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Cinco contos de amor e um painel revelador da visão masculina sobre os relacionamentos em tempo de reconstrução.
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29/1/2009

* A burca e a tolerância

O Cairo é uma das mais belas cidades do mundo, um caos marrom, barulhento e exótico encravado na beira do deserto, com o rio Nilo por coração. Estive lá três vezes, uma delas em uma viagem de pesquisa para escrever meu romance O Homem Que Falava com Deus, de 2003, na qual percorri o mesmo caminho dos hebreus no Êxodo. Fui do Cairo ao deserto do Sinai, do Sinai ao vale do Jordão. Foi no Egito, e na Turquia, que percorri quase inteira, que aprendi a admirar a sociedade, a cultura e a religião árabes muçulmanas.

No hotel Ramsés Hilton, há um bar envidraçado no último andar com uma vista panorâmica da torre do Cairo, da cidade e do deserto, mais ao longe. No final da tarde, com o sol caindo, podemos ver a planície de Gizé tingir-se de vermelho. Com as grandes pirâmides no horizonte, parece que estamos em outro planeta. De certa forma, estamos mesmo. É assim que devemos tentar entender o diferente: mergulhar na origem das coisas, no ambiente onde elas florescem, apreender sua lógica interna.

No outro bar do Hilton, no térreo, eu e minha mulher ouvíamos música e fumávamos shisha, aquele tabaco doce. Mais comumente feito de maçã, aspirado daquelas garrafas de vidro colorido, é uma tradição dos países do oriente, passatempo propício para a conversa e a observação. Lembro de um casal de namorados, ela de véu rosa sobre a cabeça, o amor contido a curta distância, apenas estampado no rosto, comovido e comovente, fumando shisha logo à nossa frente. Um amor à muçulmana.

No Cairo, não há mulheres de burca. Muitas cobrem a cabeça com o véu, mas não o rosto. E há muitas jovens que nem o véu usam. Para os egípcios, a burca é roupa de gente ignorante, como seria no Brasil alguém se vestir de caipira na cidade. Segundo descrevem, é “roupa de fanático”. Toleram a roupa ocidental e muitos se vestem como nós. Nem por isso deixam de ser muçulmanos. Na hora da reza, você vê pela rua aquela gente parar o que está fazendo para estender no chão um tapetinho e fazer sua fezinha na direção de Meca.

Em sua maioria, os egípcios são ciosos de sua religião sem serem radicais. Eles não gostam muito que ocidentais entrem nas mesquitas, porque é preciso respeito – são lugares para rezar, não atração turística, e em geral turistas se comportam muito mal nesses lugares. Eles são recatados. Riem, estranhando, quando um ocidental abraça sua mulher em público, ou a beija. Alguns, mais ortodoxos, não gostam e esbravejam. Mas a violência fica apenas para os guerrilheiros que a cada dez anos fazem uma reaparição sangrenta. É a minoria de loucos que existe lá. Como existem minorias loucas nos Estados Unidos e em todo lugar.

No Ramsés Hilton, há muitas turistas árabes, que usam a burca. Com o tempo, a observação delas nos dá uma perspectiva diferente dessa roupa tão criticada no Ocidente, onde é símbolo de atraso e da opressão feminina. De fato, há no Oriente muitas mulheres que sofrem de opressão. A burca acentua esse aspecto, mas não é o que a determina. Assim como há opressão contra mulheres no Ocidente, entre os povos muçulmanos também há respeito pela mulher. A burca não é sinônimo nem a fonte da opressão; é uma opção, que pode ser compreendida, dentro dos parâmetros daquela sociedade.

A burca não significa que as mulheres não tenham liberdade. Sua voz é ouvida dentro e fora de casa, muitas vezes mais que a do marido. As muçulmanas não são tão diferentes assim das outras. Minha mulher, que entrava com elas no banheiro feminino, onde tiravam a burca, diz que, sob os panos, as árabes costumam se pintar e cobrir-se de jóias como rainhas.

