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10/1/2009

* A fantasia chamada realidade

No final dos anos 1930, na Alemanha hitlerista, John Halder ganha seu sustento como professor de literatura e, nas horas vagas, escreve livros. Consegue publicar um romance que fala sobre um homem que pratica a eutanásia, nome técnico para o assassinato supostamente misericordioso de quem já não tem esperança de salvar-se e não suporta mais o sofrimento.

Bom marido, que faz sua parte e a da mulher sem vocação para os cuidados da vida prática, bom pai e bom filho, ele é o tipo que chega em casa do trabalho e ainda vai cozinhar para a família. Seu romance é inspirado em suas reflexões sobre a mãe, doente de tuberculose, para quem a morte é apenas uma questão de tempo. A ação de Halder, porém, é diferente do seu devaneio literário. Enquanto ele imagina na ficção como seria matar por piedade, na vida real salva a mãe do suicídio. O próprio Halder expressa o que passa por sua cabeça: uma coisa é o que escrevemos, outra o que fazemos.

Halder não acredita que aquilo que colocamos em ficção possa virar realidade, nem entende que existe relação entre verdade e fantasia. Seu melhor amigo, ex-companheiro de guerra nas fileiras alemãs durante o primeiro conflito mundial, um psiquiatra judeu chamado Maurice, define de maneira magnífica o seu engano. Afirma que a ficção é a maneira racionalmente mais adequada para responder a uma realidade irracional. No filme, para não dizer na História, o tempo mostra o quanto sua ironia tem de verdade.

Para sua surpresa, Halder é chamado a integrar o partido nazista e servir ao fuhrer. Reticente a princípio, cede diante de uma promoção na universidade e aos privilégios obtidos como membro honorário das SS. Seu livro é convertido em filme e em produto cultural avalizado pelo governo, primeiro passo para torná-lo bandeira no nazifascismo, interessado em justificar conceitualmente, ainda que de forma tortuosa, a legitimidade do assassinato. De simples romancista e professor, Halder passa a autoridade em assuntos éticos, consultor e fiscal do governo.

Halder não leva a sério a possibilidade das idéias contidas no romance serem utilizadas na realidade, muito menos como base teórica para a prática do extermínio em massa. Fascinado com o prestígio que lhe confere a nova situação, se deixa levar pelos encantos da namorada que o tira do casamento escravizante, da riqueza tomada aos judeus refugiados, da bajulação e da proximidade com o poder.

A degradação moral de Halder não vem de um único fator. Como toda degradação moral, ela afeta tudo aquilo em que antes nos apoiamos. Halder troca a esposa pela jovem loura ariana, que deve mais fidelidade ao regime do que a ele. Abandona seus antigos princípios pela sedução da riqueza. Trai a amizade pelo amigo judeu que ele deixa de ajudar, ou que procura ajudar quando é tarde demais. Sua decomposição, porém, é gradual e, ao menos para ele, despercebida. Acima de tudo, Halder não acredita na força do que ele faz: a força da literatura, das idéias e do que elas representam para quem escreve.

Quando a profecia de Maurice se realiza, a fantasia encontra a realidade na sua forma mais abominável- Halder se vê diante do absurdo da guerra e a transformação da sua mera divagação filosófica em uma campanha genocida. Descobre como homens são projetados à fama por interesses às vezes ocultos e qual é o preço a ser pago quando vendemos a alma ao diabo por simples vaidade. Perdida a noção do Bom, resta-lhe a perplexidade.

Com Um Homem Bom, o diretor brasileiro Vicente Amorim, nascido na Áustria, mas radicado no Rio de Janeiro, traz uma fina percepção de um conflito cujas lições ainda parecem inesgotáveis. E nos dá uma contundente perspectiva da literatura, esta atividade que não se perde em si mesma e engana todos aqueles que nela entram não como auto de fé, mas um ato inconsequente, que felizmente na maioria das vezes acaba esquecido, o que é uma sorte, nos casos em que ele pode também ser utilizado para o mal.

 

 

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