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17/1/2009

* O silêncio criminoso

Existe algo mais espantoso que o amontoado de denúncias surgidas contra o médico andrologista Roger Abdelmassih, publicadas pela imprensa com um farto número de mulheres que declaram, com riqueza de detalhes, terem sido assediadas sexualmente por ele durante tratamento para engravidar.

O que admira não é apenas a caracterização de um assediador serial metido na mais fina flor da sociedade, que segundo as denúncias abusava das vítimas inclusive quando estavam sob o efeito de anestésico. Mais incrível é que muitas dessas denúncias datem de quase uma década – e que durante todo esse tempo permaneceram guardadas, não apenas pelas mulheres, como pelos funcionários da clínica e a comunidade médica, que tomava conhecimento do que ocorria lá dentro, sem que nenhuma providência eficaz fosse tomada pelo Conselho Regional de Medicina.

Conivência? Covardia? O fato é que, ao acobertarem o comportamento de um colega, médicos e funcionários da área, sem tomarem providência alguma, permitiam que novas mulheres fossem à clínica para serem assediadas. É esse silêncio criminoso, só agora vencido pela ação da promotoria pública e de veículos de imprensa, que torna tudo ainda mais inaceitável e espalha a culpa pela sociedade.

O médico em questão tem dinheiro e influência para contratar advogados, ameaçar, chantagear. Tem amigos famosos, amigos com poder, com quem divide segredos pessoais, pela natureza de seu trabalho. Isso intimida denunciantes, mas não explica o que aconteceu.

O problema é gente. Há gente que não quer ver sua vida particular exposta publicamente por um caso de assédio. Há gente do meio médico que não quer ser prejudicada numa guerra de acusações em que pode também ter algo a perder. Há gente humilde que teme ser esmagada se for contra um figurão, como costuma acontecer no Brasil.

Por fim, há gente que receia descobrir ou encarar a verdade: que sua mulher foi assediada ou seviciada durante um tratamento médico, ou que o filho não é biologicamente seu, outra das acusações que pulularam contra a clínica, uma bandalheira possível que explicaria de outra forma o seu alto sucesso no ramo da manipulação genética.

São situações terríveis, é verdade, mas nada é desculpa para a omissão. Ela é tão monstruosa quanto o crime.
As mulheres que foram vítimas de assédio tiveram sua cota de pesadelo e é possível entender o quanto um trauma pode atrapalhar uma decisão objetiva, mas não podem também omitir-se. São responsáveis na medida em que, para esquecer ou salvar-se, contribuíram para que existisse uma próxima vítima. Sua coragem em aparecer agora é também uma remissão.

Em seus depoimentos a revistas e jornais, como a Folha de S. Paulo, o médico Roger nega tudo e estranha que as denúncias venham com tal atraso; especula que elas sejam induzidas pelo interesse de concorrentes ou de gente que deseja destruir sua imagem.

Se uma mulher denuncia um abuso acontecido há dez anos, não significa que ele tenha perdido a validade. Pode ser o tempo que ela levou para ter coragem de fazer a denúncia. Mostra que ela nunca esqueceu o seu trauma. E sua denúncia ainda tem importância, na medida em que impede outros abusos de serem perpetrados. Em poucos dias, surgiram contra Roger 33 denunciantes. Quantas vítimas que nada disseram ainda existem?

Não há por que ter medo da investigação e da denúncia. Por mais dinheiro e influência que tenha, nenhum homem está acima da lei, seja ele médico ou o presidente da República.

A divulgação da denúncia pela mídia também tem grande valor. A recente onda de processos indenizatórios com a finalidade constranger a imprensa é um virus contra a liberdade e o poder de auto-regulação da sociedade. É verdade que às vezes a imprensa erra. É verdade que há casos inaceitáveis em que se mancha injustamente pessoas honradas. Isso, porém, não pode servir como justificativa para a criação de um obstáculo sistemático para a realização de trabalho jornalístico, que em um número muito maior de situações serve ao bem comum.

A imprensa não pode ceder à ameaça velada ou à chantagem contra o direito das pessoas de saber o que está acontecendo. Ainda mais se estão sendo feridos os direitos mais elementares.
Assim como o cidadão que vê um crime em andamento não precisa esperar pela polícia para agir em socorro de uma vítima, a imprensa não precisa nem pode esperar pela Justiça e o seu respaldo.

A imprensa é voz da coletividade: muitas vezes a denúncia chega por ela antes, fruto não apenas do desejo de dar a notícia primeiro, como também de seu dever. Um dever, por sinal, que é de todos. Temos que acordar para esse fato tão simples do qual depende a democracia, a Justiça e a própria sociedade.

 

 

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