Minha tia Malfisa sempre foi muito alegre; ainda lembro de 1970 (eu tinha seis anos de idade), quando ela apareceu em casa, com um bando de amigos, carregando bandeiras, cantando, gritando e fazendo todo tipo de barulho; o jogo final da Copa do Mundo ainda nem havia terminado, mas o Brasil goleava a Itália em sua partida mais consagradora e o povo inteiro comemorava.
Com seis anos de idade, eu nunca tinha visto uma festa como aquela – nem veria depois disso. Todo mundo foi para a rua no país inteiro; havia congestionamentos intermináveis, mas ninguém reclamava. Passamos pela casa de meus primos Rogério e Regina para apanhá-los e entramos no imenso congestionamento da Avenida 23 de Maio em direção ao Parque do Ibirapuera.
As pessoas estavam penduradas nas janelas e na carroceria dos carros, brincando e agitando bandeiras. Contrariado, papai acabou deixando Regina subir também no capô do Fusca 1300 enquanto rodava; São Paulo explodia com o buzinaço.
A Copa de 1970 foi um momento de esplendor do futebol brasileiro e um dilema político; diziam que a festa apenas contribuía para o clima de euforia nacionalista com que o governo militar queria anestesiar o povo brasileiro, para mantê-lo como corderinho no seu curral ditatorial. Para nós, crianças, a ditadura era algo distante, cuja presença se traduzia em colecionar em álbuns de figurinhas com a fotografia do presidente Emílio Garrastazu Médici ou nas aulas de Moral e Cívica, disciplina nazistóide com a finalidade de ensinar desde o hino nacional aos princípios do que se considerava o bom brasileiro.
Mas a ditadura existia ainda, na sua pior forma. Pela mesma época minha tia Malfisa, que conhecia muitos jornalistas de seu tempo como revisora do Diário da Noite, emprego que tivera ao par do magistério, escondia um bando de subversivos em uma chácara meio tomada pelo mato, no município de Suzano, próximo de São Paulo. Arriscava-se, porque, se descobertos os seus foragidos da justiça, certamente seria presa, interrogada ou coisa bem pior.
Naquele tempo, por sinal, o interrogatório já era algo que consideraríamos equivalente a coisa bem pior.
Era um tempo duro e perigoso, mas havia também alegria e humor. Lembro de certa noite, quando meus pais voltaram de uma visita a amigos, presos no quartel da Academia Militar do Barro Branco, na Zona Norte. Contavam como piada que, entre outros presentes, como maços de cigarro e livros, tinham levado um queijo palmira, aquele que é embalado numa lata vermelha, no formasto de um coco. Os carcereiros a tinham chutado pelos corredores como uma bola de futebol, na tentativa de abrir a embalagem, para verificar se lá dentro não havia uma arma ou uma bomba, sem saber que o queijo palmira se abre como a sardinha: com um abridor de latas.
Conto essas histórias para dizer que combater a ditadura naquela época não era apenas lutar pela liberdade política e o direito de expressão. Era também uma guerra à ignorância, com a qual estavam alinhados todos aqueles que eram a favor do atropelamento dos direitos humanos, das instituições democráticas e da liberdade individual. Era o iluminismo e a inteligência contra a estupidez e a brutalidade; a alegria libertária contra o opressor obtuso e truculento; era a luz sontra a escuridão, o Bem contra o Mal.
E pensar que o Brasil levou trinta anos para sair desse túnel escuro da nossa história, ao custo de muitas vidas e de um retrocesso de décadas na economia. Apesar de um transitório avanço econômico naquele início dos anos 1970, de grandes investimentos públicos e também muito endividamento, os governos militares pouco a pouco nos levaram à ruína, traduzida nos números massacrantes da hiperinflação.
A persistência dos velhos oligarcas que protegiam seus privilégios, por meio de relações obscuras com o poder daquele governo ilegítimo, que incluíam concessões favorecidas pelo poder público, subsídios e outras formas de dilapidação dos recursos públicos em benefício de particulares, fizeram com que o Brasil criasse uma máquina emperrada que atrasou o futuro, jogando o Brasil vinte anos atrás dos Estados Unidos e países da Europa.
Na minha juventude, vivíamos num estado quase soviético. Era proibido comprar produtos importados, os carros eram poucos, a maioria das empresas de serviços importantes eram estatais e funcionavam mal e o governo inchado que tinha de pagar aquilo tudo era um mastodonte da ineficiência. Como um rabo que corre atrás do cachorro, o governo intervia na economia a toda hora, baixando pacotes econômicos que deixavam as empresas atordoadas e a população cada vez mais empobrecida, sem resolver o probelma essencial da economia, que estava nele mesmo.
Como os militares acham indigno bater em retirada mesmo na mais fragorosa derrota, eles demoraram a se desapegar do poder, instituindo a chamada “transição”, que recolocou no governo o primeiro presidente civil em três décadas.
