Perguntei a Fernando Meirelles, numa sala de reuniões da sua produtora, a O2, se não achava difícil fazer filmes comerciais com uma certa preocupação social, dada a indiferença do grande público às obras mais politizadas, ou capazes de fazer pensar. Ele disse que não.
- Nos Estados Unidos, esse filme que fica no meio do caminho entre o filme de arte e o filme comercial hoje é até considerado um nicho de mercado – afirmou. – É o que eles chamam de “smart art”.
Meirelles não pensa apenas no mercado. Seu primeiro filme de sucesso, Cidade de Deus, segundo ele próprio, “tinha tudo para ser um fracasso”. Era um filme de favela, tema que causa certa repugnância no público brasileiro, de um diretor então desconhecido, com atores anônimos. Meirelles o fez porque em primeiro lugar vinha seu interesse como artista. Sem suas convicções, Cidade de Deus jamais teria existido.
Depois de Cidade de Deus, Meirelles adotou o modelo de diretores como Pedro Almodóvar ou os irmãos Cohen, que fazem filmes com orçamento na casa dos 20 milhões de dólares, nível médio pelos padrões da indústria internacional de cinema. Busca um público também de tamanho médio, um pouco mais elitizado, que quer entretenimento com um pouco mais de inteligência.
Nessa linha da smart art, Meirelles fez “O Jardineiro Fiel”, estrelado por Ralph Fiennes, no qual joga com a mais antiga isca de bilheteria – uma história de amor - num filme sobre a desumanidade criminosa das empresas. Também crítico da natureza humana, Ensaio Sobre a Cegueira preserva muito da obra original de José Saramago, um autor também colocado na intersecção entre o cult e o popular.
Ensaio Sobre a Cegueira caiu mal nos Estados Unidos, onde foi lançado em mais de 700 salas, simultaneamente, como se faz com as obras das quais se espera o comportamento de um blockbuster. Otimismo exagerado por parte do distribuidor, segundo Meirelles, considerando que o mercado americano nunca foi muito afeito ao cinema mais crítico. No Brasil, visto por quase 1 milhão de espectadores, Ensaio tornou-se sucesso de bilheteria, mesmo sendo um filme brasileiro preparado para o mercado externo, falado em inglês e com atores estrangeiros.
Pessoalmente tímido e um tanto fugidio, Meirelles usa a obra alheia para reafirmar idéias próprias. Faz adaptações de romances que têm certa preocupação filosófica ou social, com um pouco da sua visão do mundo, como as obras de John Le Carré, de quem levou para as telas o Jardineiro Fiel, e o próprio Saramago. Ele gosta do romance e seu trabalho vem de uma base cultural e política. Não há dúvida, Meirelles quer, com sua obra, não apenas ser um artista, como um artista importante, com influência sobre a opinião pública.
Mais que um idealista, é um intelectual de ação.
No início de dezembro, Meirelles ganhou o prêmio Paulistanos do Ano, entregue pela revista Veja São Paulo às personalidades que mais se destacaram na cidade, segundo os critérios da publicação. Autor do perfil de Meirelles publicado pela revista nessa edição, eu estava ao lado dele, na hora da premiação. Primeiro a ser chamado ao palco, em seu discurso Meirelles agradeceu o prêmio, mas disse que o entregaria ao juiz De Sanctis. Para quem não sabe, De Sanctis é o homem que mandou para a cadeia o banqueiro Daniel Dantas como um larápio comum. O cineasta elogiou o trabalho e o caráter de De Sanctis em tom de desagravo, devido às críticas que o juiz tinha recebido na imprensa. E declarou que ele, sim, era o Paulistano do Ano.
Meirelles não ficou para ver os prêmios restantes, nem para a festa - foi embora depois de passar por mim com um rápido cumprimento. A maior parte da imprensa ignorou suas palavras no palco e preferiu destacar da cerimônia, como de hábito, a elegância das beldades que entregaram as estatuetas de bronze e o choro emocionado da apresentadora Hebe Camargo. Os veículos envolvidos no jogo de acusações entre o banqueiro encrenqueiro e o sistema que o enviou para a cadeia preferiu fazer ouvidos moucos ao manifesto do cineasta.
A coluna de Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, porém, registrou depois que Meirelles estava falando sério: mandou mesmo seu troféu para De Sanctis, que o colocou em sua mesa como uma distinção especial. Sobre a placa com o seu nome, Meirelles colou um novo papel transferindo ao juiz o prêmio. E achou jeito de tornar pública sua homenagem.
Homme meticuloso, que diz em Cidade de Deus ter feito praticamente "três filmes dentro de um só" pelas diferenças técnicas entre as partes, Meirelles parece ser um artista de antigamente no comportamento. Diz que a bajulação da indústria americana aos diretores estrangeiros é uma janela “temporária”, jogando longe o deslumbramento com a fama e o prestígio recém adquiridos. Recusa trabalhar a soldo de Hollywood (deixou de fazer um fime de James Bond), para trabalhar como em Hollywood: produz os filmes, contrata atores de primeira linha, faz sua distribuição mundial. Não se rende às fórmulas óbvias, ao trabalho mais fácil, aos bajuladores - e agora resgata o gesto político, como se fazia na década de 1960.
Ele está certo, pois num mundo vitimado pela indiferença, é disso que precisamos: não de celebridades vazias, mas de intelectuais capazes de falar e fazer o que é importante. Assim como de juízes que mandem gente para a cadeia sem distinção do colarinho, precisamos de artistas que não busquem apenas ganhar dinheiro com o mercado de massas ou se aproveitar de seus cinco minutos de fama, mas que tenham voz, opinião e desejem de fato o bem coletivo, que valorizem o mercado brasileiro e a cultura nacional e desafiem o status quo.
Meirelles é tudo isso, sem ser um artista da contracultura, isto é, um autor marginal. Ele é um exemplo do que todos nós podemos ser: alguém capaz de fazer a inteligência penetrar num número maior de cérebros, sempre ao lado das boas causas. Esse é um troféu imaginário do qual ele não pode se desfazer e de que ele também pode se orgulhar. |