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13/1/2009

* Um ideal revolucionário

Com o corpo coberto de feridas, flagelado pelos soldados romanos, e a coroa de espinhos que lhe colocaram como ironia aos “rei dos judeus”, Jesus foi trazido a Pôncio Pilatos. Este o enviou à praça pública, para que a plebe reunida escolhesse a quem daria a sentença de morte; entre Jesus e o ladrão, o populacho escolheu Jesus.

Os homens que mandaram Jesus para a cruz foram os mesmos que o tinham aclamado uma semana antes, no Domingos de Ramos; ao contrário de que se pode supor, os ramos em questão não eram flores, mas armas para a sublevação. Jesus, porém, viera com outra mensagem e outras armas.

Jesus era judeu; aos doze anos, depois de ler o trecho das escrituras dentro da sinagoga, dizendo ser o personagem de quem elas falavam – o Messias – desapareceu para voltar à cena somente aos 33. Tinha vindo de Nazaré, o que causava estranheza; naquele tempo, acreditava-se que de Nazaré nada vinha de bom.

Nazaré fica na atual Palestina, na região litigiosa de Gaza, que Israel acaba de invadir, em retaliação a bombardeios aéreos do Hamas, facção islâmica igualmente radical. Ali Jesus foi criado, depois que seu pai escondeu-o da perseguição de Herodes às crianças que, segundo as profecias, dariam à região um novo rei; primeiro foi ao Egito, depois a essa cidade dentro da zona de onde, para os judeus, até hoje nada vem de bom. Para os fundamentalistas, o estrangeiro, o diferente, é o infiel; e o infiel é uma ameaça.

Jesus foi um sábio; sua formação, vinda exatamente não se sabe de onde, pois seu pai era um marceneiro, um simples artesão, era de um intelectual - um filósofo, um pensador. Era jovem demais, para o tamanho de sua sabedoria, a sua postura, inteligência e coragem da ação.

Dele são alguns dos pensamentos mais importantes para a civilização contemporânea, como “amai ao próximo como a ti mesmo”, “é mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha que um rico entrar no reino dos céus”; “de cada um segundo suas possibilidades, a cada um segundo suas necessidades” e “a paz do Senhor esteja sempre convosco”.

Por mais belas, construtivas e apaziguadoras que possam parecer essas mensagens, Jesus difundia idéias no seu tempo revolucionárias. A principal delas era a da igualdade dos homens perante Deus. Ao pregá-la, Jesus questionava o dominador romano, que impusera sua superioridade com a “pax romana”, a paz garantida pela força. Ele também questionava os judeus, cuja religião se baseava na crença de terem sido um povo eleito por Deus, isto é, melhor que os outros, com precedência à terra por direito divino.

A idéia de que o homem de determinada crença é melhor do que o outro é a base de todas as disputas religiosas que descambam para a violência. Jesus lembrava que havia outra paz, além da pax romana. Pregava que todos os homens eram judeus, isto é, todos são filhos de Deus. Ao afirmar a igualdade fundamental entre todos os homens, Jesus diz que todos temos de aceitar o outro, não importa sua fé, sua raça ou condição social. E que devemos viver em paz para ganharmos nosso lugar no céu.

Jesus forma um vértice para todas as religiões contemporâneas, e não apenas o catolicismo, ao qual deu o ponto de partida. Como judeu, foi um reformador; para os muçulmanos, é um profeta, assim como Moisés. Ele, porém, não prega uma religião em particular; coloca-se em um plano anterior. Não se postula o criador de uma igreja, ao contrário, defende idéias primordiais que abarcam todas as religiões, por definição divisoras da sociedade. Daí sua ambição: ele se dirige diretamente à única unidade entre os homens, que é a própria condição humana.

A mística do “Filho de Deus”, capaz da cura dos doentes e outros milagres, alimentada por seus discípulos como base para o fortalecimento da igreja católica, não foi o que se tornou uma ameaça ao poder estabelecido. A religião sempre se associa de alguma forma à política, e a política à religião, uma usada para justificar a outra, sempre que necessário. Jesus aniquilava a precedência de um homem sobre o outro, a pretexto de um direito divino. Ele punha todos no mesmo plano. E isso era difícil de aceitar pelos poderosos.

Para Jesus, num mundo entre iguais, não havia sentido em impôr a religião de um a outro, ou tomar a terra de ninguém, ou assenhorear-se dela por precedência divina. Suas idéias implicam em tolerância, em convivência pacífica e aceitação prática do princípio da igualdade.

A intolerância religiosa ainda hoje serve para fomentar interesses políticos e vice-versa. É o que acontece hoje em Gaza. Israel hoje é o país que tenta estabelecer na região a pax romana, a paz levada pelos canhões. Esquece, porém, que existe uma outra paz. A única que poderia resolver conflitos e criar harmonia numa terra permanentemente conflagrada. A paz da igualdade, do entendimento e da convivência entre iguais.

*

Não há razão do mundo que justifique a morte de uma única criança sequer. Em Gaza, já morreram mais de setecentas pessoas, entre elas mais de duzentas crianças. A perda de uma única vida bastaria para jogar por terra a justificativa desse barbarismo. A responsabilidade é dos dirigentes que enviam os soldados, tanto quanto dos soldados que disparam a arma.

Quando Pilatos perguntou a Jesus quem ele era, antes de enviá-lo ao julgamento em praça pública, ele respondeu que era “a luz, o caminho e a verdade”. Pilatos então perguntou: “e o que é a verdade?” Nesse instante, Jesus se calou.

Por que um sábio, que dependia dessa resposta para viver, se calaria diante de seus juiz? Porque para Jesus o silêncio era uma resposta. O que é a verdade? Ela não é expressa em palavras. Não está de um lado ou de outro. Não se abriga numa religião ou em outra. Não está de um lado ou de outro da faixa de Gaza. Nem ao lado de um ou outro governante.

A razão é a prevalência da verdade. O tempo mostra que Jesus estava certo. Quando ele se calou, Pilatos o levou para o julgamento tocando-o no ombro. Depois, lavou suas mãos. Os dirigentes que ainda hoje lavam as mãos diante da violência também esquecem que a verdade não está de um lado ou do outro, que não é dita, mas sabida, e deles será cobrada, tanto quanto daqueles que sentenciam à morte ou pregam os cravos da cruz.

A verdade ainda é muda, mas é invencível. Ela sopra que a idéia da igualdade dos homens continua desagradando os homens que defendem seus interesses e seu poder com a guerra. A paz, portanto, permanece como um ideal revolucionário. Mas ela ainda prevalecerá.

 

 

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