No final do ano passado, comecei a escrever um novo romance ao vivo dentro da Livraria da Vila em São Paulo, uma boa experiência que contou com a ajuda das pessoas que por lá passaram e contribuíram com idéias. Porém, nos últimos tempos, com a observação de meu filho pequeno e a morte da minha mãe, venho sentindo uma necessidade urgente e imperiosa de escrever certas memórias e colocar no papel algumas reflexões pessoais.
Decidi interromper o trabalho anterior e passar a isso. É comum esse tipo de coisa acontecer no processo de trabalho do romancista. É também a vantagem de já se ter um outro romance pronto para ser lançado e não ser premido pela necessidade de entregar outra obra a curto prazo.
Muita gente acredita que é preciso ser velho ou já estar morto para deixar um livro de memórias. É necessário não confundir memórias com a biografia. Biografia é aquilo que devemos deixar que outros escrevam sobre nós, de preferência quando já não possamos mais ler a respeito. Uma das vantagens de virar um cadáver é nos livrarmos de certos tipos de desgosto.
Já as memórias são um depoimento que pode ser dado a qualquer tempo. Não dependem da fama, das realizações, da idade. São uma necessidade íntima de expressão, nosso ponto de vista que, certo ou não, discutível ou não, nunca deixa de ser nosso e portanto tem muito valor afetivo, além de importância documental.
Para que, memórias? Quando colocamos para fora certos pensamentos, conquistamos certo alívio, da mesma forma que o fazemos no divã de um analista. O paciente da psicanálise fala muito mais do que ouve; é esse processo de colocar para fora sentimentos e outras causas de nossas inquietações que põe ordem nas idéias e sentimentos e melhora a nossa vida.
Escritores fazem isso de forma pública e transformam o objeto de suas ocupações afetivas e intelectuais em trabalho. Fazendo psicanálise de nós mesmos, muitas vezes ajudamos os outros de verdade. Mesmo – ou sobretudo - quando o fazemos na forma de ficção.
Creio que estas pequenas memórias, como as estou chamando, possam ajudar também outras pessoas, que poderão reconhecer ali, além da marca da minha geração, alguns problemas e sentimentos comuns ao ser humano de qualquer tempo e lugar. O esboço do que pode ainda virar um livro está sendo lançado num blog, cujo link é www.meninodeapartamento.blogspot.com.
Lá tenho colocado, além de texto, algumas fotografias de meu arquivo pessoal; surge dessa forma uma galeria de imagens e emoções. Menino de Apartamento fala de minha experiência ao ver meu filho pequeno e traz uma reflexão sobre a minha própria infância e a infância todos. Fala de relacionamento entre pais e filhos desde que são bebês. Busca investigar onde está a origem da nossa personalidade e dos nossos problemas.
Não é um tratado de psicologia, mas uma incursão nas memórias mais difíceis de relembrar, nos sentimentos mais profundos e que condicionam nosso comportamento, muitas vezes sem que possamos nos dar conta, por estarem por vezes ocultos em nós mesmos.
Essa maneira de refletir não é apenas veleidade; com ela, busco ganhar idéias, coragem, força e caminhos, sobretudo de como podemos nos tornar melhores pais e ajudar nossos filhos a serem melhores do que nós mesmos. |