Meu filho André, de dois anos, recentemente descobriu o Lobo Mau. Pegou medo do bicho recorrente em histórias como Chapeuzinho Vermelho, Os Três Porquinhos e Pedro e o Lobo. “Não vai pigá o Andé!”, passou a avisar o bicho, ameaçador. Começou a ter medo do escuro. De noite, antes de dormir, perguntava: “Não tem lobo?”
André é um menino corajoso. Dorme sozinho no quarto, de porta fechada, e nunca pede para dormir com a gente, mesmo depois de ter descoberto o Lobo Mau. Resolvi ajudá-lo. Outro dia, levei-o ao zoológico de São Paulo. Queria lhe mostrar, entre outros bichos, o lobo de verdade. Para desmistificá-lo.
Quando nos postamos diante da jaula do lobo europeu, aquele bicho pouco maior que uma raposinha, André desapontou-se. “Esse é o lobo?”, perguntou, como quem não acredita. “Pois é”, disse eu, satisfeito. “É menor que o Shazam.” (Shazam é o pastor húngaro que temos lá no sítio, um cachorrão branco e peludo, que André, quando era ainda menor, achava ser um urso polar). “É menor que o Shazam...”, murmurou ele, confirmando. “Pois é, o Shazam dava uma corrida no lobo, se ele aparecesse lá no sítio”, disse eu.
Dei a coisa por resolvida, mas qual o quê. Toda noite, quando ponho André na cama, ele pergunta de novo: “O lobo não vem?”
Minha mulher, que me lembra o quanto o realismo é frustrante, disse que não adiantava eu ter mostrado o lobo de verdade. Que o lobo das crianças é um lobo diferente, um bicho imaginário, que sempre vai existir. De fato. O Lobo é o representante do Mal. Quando descobrimos sua existência, nos damos conta de que há seres, possivelmente pessoas, capazes de fazer mal aos outros, de nos fazer mal, a vida da criança muda. O Lobo Mau é o fim da inocência. E este é um momento sem volta. Depois de descobrir o Lobo Mau, as crianças – nós - nunca mais somos os mesmos.
Penso na função que as histórias infantis têm na educação. Por meio de figuras inventadas, elas preparam as crianças aos poucos para problemas reais. Peguemos Peter Pan: a história nos faz sonhar que podemos voar (“pense uma coisa bem boa”), mas também que existem piratas capazes de matar crianças, jacarés que comem a mão de seres humanos (engolem até o relógio), gente que pode trair por ciúme e inveja (a fada Sininho) e que crianças sem mãe são mais livres, porém tristes (meninos perdidos).
Para compensar a descoberta do mal, as histórias inventaram também os heróis, com superpoderes para combater o mal. Contra o Lobo, há os caçadores. Contra a Bruxa Má, há o Príncipe. Contra o Coringa, há o Batman. As crianças, especialmente os meninos, se apegam aos heróis porque é essa a esperança de sobrevivência num mundo que se descobre conflagrado. E os homens, desde meninos, julgam que cabe a eles a responsabilidade de serem mais fortes que o mal.
Precisamos dos heróis para compensar nossa insegurança, em um mundo onde a perversidade adquire forças extraordinárias.
No passado, ninguém tinha preocupação com os efeitos psicológicos das histórias infantis sobre a psiquê das crianças. Chegava a ser divertido assustá-las. Vasculhei minhas lembranças para tentar descobrir quando, tal qual meu filho, perdi a inocência. Não me lembro de ter me preocupado com o Lobo Mau. Mas lembro das madrugadas quando eu, já fora do berço, acordava e corria para a cama de meus pais. Enfiava-me entre eles, subindo pelo pé da cama, debaixo do lençol. Muitas vezes, era enxotado pelo meu pai. Outras, graças à interferência de minha mãe, conseguia ficar. Era uma delícia, e um alívio.
O pior filme que vi na vida – isto é, o mais aterrorizante -, foi Bambi. Pense bem na história: a mãe do filhotinho é brutalmente assassinada por caçadores. O pai aparece para salvar Bambi durante um incêndio, numa aparição única que, embora heróica, destaca a ausência costumeira do macho. E Bambi sobrevive para acontecer tudo de novo. Essa parábola sobre a existência até hoje me parece duma crueza assustadora e brutal. Bambi deveria ser liberado somente para maiores de 18 anos. Até hoje evito assisti-lo.
O ente maléfico que mais respeitei na infância não foi o Lobo Mau. Na Casa Verde, bairro de meus avós maternos, onde eu vivia pelas ruas de terra de estilingue na mão, empinando pipas e brincando de cabra-cega, naquele final da década de 1960, tempo em que a TV ainda era branco e preto e o melhor brinquedo com o qual se podia sonhar era a bicicleta, habitava o mais aterrorizante de todos os personagens da mitologia infantil, hoje desaparecido: o Homem do Saco.
Para mim, O Homem do Saco sempre foi a mais apavorante de todas as criações para assombrar as crianças justamente pelo fato de que nunca houve uma história sobre ele. Sabíamos o que acontecia com o Lobo Mau dos Três Porquinhos, mas nunca houve uma história do Homem do Saco. Ninguém sabia como ele era, muito menos o que fazia com o tal saco.
O Homem do Saco apenas se imaginava. E isso – o que é deixado para a imaginação – é que torna o personagem mais terrível. Quando alguém gritava, na rua – “O Homem do Saco!” – as crianças sumiam no mesmo instante. Iam para dentro de casa, enfiando-se debaixo das mesas ou, como eu, da saia da vovó. Ninguém acreditava muito nele, mas era bem mais realista, de qualquer modo, que os bichos das historinhas. Por via das dúvidas, era melhor cair fora.
Diferente do saci-pererê e o curupira, personagens folclóricos do Brasil no interior, o Homem do Saco era um vilão urbano. Hoje, volta e meia aparece um maníaco ou um assassino serial para provar que o Mal existe e assume formas hediondas. O Homem do Saco foi esquecido provavelmente porque foi superado pela realidade, incorporado ao cotidiano e ao noticiário das metrópoles. E eu me vejo, assim como o meu filho, desiludido com o mundo, aquele mundo onde podia perfeitamente haver apenas o Bem, feito pelas almas puras de criança, e para nossa surpresa, como o leite que azeda de repente, não há. |