Dizem os chineses que o homem tem quatro degraus para subir ao longo de sua existência. Primeiro, ele precisa aprender a viver. Segundo, a não matar. Depois, precisa aprender a viver com a morte. Por fim, precisa aprender a morrer.
São sábios os chineses. É uma cultura milenar, a mais antiga a sobreviver no mundo contemporâneo e a mais longa da história depois do Egito do faraós, que governaram por quatro mil anos antes de sua civilização sucumbir. Tal longevidade não é a toa.
Os degraus chineses não estão sempre na ordem. Podemos perder entes muito cedo na vida e ter que conviver com a morte dessa maneira. Temos que encontrar alegria de viver, mesmo acompanhados pela saudade dos que partiram ou diante das atrocidades que vemos todos os dias.
Não há hora também para se pensar em como enfrentar a própria morte, porque ela pode acontecer a qualquer hora. É algo que sempre adiamos. E por isso nos afligimos tanto quanto corremos o risco.
Há gente que não tem tempo de aprender, e há gente que tem tempo e não aprende nunca. Por isso,é preciso começar. Os monges chineses são sacerdotes, e como sacerdotes, professores. Porém, sua postura é de alunos. Como eles, temos de entender que a sabedoria é seguir aprendendo, um processo permanente.
Outro dia, um amigo me disse que seu cachorro era muito inteligente, só faltava aprender a ler. Cachorros não lêem porque é o homem que precisa ainda aprender muita coisa. Cães já sabem o que precisam saber. Aceitam a vida como ela é, sem desesperar-se. Comem, dormem, brincam, são felizes e não têm preocupações existenciais. O homem, não. Precisa aprender muito para ser feliz como um cachorro.
Não por acaso, os chineses aprendem muito com os bichos. Os mestres shaolin admiram o dragão, mesmo sendo um animal imaginário; o louva-a-deus, o macaco, o tigre. De cada um deles aprende-se algo; uma maneira de enfrentar a vida, de ver o mundo e também de como lutar. O homem pensa que inventou a sabedoria, mas ela está toda na natureza. É com ela que se aprende.
Olho para meu filho de dois anos como se olhasse para mim mesmo no começo da vida. Meu filho está aprendendo a viver. Anda sem dar a mão, aproxima-se de desconhecidos, avança curioso sobre tudo. Descobre como o mundo é maravilhoso. Avalia a importância de cada pessoa que conhece dentro do seu universo. (“Você é o meu vovô?”, pergunta repetidas vezes a meu pai). Vê o sol, as estrelas. Experimenta, fantasia. Ontem, apanhei-o batendo com um tubo de cola na testa. Estava tentando colar nele mesmo a sua sombra.
Aprender a não matar não é apenas respeitar a lei, o ser humano, o próximo. É entender e praticar o princípio da vida: ela existe para ser defendida a todo custo. Não apenas a nossa, como a de todos. A vida é um bem inestimável. É o nosso único patrimônio. Por isso não podemos vendê-la, alugá-la ou desperdiçá-la de maneira fútil. Aquele que perde seu tempo mata a si mesmo. É tão penalizado com a privação da liberdade e da própria vida quanto aquele que transgride o código civil. Sua prisão é perpétua.
Para aqueles que já acham duro aprender a viver, mais duro ainda é aprender a viver com a morte. Pessoas que perderam cedo os pais ou outros entes queridos têm de fazê-lo também cedo. Não existe uma ordem natural para as coisas; o destino muitas vezes é tomado pelo acaso e só nos resta enfrentá-lo como ele vem.
É difícil encarar a morte enquanto estamos cheio de vida; ela não pode se tornar uma sombra, pois aquele que chora todos os dias, ou que teme o fim diariamente, morre um pouco todos os dias. É preciso assimilar as piores tristezas e os fatos mais duros da existência e ainda assim manter a cabeça erguida, a dignidade e sobretudo a alegria.
Eu me encontro hoje nesse estágio do aprendizado; tenho de aprender a conviver com a dor da perda da minha mãe. Por sorte, sou também pai; isso me ajuda a manter a coragem de seguir em frente, pois exige uma motivação superior a qualquer tristeza.
Filhos são um bem do céu, não porque nos trazem felicidade, mas porque pedem de nós a felicidade. Não apenas dão a alegria, como a exigem de nós. Todos os dias temos de sorrir, de brincar e esquecer nossos males. Crianças não nos dão muito tempo para a dor.
Ao mesmo tempo em que ensinamos os filhos, aprendemos com eles. Não é apenas pelas crianças que se deve seguir em frente, mas por nós mesmos, e pela criança que há dentro de nós. É na infância, a nossa e dos nossos filhos, ou dos que vêm depois, que está uma fonte permanente de felicidade.
Por isso, aquele que não ri nem se alegra com as crianças está morrendo sem saber.
Aquele que aprendeu a viver com a morte talvez esteja mais preparado para aprender a morrer; cada etapa parece servir de antesala da próxima, cada degrau da sabedoria leva a outro. Provavelmente, quando não achamos um degrau, ou perdemos o pé, é porque não subimos direito o anterior.
Creio que a fortaleza capaz de nos fazer enfrentar com dignidade o inevitável depende da generosidade. O bem que fazemos não é para nós, mas para os outros. Nossa vida não é o que é, mas o que deixamos aos outros. No final, não somos o que somos, mas o que somos para os outros. Os mesquinhos não sabem morrer porque têm consciência de que aos outros não deixam nada. O medo da morte é o medo da solidão definitiva.
É preciso compartilhar, porque a alma mesquinha traz a sombra do medo, enquanto a generosidade a liberta. O próximo é mais importante do que nós, as necessidades coletivas são mais importantes que as nossas necessidades particulares. Ao abrir mão de nós mesmos, paradoxalmente ganhamos nossa maior força, pois podemos viver pelo que representamos para os que ficam.
Não é fácil a caminhada da sabedoria; os chineses ensinam que cada degrau da vida exige tremendo esforço. Não podemos nos cansar, ou pensar que estamos a caminho do fim, de perder a vida, mas que estamos a ganhá-la. Viver não é chegar ao alto da escada, mas essa caminhada, cheia de alegrias, mas bastante árdua.
Por isso, creio, romancistas escrevem; escrever não é a eternidade em si, o alto da escada; é o exercício de refletir a vida, dissecá-la, entendê-la, amplificá-la. A escada nem sempre longa, mas geralmente é tortuosa. Se a vida é aprender, o escritor é o que escolhe a via mais complicada, como os alpinistas, que nutrem um gosto um tanto masoquista e perigoso pelas escaladas.
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