Há oito anos, minha vida parecia estar sendo sugada por um buraco negro. Num exame de rotina, quando investigava uma dorzinha em outro lugar, descobri um pólipo na bexiga. Era um tumor maligno, por sorte flagrado em estágio inicial.
À cirurgia seguiu-se o pesadelo físico e mental de enfrentar a morte de frente. O câncer de bexiga é recorrente. A probabilidade de que ele volte nos primeiros anos é de 70%. O meu voltou. Tive que fazer tratamento com BCG, que deixava minha bexiga em carne viva, queimada por dentro. Urinava pedaços de pele. Nunca imaginei que um órgão antes despercebido pudesse ter um efeito tão devastador.
Aliado à dor, havia o inferno psicológico: a paranóia, a solidão e a sensação de que eu jogara a vida fora. Estava convencido de que era culpado pela minha própria doença, resultado de alguma somatização por meus erros acumulados. Havia somente uma esperança: melhorar a mim mesmo, ganhar a paz e, com ela, se havia mesmo relação entre a mente e o corpo, recuperar minha saúde.
A mente ajuda o corpo, é verdade, mas ninguém é culpado por uma doença. Transferimos a culpa a nós mesmos porque fazemos um julgamento radical de nossas faltas. E acreditamos que, se consertarmos aqueles erros que nos fizeram perder a saúde, poderemos recuperá-la. Mas as coisas não são bem assim. Quando vencemos a doença, porém, esse processo de autocrítica e a mudança de vida se tornam importantes, porque ao ganhar a vida, temos a oportunidade de aproveitá-la muito melhor. Todos deveriam pensar nisso e melhorar, sem que fosse preciso levar um choque tão brutal.
A experiência do câncer é das mais duras pelas quais se pode passar. Vi como eu era fraco e dependente dos outros. Vi como não há lugar na vida para a arrogância. Descobri a importância da fé. Atravessei um processo profundo de autoconhecimento. Passei a buscar a felicidade sem perder tempo. Sobretudo, me aproximei das outras pessoas.
Talvez pelo mito da auto-suficiência que construímos, nós, homens, muitas vezes temos mais dificuldade em lidar com a dor e a sensação de impotência diante de uma doença fatal. Entramos em parafuso. Procurei transformar a saída do câncer em uma maneira de ganhar a maior das coragens, que é encarar o medo, aceitar os fatos da vida com dignidade e preparar-me para quando chegar a próxima vez de encarar o fim, ainda que venha a ser realmente a última.
Como a maioria dos escritores, que aproveitam a experiência pessoal como combustível de sua literatura, transferi essa travessia para minha quarta obra de ficção (Campo de Estrelas, da Editora Globo). No livro, a luta contra o câncer se mistura a lembranças do passado, uma antiga viagem de filho e pai a Machu Picchu, relato de aventuras por um país estranho, que os aproximara pela primeira vez dos mistérios da vida.
Um personagem do passado, misto de príncipe inca, anjo, mendigo e vigilante, é o elemento que pode trazer as respostas para as angústias do presente – a cura, ao menos, da alma. Nele está a chave não para a salvação, mas para nos tornarmos pessoas melhores e fazer da vida algo que valha mais a pena.
O personagem do livro, inspirado de fato num mendigo que vi nos Andes, tornou-se obra de ficção. Na minha luta pessoal, porém, encontrei vários anjos reais. Alguns foram pessoas que haviam vencido doenças graves, cujo exemplo reanimava quem ainda estava na batalha. Ajudaram-me não apenas a lidar com a doença como com o que vem depois da cura, pois o medo não vai embora com o tratamento – está presente no dia a dia de quem, como eu, percebe que a vida pode acabar de repente. E me ajudaram também a perceber como consertar meus erros e aproveitar a segunda chance que tive de viver para viver melhor.
A base da felicidade é a incerteza. Ninguém sabe quando vai morrer, ao mesmo tempo em que a morte pode acontecer a qualquer instante. Não podemos viver pensando que a morte é certa. Aquele que tem medo de morrer, morre um pouco todos os dias. E a doença nada diz sobre a expectativa de vida. Enquanto um doente se julga em risco máximo, sobrevive até o dia seguinte, enquanto outras milhares de pessoas saudáveis mundo afora estão morrendo antes dele, vítimas de causas repentinas.
Oito anos atrás, eu me achava à beira da morte; se me dissessem como estaria minha vida hoje, eu teria dificuldade em acreditar. Tenho uma mulher que adoro, Graziela, um enteadinho adorável, João Gabriel, e um filho de 2 anos, André Rayan, capaz de iluminar o mundo com um sorriso. Sei muito mais sobre mim, algo essencial para fazer melhores escolhas. Estou mais forte em todos os sentidos. Há seis anos estou curado, há dois liberado pelos médicos dos meus exames anuais da bexiga. Vivo em paz, faço o que gosto e estou feliz.
Procurei fazer de Campo de Estrelas não um livro de auto-ajuda, mas um romance em que as pessoas podem encontrar amparo contra o medo e encontrar o que pode fazê-las mais felizes, encontrando amor e paz de espírito. O exemplo humano é o maior conforto, e não há nada como o romance para mostrar uma experiência de vida de maneira forte e genuína. Por trás dos trechos mais ficcionais do romance estão as emoções mais verdadeiras. Campo de Estrelas não oferece respostas exatas, mas mostra um caminho para que as pessoas encontrem sua própria saída da tormenta. É também a minha forma de retribuir às pessoas, agradecido, todo o carinho e apoio que delas recebi. |