Eu devia ter dez anos quando meu avô, José Fiorini, apareceu na porta de casa dizendo que dali em diante iria morar com a gente. Não tinha bagagem; vinha apenas com o seu chapéu inseparável. Tinha já mais de oitenta anos, mas chegara em casa a pé: acostumado desde a infância a andar entre as fazendas de café no interior de São Paulo, ele raro tomava alguma condução. Apenas chegava e saía andando.
Vovô José passou a morar na edícula do sobrado na vila da Casa Verde onde morávamos, naquela metade da década de 1970. Eu adorava a presença dele. Vovô era um grande contador de histórias. Falava do pai, Mauro (na foto, com minha bisavó Alice), dos irmãos, das irmãs, como personagens de contos de fadas, desde os tempos míticos de Garibaldi, na Itália, quando meu bisavô teria derrubado no chão um marquês que lhe oferecera emprego se ele se livrasse dos oito filhos, e do navio San Giorgio, que trouxera todos da Itália para o Brasil.
Entre suas muitas histórias, todas feitas de amor e de coragem, vovô cantava. Tinha uma memória extraordinária e era capaz de passar horas a fio emendando uma canção na outra. Umas eram modas caipiras do interior paulista, que falavam da valentia daqueles homens do sertão bravio, outras eram músicas populares italianas que aprendera com os oriundi nas colônias de café onde passara sua infância. Somente a Pia de Tolomei levava uma hora inteira para ser cantada.
Além de ouvir histórias, eu ajudava vovô como podia. Certa vez, ele comprou uma máquina zero e me pediu para raspar sua cabeça, que tinha muitos fios brancos e ralos. Levamos uma cadeira para o centro da vila, colocamos ela ali e cortei os cabelos dele.
Eu via aqueles fiapos brancos indo para o chão de paralelepípedos e sentia que havia naquele momento algo especial, não apenas de neto e avô, mas uma proximidade inexplicável que tinha alguma coisa de atávico. Muito mais tarde, na Itália, quando vi os italianos cortando o cabelo na rua nas cidadezinhas tranquilas do interior, da mesma forma que jogavam baralho ou dominó em mesinhas na calçada, entendi como o comportamento de um povo pode estar dentro da gente, não importa onde a gente possa estar.
Soube também mais tarde que meu avô fôra morar em casa porque brigara com o filho mais velho, Arnaldo. Depois da morte de minha avó, já não havia quem apartasse suas brigas. Arnaldo ressentia-se de vovô por ter perdido a fazenda da família na crise de 1929, o que os levou a perambular pelo interior e depois a morar em São Paulo, uma vida bastante dura, da qual vovô, no entanto, jamais reclamara.
O velho José achava que um homem de verdade tinha de trabalhar e viver sem queixas, como fizera seu próprio pai, que começara do nada, apegado aos tantos filhos, encarando primeiro a Itália devastada pela guerra da unificação e depois um Brasil desconhecido e ainda meio selvagem. Para vovô, como o velho Mauro, o valor do homem estava nele mesmo, e não em suas posses. Um homem de verdade podia ficar sem nada, mas tinha o suficiente para se levantar. Essa era a base do seu orgulho, independentemente de quanto tinha na carteira. E o orgulho é a única coisa que não se pode perder jamais.
Vovô depois foi morar com uma tia, mas mantivemos contato até que ele morreu. Sua coleção de histórias foi transformada por mim num romance, Filhos da Terra, ao qual acrescentei um pouco de fantasia, mas que é inspirado em acontecimentos e personagens verdadeiros. Ali está, sobretudo, o espírito indomável dos Fiorini, feito não só de amor e coragem como de sonho - um conjunto que nos faz ir adiante e mantém os laços da família até hoje.
*
Tio Arnaldo morreu bem antes de vovô, atropleado no centro da cidade. Uns dizem que tinha bebido; outros, que estava distraído, lendo um jornal. De uma forma ou outra, por causa de vovê, sempre pensei nele como o filho errado, que não respeitara os princípios estabelecidos pelo pai e que, de alguma forma, pagara por isso não apenas com a tristeza, como fora castigado pela vida. E imaginei quanto tinha sido duro para o meu avô, que sempre admirara tanto os fortes, ter um filho primogênito que considerava fraco.
Lembro de meu tio Arnaldo, um homem fechado, que dormia num quarto meio sombrio, entrava e saía sem dizer palavra e tinha um velho revólver escondido em uma gaveta. Vovô me contou que mandara o filho usar o revólver nele, depois que o derrubara no chão em uma briga de madrugada, quando Arnaldo chegara em casa bêbado e tentara agredi-lo. Acabara ele mesmo no chão. “Te derrubei, agora você pega aquela tua garrucha e me mata”, disse vovô ao próprio filho. Tio Arnaldo ficou por ali mesmo, esparramado, o que só acrescentou a vovô ainda mais desgosto. Para ele, qualquer agressão se pagava com sangue. Ainda que vinda de um pai que agira em defesa própria.
Neste Natal, soube pelo primo Rogério que na tumba dos Fiorini o falecido Arnaldo está sem a placa com seu nome. Me dispus a pagar uma, não apenas para meu tio ser lembrado, como para nos lembrar de que ele era um Fiorini como os outros. Não um fraco, caído em desgraça, mas alguém que com treze anos de idade viu a família passando necessidade e puxava a carroça de leite ao lado de meu avô e desejava para todos um destino diferente. Um homem pode se perder no caminho, mas ele continua, onde estiver, a dividir o amor de seus familiares, além dos valores com os quais por toda a vida se viu confrontado. |