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10/1/2009

* Woody Allen: criação e criatividade

O jornalista americano Eric Lax construiu, ao longo de quase quarenta anos, uma sólida relação com o cineasta Woody Allen, que entrevistou e acompanhou em várias oportunidades. Uma compilação de suas entrevistas, publicada agora em livro (Conversas com Woody Allen, CosacNaify, 482 pág.), mostra não apenas a evolução das idéias de Allen em sua longa e prolífica carreira, os bastidores da criação de cada um de seus filmes, o seu método de trabalho. Revela o próprio mecanismo da criatividade e sua relação com os interesses expressos e ocultos de um autor.

É um prato cheio para quem gosta de saber como as coisas funcionam.

Allen começou sua carreira como um admirador de Bob Hope, o comediante americano que, além de escrever e interpretar suas próprias piadas, era ele mesmo a piada – um showman do riso. Em filmes como Bananas, Allen se tornou diretor e intérprete de comédias engraçadas, sem outras ambições além de fazer rir. Porém, sempre foi um admirador de Ingmar Bergman, que considera um ícone do drama, um gênero que considera superior, e sonhou fazer filmes com a mesma profundidade.

Mesmo dentro da comédia, isto o levou a buscar filmes que buscassem não só o riso como traduzir “questões piscológicas, ou românticas, ou existenciais”. Conseguiu essa passagem com Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (“Annie Hall”), premiado com quatro Oscar, entre eles o de melhor filme e diretor. Foi a obra que o lançou num patamar mais respeitável, não somente perante o mercado como, ele admite, para si mesmo.

Até quando aborda o gênero policial, é a preocupação mais ampla com o ser humano que ele busca colocar em primeiro plano. Como em O Sonho de Cassandra, em que a morte não aparece, é somente sugerida. “Não estou interessado no assassinato em si”, diz ele. “Ele acontece para os caras poderem falar de culpa e de Deus.”

Agora na sua sua maturidade, Allen aparece menos nos filmes que produz. Livrou-se de si mesmo e de seu compromisso com a comédia, à qual muitas serviu por uma facilidade inata e sua característica como ator, menos convicente num papel dramático. Agora sente-se mais à vontade para escrever e produzir uma obra que, apesar das mudanças, continua a ser bastante autoral. É mais difícil reconhecer seu antigo estilo em filmes como os recentes Ponto Final ou Vicky Cristina Barcelona. Mas ele está lá – não um novo Allen, mas talvez o que ele tenha sempre querido ser.

Em Ponto Final, Allen explora a inexistência do sentimento de culpa, mesmo pelo crime mais vil, quando não há castigo – ou quando não há Deus, o vigilante onipresente que nos coloca como juízes de nós mesmos. Em Vicky Cristina Barcelona, investiga a incapacidade humana de mudar de vida, por meio de duas personagens femininas numa viagem a uma cidade inspiradora. Não são comédias, exceto pela visão geral de que a vida é uma comédia, assim como é também um drama.

Embora Allen não apareça nesses filmes e somente em alguns momentos se perceba seu humor característico, um tanto autoflagelante, eles obedecem ao critério do artista genuíno. Allen está sempre em busca de fazer o que gosta, ou aquilo de que precisa, sem ser governado pelo mercado. “Sempre espero que o público vá gostar do filme, mas jamais posso cair na armadilha de fazer algo que não seja exatamente o que eu quero, só para ser apreciado”, diz ele. “Melhor não ser apeciado, mas ser bom. Melhor tentar crescer e falhar de maneira humilhante do que jogar no que é certo ou, pior, fazer troca de favores.”

Para ele, o mais interessante é o trabalho: revistar um texto mais pronto, trabalhar com os atores, dirigir e fazer a montagem do filme, entre sanduíches de atum. O que vem depois já não o interessa. Ou melhor, interessa, porque quer ver o resultado para o estúdio, e que as pessoas (a crítica e o público) gostem. Mas isso, diz ele, “não afeta a nossa vida”.

Com isso, ele quer dizer que o mais importante é resultado do trabalho em si. Se ele for bom, vai durar, mesmo que não seja imediatamente reconhecido. Enquanto um filme ruim será “ruim para sempre”. Por isso, não trabalha olhando para as mudanças do mercado, mas seu próprio critério do que deseja deixar para a posteridade.

