Quando eu morava em Nova York, num apartamento em Battery Park City, olhava pela janela do quarto, sobre uma rua que dava direto no sul da ilha de Manhattan, na direção da Estátua da Liberdade. Dali, via aquela massa de água azul onde o Hudson encontra o East River e ruma para o mar. E dizia para a minha mulher:
- Está vendo essa rua? Quando chegar aquela onda que vai acabar com tudo, ela vai entrar bem aqui.
Era piada, claro, mas é gozado como esse tipo de piada faz muito sentido em Nova York. A cidade nos dá a impressão de que o chamado cinema-catástrofe não é ficção e que os americanos não exageram nas tintas quando fazem seus filmes com hecatombes de todo tipo, pois lá essas coisas... Bem, essas coisas acontecem de verdade.
Nenhum cineasta ainda havia imaginado um jato comercial com 150 pessoas e asas em chamas fazendo um pouso de emergência no rio Hudson, na altura da Rua 42, onde ficam muitos dos bons teatros da Broadway. Logo em frente ao Intrepid, o porta-aviões sucata que virou museu da marinha e aeronáutica. E do pier onde treina o Dowtown United, o time do centrão de Nova York, onde eu levava o meu filho João Gabriel para jogar futebol.
Foi coisa de cinema, que ninguém filmou, mas posso muito bem descrever: diante da cordilheira de edifícios na beira dágua, o pássaro de ferro desce lento, riscando o ar de chamas e fumaça; o piloto entra na água primeiro com a cauda, para ajudar na desaceleração. Caso jogasse antes a barriga e as asas do aparelho contra a água, se espatifaria contra a superfície móvel e ao mesmo tempo. Porque quando se cai na água a quase duzentos quilômetros por hora, ela é como concreto.
Estupefação, admiração, uma reverência aos céus (milagre?), aplausos: o jato paira como uma bóia na linha d’ água, os passageiros descem, caminham sobre as asas, agitam os braços aos barcos que chegam em socorro. (Um especialista lembrou? E aquelas escadas que inflam e viram botes?)
Ninguém morreu: foi um filme de final feliz, com um herói: Chelsey Sullenberger, ou Sully, piloto com quarenta anos de carreira que, ao estilo de Clint Eastwood, estava lá para mostrar que o homem é como o vinho.
Nova York não é cenário dos filmes-catástrofe à toa. O dia 11 de setembro não sairá da memória de quem estava vivo: os jatos cruzando o céu, entrando dentro das torres que estavam entre as mais altas do mundo como o dedo de um menino furando bolo. As explosões, as pessoas se atirando dos prédios, a derrocada monumental, a fumaça, o buraco calcinado que ferveu durante meses, a consternação geral.
Quando eu morava em Nova York, a todo momento as sirenas tocavam, gente corria, a polícia interditava algum lugar da cidade. Alguém que esquecia uma mala, uma garrafa de refrigerante, um alarme falso qualquer espalhava o pânico. Quando entrava um muçulmano no metrô, muita gente saía pela outra porta, com medo de que o sujeito puxasse uma cordinha do peito. (Confesso: eu mesmo fiz isso).
Certo fim de semana, fomos esquiar na Pensilvânia, num hotel muito gostoso, o Skytop Lounge. No domingo, caiu uma nevasca. Nos divertimos à beça: neve fresca é tudo o que pedimos para esquiar. Ao pegar o carro para voltar a Nova York, o manobrista manifestou espanto. “O senhor vai para Nova York?”, perguntou. “Claro”, respondi eu. “Muito cuidado”, recomendou ele. E lá fomos nós, espantados com tamanha atenção.
Ao chegar na cidade, entendemos que não se tratava de uma despedida usual: encontramos Manhattan soterrada pela neve. Começava a cair a noite; as ruas estavam desertas. Não se enxergava os carros estacionados no meio fio, debaixo daquela montanha branca. Tinha sido simplesmente a maior nevasca da história da cidade. Lembrava outro filme catástrofe: O Dia Depois de Amanhã, na cena em que o personagem de Dennis Quaid volta a Manhattan com os pés naquelas raquetes para andar na neve, e encontra a ilha abandonada depois de uma avalanche gelada.
Por sorte, tínhamos alugado um carro com tração nas quatro rodas, um tanque de guerra que foi abrindo caminho até chegar em casa. Estacionamos enfim do Rector Place, mas foi tão difícil quanto chegar no meu sítio em São Bento do Sapucaí quando a chuva faz a estrada virar uma lama só. Aquela noite, as crianças se divertiram muito, pulando sobre as montanahs inacreditáveis de neve.
Lembro de outra tarde de domingo, 4 de Julho, dia da independência, quando helicópteros de exército sobrevoaram a Estátua da Liberdade como gigantescos abutres, com um barulho aterrador. Eu almoçava com a família ao ar livre, no pequeno Da Gigino, um restaurante bem diante do rio, de onde se via aquele horizonte idílico e inocente de repente transformado em cenário de guerra. Tive pensamentos sombrios: e se esses caras começassem a disparar seus mísseis na estátua e depois sobre nós?
Anos antes, ao visitar Washington, quando eu imaginara o piloto do avião que sobrevoava tão baixo a Casa Branca atirando o aparelho ali em cima, era só uma brincadeira. Daquela vez, nada parecia tão imaginário. Nada é impossível, sobretudo em Nova York.
A catástrofe faz parte da vida do americano, mais especialmente do novaiorquino; a cidade é tão grande em tantos aspectos que cria problemas monstruosos. Seu charme natural, somado à sensação de que pode acontecer alguma coisa muito errada de repente, são o que o cinema de entretenimento poderia encontrar de mais interessante.
Em boa parte, é à catástrofe que os americanos devem muito do progresso do país. Ela faz parte de uma cultura ampla, não apenas do cinema. Eles estão acostumados a conviver e lutar contra dificuldades climáticas, guerras de todos os tipos e outros desafios que exigem deles muito espírito coletivo e organização. A capacidade de mobilização dos novaiorquinos em situações como as nevascas ou uma greve de ônibus, duas situações em que eu os vi em ação, é simplesmente admirável.
É na dificuldade que se faz a solidariedade, o patriotismo, o interesse pelo bem coletivo. Essas são características ainda mais importantes para os Estados Unidos do que a democracia e o liberalismo econômico. Como eles, poderíamos ter um pouco mais disso tudo – e o Brasil seria um país também muito maior.
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