pode fazer algo por mim e que dessa forma ninguém morre; penso no meu filho, no que posso fazer por ele e representar para toda sua vida.
Comecei a escrever um novo romance, mas por vezes percebo que minha cabeça está em outro lugar – ainda com minha mãe. A gente sabe como é duro perder um ente querido, mas isso é diferente de sentir, passar pela experiência, viver o cotidiano de três anos de tratamento de câncer, dormir no hospital ao lado da mãe em fase terminal, assinar os papéis do cemitério.
Momentos que não saem da minha cabeça: o seu olhar diante da morte, a beber o que estava ao redor, um olhar silencioso e fixo, de quem se agarra à vida com o último sentido; o lençol manchado no quarto do hospital, no qual se podia ler todo o sofrimento humano, intacto ainda horas depois de ter sido retirado para o necrotério; as palavras frívolas de uma enfermeira falando ao telefone, sem saber que o filho da paciente voltara ali para buscar um crucifixo esquecido (“pois é, sabe, a mulher que estava aqui? Morreu”).
E mais: o corpo de minha mãe no necrotério, ainda por ser vestido; o peso do caixão que empurrei para dentro do rabecão; a noite que passei sozinho ao lado do corpo no velório, até chegarem as primeiras pessoas, pela manhã - a porta estava quebrada e ficava aberta para o cemitério; pouco antes de raiar o dia, quando minhas pernas fraquejavam e eu pensava “nunca mais esquecerei isto”, trovejou e choveu. O sorriso de minha mãe vestida de flores, feito de batom cor de rosa, algo que em vida ela nunca usaria; a caixa descendo na tumba; a minha consternação diante da ausência, do absurdo da morte, que é também o absurdo da vida.
Por vezes, me sinto tentado a parar o que ando escrevendo para escrever sobre minha mãe, minha infância e meu filho, três coisas que hoje se misturam em minha cabeça de tal forma que viraram uma só; porém resisto, sem saber se é melhor fazer isso agora, ainda no calor da hora, ou mais tarde, com a cabeça mais fria. Talvez seja preciso uma certa distância, para certas memórias não parecerem triste demais; dar às lembranças o peso mais justo, poius a vida é feita muito mais de vida, de luta, alegria, alento, de força vital, que dos momentos finais e da sombria lembrança de morte.
Tenho já na cabeça a idéia de um livro, que vai crescendo como numa necessidade interior, se tornando mais urgente. Não para conservar minha mãe, pois um livro de memórias, por melhor que seja, jamais será a pessoa rediviva, isto é, nada é fiel; será sempre a lembrança que temos de alguém, nossa versão deturpada pela maneira que vemos as coisas, o nosso ponto de vista. Quero escrever para mim, porque lembrar em livro é a melhor forma de esquecer.
Um livro fecha um período; mesmo quando um acontecimento marca a vida para sempre, o livro parece que tira aquilo de dentro da gente, transforma o passado num "objeto" independente; acontece uma certa transferência do que está dentro de nós para aquela caixa muda, cheia de sinais, que só falam quando a abrimos: assim a dor é guardada em um canto, sob controle.
Muita gente escreve livros para ficar em paz consigo mesma, aceitar o passado, resolver o irresolvível, às vezes de maneira meio inconsciente. É diferente de desabafar em um diário ou um blog. O blog é uma coisa que sempre continua. O livro não, a gente fecha e ele acaba. Assim passamos a ver aquele ciclo simbólica e afetivamente como encerrado, resolvido como a trama de um romance. E, mesmo sem apagar o que ficou, muito pelo contrário, vamos nos sentindo quites com aquilo e mais em condições de construir uma nova felicidade.
É disso o que sempre precisamos, ir adiante, sermos felizes, mesmo neste mundo conflituoso, onde vida e morte, fraqueza e força, alegria e tristeza parecem fazer parte de uma coisa só. |