Comecei a achar o Brasil realmente diferente, quando guiava ontem, pela Av. Morumbi. É uma passarela de carros importados, que disputam em ziguezague a preferência para escapar dos eternos engarrafamentos. Ontem, porém, parecia outro lugar, quando vi uma moça a bordo de um Ka, à minha esquerda, parar no meio da pista para que um homem pudesse atravessar.
Pisquei os olhos, incrédulo: me pareceu, na nossa selva de pedra, um gesto inusitado, improvável, quase inverossímil, de gentileza. Contagiado com a nobre atitude, parei também, dando passagem.
Achei que aquele era um gesto solitário, uma flor no deserto, mas estava enganado. Estamos cansados de ouvir casos contrários e eu mesmo narrei aqui outro dia o assalto a uma vítima de trânsito. Mas rodando pela cidade, meia hora depois, dei com a mesma cena, de novo: dessa vez, uma Xeroqui parava na rua para passar uma mãe, fora da faixa, puxando pelo braço a filha pequena.
Pensei, de estalo: não há de ser coincidência. Há bons exemplos. Há humanidade na selva de pedra. Não um resto dela, mas um broto. O brasileiro pode, realmente, estar começando a mudar.
Eu me lembro da primeira vez em que fui à Europa, vinte anos atrás, quando o Brasil ainda era um economia soviética e ir para Nova York quase tão difícil como visitar a Lua. Desci de avião em Zurique, na Suíça, onde os trens partem exatamente nos minutos e segundos previstos na tabela. Ficava pasmo com o silêncio ao meio dia, quando em plena Banhoff Strasse, o calçadão mais movimentado da cidade, se ouvia ressoar os passos dos pedestres, tal era o silêncio na multidão.
E, claro, havia os carros. Todos paravam para os pedestres passarem, ainda que fora da faixa. Eu atravessava as ruas de um lado para outro, sem necessidade, como um moleque travesso, só pela diversão de fazer todo mundo parar. Pensava: isso que é civilização!
Talvez esse nível de civilidade dos povos se alcance com as dificuldades. Os europeus passaram pelas guerras, pela pobreza, pela mais vil das fomes, antes de serem mais solidários. O mesmo acontece com os americanos, povo de uma integração quase mecânica. Muitas vezes, ficamos tão fascinados com sua objetividade e seu espírito de competição que nos esquecemos do respeito que eles têm pelo direito, do seu amor ao país e da pronta reação da sociedade às dificuldades individuais e coletivas.
O brasileiro, não. O Brasil sempre foi um país selvagem. Desde os índios antropófagos, que se repastaram com o bispo Fernando Sardinha, até os políticos de hoje em dia, que são os nossos canibais contemporâneos, o instinto de sobrevivência sempre se manifestou no Brasil inequivocamente acima do interesse coletivo. Aqui, salva-se quem puder. Especialmente os ricos, que têm mais a salvar.
A brutalidade do crime, a pobreza, a marginalização estão fazendo no Brasil o papel que para outros países fizeram duas guerras mundiais, entre outras tantas guerras. O brasileiro já começa a não pensar em si mesmo. Passa a pensar nos outros. Percebeu que sua paz depende do bom tratamento dos outros. Que sua tranquilidade pessoal depende do bem coletivo. Eureka.
Isso implica em muita coisa. Cada sujeito que deixa a gana de passar na frente a qualquer preço, sem pruridos de atropelar uma viúva, uma criança ou um cachorro, é o germe de um novo país. Começa a desconfiar que, mudando de comportamento, não será atropelado de volta, e não só o Brasil como o mundo ficam bem melhor.
Hoje me dou conta da extensão do que aconteceu no Barsil na era Lula. E por que Brasil tem estado tão feliz com o Lula. Mais que o objetivo econômico, a expectativa do eleitor que o colocou no governo era o de que ele diminuísse a pobreza geral, trouxesse mais respeito à pessoa. O governo que procura dar valor aos mais pobres está voltado para o bem comum de verdade.
Isso hoje prova-se benéfico para todos. Incluindo os mais ricos, que podem desfrutar de uma economia doméstica mais forte, com mais consumo, e ganham mais dinheiro, além de paz nos cruzamentos de trânsito. O fortalecimento do consumidor brasileiro, que aumenta a classe média pela base, nos protege mais das crises externas, como a que ronda por aí. Dependemos menos do dinheiro que vem de fora e das exportações.
O Brasil parece ter entendido que o progresso depende de uma mudança social e coloca isso em prática. Esse é o nosso grande salto dos últimos anos. O que se quer ainda deste e do próximo governo é ir mais longe no sentido de dar uma outra perspectiva social para o Brasil.
Lula, mesmo sem ser nenhum gênio, apenas por ter vindo também de baixa extração, propelido por uma sorte que projeta assim poucos personagens na História, acabou tomando a dimensão de um estadista. O homem do povo, que quase atrapalhou tudo com a corrupção nas fileiras do governo, muito graças à fiscalização da imprensa, salvou-se da pecha de ladrão para no final cumprir o papel esperado. Porque quem governa não é ele, é o povo brasileiro.
A democracia brasileira, com todos os defeitos do sistema, está funcionando. O fato de que brasileiros votaram num ex-torneiro mecânico, fizeram-no gtrabalhar na direção desejada e agora pararem na rua para a travessia dos pedestres mostra que temos jeito. Indica que nosso país, o eterno país do futuro, o ex-“gigante adormecido”, já mostra no presente que está se levantando. |