Tancredo Neves foi eleito, não eleito pelo povo, mas por um colégio eleitoral controlado pelo próprio governo, que tinha nesse novo modelo um representante: o vice-presidente José Sarney. Para infortúnio do país, Tancredo caiu doente na véspera de assumnir e morreu sem tomar posse, de maneira que tivemos de engolir Sarney por cinco anos, num período política e economicamente conturbado, enquanto se fazia uma nova Constituição que fosse a expressão de um país que desejava fortalecer a democracia e lançar-se para o mundo contemporâneo.
A juventude de hoje sabe dessas coisas pelos livros, mas não com o sentimento de quem teve de lutar pela volta à democracia, algo que para nossa geração não foi algo que chegou de graça. Por isso é importante dizer essas coisas, para lembrar que elas devem ser preservadas. Se o Brasil reencontrou a estabilidade da economia e condições de crescer novamente num mundo altamente competitivo, não foi graças aos presidentes eleitos, mas ao governo do povo que os elegeu, indicando o caminho desejado, desde o dia em que saiu às ruas no movimento das Diretas Já.
Não foi apenas a vida de nossos pais que mudou com o golpe de 1964; toda a minha geração sofreu a influência do que aconteceu. Eu, que nasci junto com o golpe de 1964, vi minha biografia acompanhar também a história dessa transformação.
Quando estudante, na década de 1980, participei do movimento estudantil, ainda na fase da transição democrática, que todos queríamos consolidada – o mais rápido possível. Como aluno de duas faculdades, Comunicação e Ciências Sociais, eu defendia ao lado de muitos colegas a despartidarização do movimento democrático, uma maneira de fugir às antigas rivalidades que emperravam o processo, em nome do interesse coletivo.
Por essa razão, minha geração foi interpretada como uma fatia despolitizada da civilização brasileira. Redondo engano. Éramos contra os partidos, as estruturas e as idéias vencidas de ambos os lados que tinham participado da luta fratricida dos anos 1960 e 1970, tanto as encasteladas no poder opressor quanto as de oposição, que tinham apoiado a guerrilha, e cujo passado de conflitos se tornava um obstáculo para a conciliação, não resolvida nem mesmo pela anistia geral.
Nossa atitude era pacífica, mas não passiva. Lembro de uma tarde, no início dos anos 1980, em que os estudantes tinham invadido a reitoria da USP para prostestar politicamente e o edifício precisava ser mantido ocupado. Durante a concentração de estudantes no prédio tomado, fiquei sentado todo o tempo juntoa a uma parede de vidro, olhando do outro lado, a dez centímetros de distância, os homens do batalhão da Polícia Militar, com bombas de efeito moral, escudos, capacetes e fuzis. Estávamos armados somente com a coragem de permanecer ali. Com os canhões, atiramos flores.
Em 1984, eu também ajudei a somar os dois milhões de pessoas naquele domingo de manhã em São Paulo, em que as principais lideranças políticas de oposição, algumas das quais se tornariam futuros presidentes eleitos da república, se juntaram num comício que foi a maior manifestação cívica do Brasil em todos os tempos. Foi o momento culminante da campanha pelas Diretas-Já, um movimento pacífico que, se não rendeu frutos imediatos, fazendo aprovar no Congresso a emenda das eleições diretas para presidente, selou a vocação deste país como um lugar de liberdade, de livre iniciativa e de um povo alegre, ordeiro e tolerante - exemplo de comportamento para o mundo inteiro. Bastou mostrar ao governo que ninguém pode ir contra a vontade da maioria esmagadora, e que a democracia, de um jeito ou outro, era inevitável.
Mais tarde, como jornalista, trabalhei na reportagem de todas as turbulentas reviravoltas da economia que foram minando o governo militar até as que tornaram a transição um ponto sem volta, já no governo Sarney. Esse trabalho foi coroado com a cobertura da primeira eleição presidencial em 30 anos, pela qual eu, editor de assuntos nacionais da revista Veja com apenas 25 anos de idade, recebi com minha equipe em 1989 o prêmio Esso de jornalismo político.
Hoje, quando a democracia e o progresso parecem coisa tão natural, receio que o brasileiro volte a fazer corpo mole. É preciso lembrar o passado para que as novas gerações saibam que nada disso foi obtido de graça – e que é preciso cuidar delas para conservá-las.
O brasileiro não pode voltar a amparar-se apenas na riqueza de sua terra e na convicção de que tudo aqui é fácil. É preciso trabalhar, agir com seriedade na administração privada e pública, para que nossos recursos possam ser aproveitados e gerem riqueza benéfica para todos. É preciso ainda zelar com firmeza pela justiça e para que sejam preservados os princípios de igualdade e liberdade, honrando o sacrifício daqueles que perderam a vida ou muito dela para chegarmos aqui.
A história desses anos é o resgate do país dos sonhos de todos nós, nossos e de nossos pais; este é o nosso triunfo e a herança que deixamos aos mais jovens. É esse bastão que passamos aos nossos filhos e espero que meu André possa também um dia poder ler estas palavras e pesá-las, ele que já tão pequeno sabe a importância dos outros para o nosso próprio bem estar. |