Não é verdade que a comédia seja um gênero menor. Charles Chaplin, por exemplo, levou a comédia ao grau do sublime em filmes como Luzes da Ribalta, em que a música, o drama e o riso se unem para fazer rir e chorar. Seu personagem clássico, o mendigo de de calças largas e bigode dançante, é um retrato não da miséria, mas da riqueza que há no coração. Assim como um artista pode elevar a comédia e até mesmo o filme policial, é o artista que pode elevar um gênero a representar algo mais além do simples riso ou do efeito do suspense.

Allen vive reclamando porque é uma alma atormentada. Mesmo bem sucedido, evita confrontar-se com seu próprio trabalho, que sempre acha pequeno. Para ele, a depressão torna iguais o sucesso e o fracasso. “Os prêmios são feitos para juntar poeira”, diz. Tentou escrever um romance, engavetado depois da crítica de amigos próximos – e do seu próprio senso de limitação. “Aprendi que escrever um bom romance não é tão fácil quanto se pensa, não importa eo tempo e a energia que você coloque naquilo”, diz.

Ele sabe a fórmula para fazer algo bom – o que inclui não ser tão racional. Busca ser instintivo, fonte das obras mais genuínas, que não deixam enganar pela lógica. Como muitos outros artistas, Allen procura fazer o que tem vontade e analisa o trabalho depois. Jogar as emoções no que fazemos sempre tem um certo peso e causa certo desgaste. É uma autoterapia envolvente, na qual adquirimos mais autoconhecimento, e que exige coragem de encarar a verdade muitas vezes oculta pelas nossas muitas justificativas.

Essa é também a maior dificuldade do processo criativo. Allen sabe bem como escrever é penoso. “A escrita não vem fácil, dá agonia, e você precisa fazer um grandes esforço”, declara. “Tanta coisa acaba servindo de desculpa para não fazer aquela tarefa desagradável de levantar de manhã e passar o dia inteiro sozinho, pensando, sem bons resultados, e ir dormir sem ter resolvido o problema.” Cita uma frase de Tolstói: Você precisa molhar sua pena em sangue.”

Dono de uma sacola com papeizinhos cheios de idéias, de tudo o que Allen faz, confessadamente, o mais difícil é estar diante do papel em branco. O tempo e a experiência lhe mostraram, porém, como aliviar o processo de criar uma história, colocá-la no papel e fazê-la funcionar.

Gosta de falar em voz alta sobre a história que está escrevendo, não para que o interlocutor dê palpites, mas porque isso aclara melhor as idéias. Seu cérebro está em permanente atividade, mesmo quando entra no chuveiro ou naquele minuto e meio que leva entre o momento de por a cabeça no travesseiro e aquele em que de fato dorme. São esses intervalos que desfazem as dúvidas e os nós criativos. Allen trabalha mais quando parece não fazer nada.

O segredo da criação está no fato de que a história não nos abandona em nenhum momento. Podemos fazer uma atividade diferente e ainda assim pensamos no que escrevemos, quando estamos realmente ligados e a história está fluindo. Isso torna cada momento aparentemente inútil em tempo útil e nos deixa menos disponíveis para as tentações fáceis que tiram a gente do trilho criativo. E isto é muito útil, pois é difícil recuperar o fio da meada, quando o perdemos. Dá uma grande rpeguiça mental e leva tempo até voltarmos àquela sintonia.

Com a sorte de ter uma vida ativa longa, Allen tem melhorado e colhido resultados. Ponto Final foi o maior sucesso comercial de sua carreira. E ele, mesmo sem livrar-se de suas neuroses, conseguiu atingir certa maturidade, tanto no plano artístico como no pessoal, com uma estabilidade no casamento que jamais teve. Como se costuma dizer, está mais confortável dentro de seus velhos paletós de tweed.

Ler as entrevistas de Allen é uma delícia. Não apenas porque aqui e ali se descobre a verve que o tornou famoso, seu jeito de não dar importãncia a nada, ao mesmo tempo em que tudo tem uma importância tão grande que, ocultando sentimentos com a autoironia, se transformam numa forma muito particular de neurose. Ele fez de suas contradições material rico de trabalho e expressão de um aflitivo embate existencial. O melhor de Allen é saber que não estamos sozinhos, não sofremos sozinhos, nem somos os únicos a termos os problemas da mente criadora. Ele é uma grande consolação.

 

 

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