Arquivos 

 

  Nas Livrarias

Cinco contos de amor e um painel revelador da visão masculina sobre os relacionamentos em tempo de reconstrução.
Comprar

 

 

28/1/2009

* Rico de repente

- São 300 reais.

Eu estava na maloca de Airuana, um jovem índio kuikuro, que segurava nas mãos um colar de caramujos. Eu havia admirado a imponência com que os kuikuro exibiam o colar, nos três dias em que havia estado na aldeia, no Parque Nacional do Xingu, para assistir à cerimônia do Quarup. Estava determinado a comprar um igual, como lembrança daqueles dias mágicos na floresta. Só não estava vendo qual era o fetiche que tornava aquele adereço tão caro.

- Muito, 300 – chorei. – Talvez, 200.

Airuana estava pelado, mas negociar com alguém naquelas condições não me iludia mais. Índios não vivem pelados por indigência, mas opção. Aquele não cederia fácil. Eu era o único indivíduo em toda a taba com um calção da Side Walk. E era também o único que parecia estar precisando de alguma coisa.

- Não, 300. Colar, especial. Quem tem colar, é rico. Entende?

Ele acabara de tomar banho, o que não apagara por completo os desenhos geométricos feitos de urucum e jenipapo. Era um índio atarracado, de riso fácil, quase infantil, mas há pouco eu o vira se transformar numa feroz máquina de moer gente.

Lutara o huka-huka, embate corporal em que os jovens da aldeia desafiam os índios das tribos vizinhas, convidadas para o Quarup. Agora, Airuana tinha uma parada mais dura: explicar o que significava a riqueza para aquele branco obtuso, que era eu.

- Você compra colar, 300 – repetiu, com gestos enfáticos na minha direção. - Fica homem rico também.

- Não sei... Preciso pensar.

Apanhei o colar das mãos de Airuana. Colares de caramujo eram uma especialidade do artesanato kuikuro, os mais belos do Xingu. O dele estava ainda sujo com o vermelho do urucum, não sabia se apenas do corpo de Airuana, ou dos adversários com que se atracara em combate. Tivera um dia de sucesso discutível: vencera três combates, antes de capotar no quarto, diante de um meinaku com duas vezes o seu tamanho.

- Você pensa – disse ele. – Depois volta e compra –, completou, enfastiado com a minha estupidez.

Agradeci e saí para o sol do Xingu. Era meio dia e a temperatura já passava dos 40 graus. O campo formado pelo círculo das grandes malocas, onde naquela manhã mil índios haviam assistido ao huka huka, agora estava deserto. Depois da luta, os kuikuro tinham caído exaustos: dormiam embalados nas redes, no frescor de suas choças. Não importava mais quem tinha vencido ou perdido. Dormiam todos o sono dos milionários.

Airuana me dera o que pensar. Sempre imaginei que seria rico no dia em que comprasse minha mansão com piscina olímpica, jatinho particular, aquela Ferrari vermelha que custa uma fortuna e a gente nunca tira da garagem. Ou no dia em que decidisse não comprar nada disso - mas por desapego, não por insuficiência monetária. Não sabia que, para ficar rico, bastava adquirir um colar. É verdade que não era um colar qualquer, mas aquele colar. Um colar de caramujos.

Eu tinha aprendido muito entre aquele povo singular. Os kuikuro se consideravam abastados, não por terem muito, mas por terem o que lhes interessava. Podiam, por exemplo, ter várias mulheres, como os xeques árabes. Mas dispensavam as limusines, os palácios em Marbella, os castelos mouriscos da realeza muçulmana. Para que uma limusine, ali no Xingu? Mais valioso era o tratorzinho que trazia as bagagens do rio até a aldeia, conquista da “comunidade”, que é como os índios passaram a se referir à tribo desde que ali foram introduzidos alguns conceitos do homem branco. E as mulheres... Bem, alguém tinha de ralar a mandioca para fazer a farinha do beiju.

Magnatas não deviam fazer muita coisa além de tomar pinas colladas em ilhas do Caribe. Na estação dos furacões que atacam a plácida região, mudariam para Paris. Nesse aspecto, os índios levam uma certa vida de ricaços, pois já viviam no seu paraíso particular. Trabalhar, não sabem do que se trata. Ao acordar, vão pescar, se não têm peixe. Onze da manhã, o calor já forte, todos vão para a rede. Quatro da tarde, tomam banho na lagoa, ali perto, para se refrescar. Comem e voltam para a rede. No resto do tempo, se dedicam a atividades lúdicas: brincam com as crianças, andam de bicicleta, fofocam sobre a vida dos parentes e fazem política.

Desde o descobrimento do Brasil os índios querem roupas e bugigangas, mas na verdade não ligam a mínima para o estilo de vida ocidental. Ir aos melhores restaurantes, tomar os melhores vinhos, viajar para paraísos da mais dissoluta e deslavada luxúria, tudo isso não tem importância no Xingu. Os índios estão convencidos de que não há lugar melhor do que a floresta, longe do barulho dos carros. Para um kuikuro, uma bela refeição é piranha assada e defumada no moquém, que os índios comem com cabeça, espinhos e tudo.

Pensei na minha garrafa de Romitorio de Santedamme, sentado no restaurante La Pergola, de cujo terraço se vê toda a cidade de Roma, do alto do Monte Mario. Ah, a comida do chef Heinz Beck, o alemão que deixou os italianos no chinelo! Depois lembrei da alta do dólar. Lamentei não me contentar com meio coco de cauim e um sanduíche de beiju com piranha.

Talvez eu precisasse mesmo mudar meus conceitos. E havia uma pessoa que podia me ajudar.

