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Cinco contos de amor e um painel revelador da visão masculina sobre os relacionamentos em tempo de reconstrução.
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27/1/2009

* O tempo e o sábio chinês

Imagine uma linha do tempo. E que você, aos 40 anos, é uma pessoa que já teve 30, 20, 10, 1 ano de idade.

Imagine também que antes disso você teve um período de gestação. E antes, ainda, recebeu uma herança de seus avós e antepassados. Se esse passado te trouxe coisas boas, se você foi feliz, isso vai trazer saúde. Se o seu passado foi infeliz, traz a doença.

- Simples assim? - perguntei.

- É muito simples – disse o doutor Chang. - Para o
sentimento, não existe o tempo.

- O que o senhor quer dizer com isto?

- Se você pensar em uma coisa ruim que te aconteceu quando tinha dez anos de idade, vai sentir o sofrimento também. Sente raiva, dor, medo, ou outra sensação ruim. Isso não ficou no passado. Você sente outra vez essas coisas com a mesma intensidade, pois o sentimento não tem passado, ele é sempre presente.

Meditei, consultando meus alfarrábios sentimentais: é verdade.

- O mesmo acontece com o futuro – prosseguiu Chang. - Se você sabe que vai sofrer mais adiante, já começa a sofrer naquele instante. Por isso, quanto mais você vive, se deixa problemas não resolvidos, isso vai se acumulando em você.

- Compreendo.

- Quando se acumula experiências ruins, isso se reflete na saúde. Excetuando alguns movimentos involuntários, tudo no corpo é comandado pela mente. O sentimento também vem da mente. Por isso, o sentimento tem uma influência direta sobre o organismo. Por isso é que para ter um corpo saudável é preciso uma mente com saúde.

- Bem, eu posso tentar melhorar o presente. Mas não posso mudar o passado.

- Você está enganado. – É muito possível mudar o passado.

- Como?

- Tudo o que acontece é fato. Mas a esse fato nós damos um sentido. Quando você lembra de algo como um episódio ruim, é porque nós demos esse sentido ao que aconteceu. Eu posso considerar que uma pessoa agiu de tal forma para me atingir. Mas se pensarmos novamente, encararmos esse sentimento de frente e tentarmos vê-lo de outra foma, compreendendo os motivos da pessoa, e dermos a ele outro sentido, o passado muda.

São danados os chineses. Inventaram um jeito de mudar o passado! Realmente não os fatos já ocorridos não mudam, mas podemos mudar o sentido que damos a eles. Com isso, o passado muda, ao menos para nós. E descarregamos a sobrecarga do corpo.

Olhei o dr. Chang. Eu tinha ido lá fazer acupuntura. Tomava uma lição de filosofia. Mais: não imaginava que um simples médico acupunturista pudesse ter uma máquina do tempo. Soubesse disso, teria marcado aquela consulta muito antes.

Chang me mostrou que para tudo damos um sentido e ele pode ser bom ou ruim. Há muitos exemplos disso. Quando morre o marido ou a mulher de um casal que vive junto há muitos anos, por exemplo, aquele que fica pode sentir que sua vida também acabou. Esse foi o sentido que ela deu ao fato; dali a pouco, essa pessoa definha e morre mesmo. Contudo, se ela disser para si mesma que precisa viver, ter tempo para fazer as coisas que ainda lhe faltam, ou precisa preservar a memória de quem faleceu, ou ainda cuidar daqueles que ficaram, dá um outro sentido ao que aconteceu. E tem maior possibilidade de viver mais.

A consulta estava encerrada. Eu ainda estava com dor, mas já entendera que não bastava a acupuntura: precisava curar o coração.

Passamos a um cubículo ao lado, onde ficava a mesa de acupuntura, as agulhas e a cadeira onde deixei a roupa, ficando apenas de cueca. Depois de me espetar, dr. Chang apagou a luz. Deu-me uma hora para ouvir as flautas da música ambiente e pensar na vida.

Apagou a luz, com a palavra mágica:

- Resolve.

Mais tarde, ao caminhar na rua, eu me sentia mais leve, mesmo em meio ao movimento caótico de pedestres na avenida, a fumaça dos ônibus, os luminosos que acendiam o asfalto molhado pela chuva de verão.

Resolve, repetia aquela voz, cravada na alma como uma agulha chinesa.

 

 

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