Caminhei na direção da maloca de Jacalo, o terceiro cacique kuikuro, onde estava hospedado. Ele estava deitado na rede, entre as mangueiras que faziam sombra diante da choça. Ao me ver, sorriu.

- Como vai?

- Preciso de um conselho.

Olhei para Jacalo. Era o exemplo de um kuikuro bem sucedido. Possuía sua maloca, onde podem dormir até 15 pessoas em redes armadas entre as colunas e a parede. Por ali não havia armários, trancas ou qualquer outra coisa que indicasse propriedade privada. Seus bens eram o arco e flecha, uma espingarda, uma lancha com motor de popa, guardada numa palhoça perto do rio. Graças ao casamento com uma de suas duas mulheres, irmã do principal chefe da tribo, conseguira a posição de terceiro cacique. Era, dentro do seu universo, um verdadeiro self made man. E o sujeito certo para me dizer o que fazer.

- Estou negociando com Airuana um colar de caramujos – disse eu. – Ele está pedindo 300. Acha caro?

- Caro? Não... Colar, importante! – exclamou ele. – Diferente de artesanato. Você compra colar, fica homem rico.

- É, foi o que ele me disse.

- E por quê ele quer vender?

- Disse que quer conhecer Brasília. Precisa de dinheiro.

- Dinheiro? Bobagem. Três dias, ele volta. Índio não agüenta ficar em cidade.

Jacalo tinha razão. No meu tempo ali, eu já havia percebido que tudo o que os índios querem do branco é gasolina para o motor dos barcos, caixas de fósforo e calças camufladas, o novo must quando saem da floresta. E rapadura – índios adoram rapadura. Fazem um pouco de artesanato, que mandam vender na cidade, para comprar essas coisas pequenas. O resto, ora, é o resto.

- Olha aqui – disse Jacalo, apontando a própria garganta. O colar dele tinha fatias de caramujo enormes. E concluiu, rindo: – Esse não posso vender! Fico pobre.

Olhei para a cara de Jacalo; às vezes eu não sabia quando ele estava brincando ou falando sério. Talvez os índios do Século XXI tenham algo a ensinar sobre o capitalismo. Não possuem o fetiche do dinheiro. Para eles, a moeda em si não tem valor, só o que é capaz de comprar. Nenhum kuikuro pensa em acumular dinheiro, ou fazer poupança. São, portanto, a mais perfeita sociedade de consumo. Não gostam de dinheiro, mas sabem intuitivamente que no mundo tudo se compra. Até mesmo a condição de rico.

Pensei na Inglaterra. Lá, com o número certo de libras, é possível comprar um título de lorde, acompanhado do seu respectivo castelo. O título de lorde é um símbolo das tribos ocidentais. Da mesma forma que um lorde será sempre nobre, mesmo que acabe pelado como um índio, um índio será sempre um lorde. Desde que tenha também uma coisa, que vale por um título nobiliárquico: o colar de caramujo.

Fiz as contas. Perto do que custaria um título de lorde, os 300 mangos de Airuana eram micharia. Além disso, quantos lordes há na Inglaterra, e quantos podem se orgulhar de ter um legítimo colar de caramujo? Se eu já fosse um milionário kuikuro, não precisaria mais batalhar pelo jatinho, pela casa com piscina, a Ferrari na garagem. Havia outro símbolo maior de riqueza. Bastava acreditar nele, como os índios. Acreditar no colar.

- Jacalo, abri os olhos - eu disse. - Muito obrigado.

Voltei para a maloca de Airuana. Ele estava na rede, cochilando. Pensei em dar meia volta, sem jeito. Não queria incomodá-lo – e se voltasse atrás na decisão de me vender o colar? Parecia arriscado demais. Um menino, contudo, me viu e foi acordá-lo. Airuana veio, esfregando os olhos, lá do fundo escuro da habitação. Tinha cara de quem procurava juntar um resto de paciência, como se eu ainda não soubesse o bem que estava me fazendo.

- Está bem, aceito – disse eu.

- Bom – concordou ele, com se eu tivesse finalmente encontrado o juízo.

- Só tem um problema -, completei. - Não tenho dinheiro vivo.

- Manda para a conta do meu irmão – simplificou ele.
Deu um nome e o número de uma conta do Banco do Brasil, agência de Canarana, a cidade mais próxima ao sul do Parque. Como não tinha pensado nisso? Hoje em dia, você pode viver pelado, mas não pode deixar de ter uma conta corrente. Airuana entregou o colar, apertamos as mãos. Índios , porém, continuam diferentes de nós. Eles ainda acreditam no ser humano. Eu não podia reclamar. Eu pagara caro, mas comprara fiado.

Saí da maloca. O sol encheu meus olhos, como uma explosão de luz. Estava radiante. Experimentei meu troféu. Senti quando as lâminas de caramujo pousaram no meu peito. O colar não parecia, mas era pesado. Sentia como se tivesse colocado uma coroa na cabeça.

Olhei em torno. Felizmente a aldeia ainda cochilava. Por enquanto, não queria que ninguém me visse com o colar. Meus amigos civilizados, companheiros de viagem, que àquela hora também dormiam, teriam inveja. Os índios achariam ousadia comparar-me a eles. Todos iriam pensar que era ostentação. Talvez alguém quisesse me roubar. Rapidamente, desfiz o nó e escondi o colar no calção.

Então ser rico é isso, pensei, sentindo aquele peso na cueca. Custa caro, traz um prazer fugaz – mas pelo menos eu podia dizer que chegara lá.

 

 

Clic
Livros
Poemas
Biografia
Mural
Frases
Página Principal
Sua mensagem

Arquivos

Conheça também:



      Site by