Com o tempo, aprendemos a identificar as mulheres, mesmo cobertas, e distinguir sua personalidade. É estranho, mas aos poucos aquilo se torna natural. E há certa beleza em ver mulheres em suas longas vestes de seda negra, com a sensualidade visível e até multiplicada por um certo mistério. O charme pessoal de cada uma se mantém na voz, na própria roupa e nos detalhes do comportamento. Ninguém reclama no Ocidente que a maioria das mulheres hoje se veste de calça jeans. Nem por isso elas são iguais. Não é diferente com as mulheres de burca. Prestando atenção nelas, mesmo com o rosto coberto, cada uma continua especial.

No Oriente, o islamismo se espalhou rápido por causa da pobreza. É uma religião que prega a simplicidade e o conformismo com a dificuldade, apoio espiritual importante num ambiente naturalmente agreste e em condições de vida das mais duras. Por isso, o islamismo também possui qualidades morais que se contrapõem ao consumismo deslavado do Ocidente, em especial o que se apoderou dos Estados Unidos. Um fenêmono de massa que, e por um lado produziu progresso para alguns, também criou enormes bolsões de pobreza pelo mundo.

Não é preciso ser muçulmano para fazer uma crítica ao rumo do sistema atual – há muitos sacerdotes laicos, os monges que atendem pelo codinome de economistas, que fazem isso com grande convicção. Como os próprios americanos parecem reconhecer com a enorme crise que criaram, o nosso capitalismo tornou-se uma ameaça a si mesmo, pelo excessivo materialismo, que leva ao irrealismo e a uma certa lassidão.

Na falta do comunismo, a antiga crítica do sistema capitalista, o islamismo se tornou também um contraponto ao capitalismo, pois é igualmente fincado também num certo idealismo de fundo moral. Os comunistas acreditavam que o poder devia ser do povo para garantir a igualdade social e na distribuição de renda. Era um projeto político econômico de cunho moral; questionava um sistema que considerava exploratório e selvagem, no sentido de desumano. Criou também seus monstros até ruir, mas era gfeito inicialmente de bons propósitos.

O islamismo é também contraponto do capitalismo, embora seja uma religião, não um sistema econômico, por suas implicações no estilo de vida e consequentemente no modo de consumo e produção. Lança novamente o homem sobre uma base moral, não o materialismo que é usado como principal atração de um sistema que, em desequilíbrio, promove uns, mas marginaliza outros. É essa população marginal cada vez maior que recorre às seitas para recuperar a esperança de uma vida melhor.

Isso não acontece apenas no Oriente. É também o caso das seitas evangélicas, que pouco a pouco tomam conta da periferia miserável das grandes metrópoles e do interior de países como o Brasil. Na essência, o crescimento das igrejas pentecostais não difere do sucesso do islamismo como um fenômeno derivado dos problemas contemporâneos. E a tendência é que tais seitas cresçam cada vez mais, até que a pobreza volte a diminuir.

A radicalização da fé produzida pela pobreza dá no obscurantismo. Em escala, ela gera grandes abominações, como o sistema comunista da União Soviética, que dos bons propósitos logo se desviou para o rumo fácil dos Estados totalitários. O mesmo acontece com os países do Oriente onde a religião passa a tomar conta do Estado.

O Egito teve a sorte e a inteligência de fundar um Estado laico forte, mesmo num país predominantemente muçulmano. O mesmo acontece com a Turquia, graças ao fundador do estado turco, o presidente Ataturk. A separação entre igreja e Estado garante a liberdade religiosa, o princípio da tolerância e igualdade de todos perante a lei, não importa raça, religião ou extração social.

Os muçulmanos são gente como no resto do mundo. Desejam trabalhar, vencer a pobreza, amar e construir um mundo melhor. Aqueles que se aproveitam do ambiente favorável criado pela miséria para usar a religião para cevar a cizânia, o rancor e o radicalismo, sempre com vistas à opressão e o terrorismo, não passam de criminosos.

Combater países islâmicos, e não as causas do terrorismo, é uma ignorância brutal. Não se pode condenar nem punir a todos por conta de uma minoria, seja entre os muçulmanos. É bom lembrar o catolicismo, por exemplo, também abriga suas seitas radicais, como a Opus Dei e a TFP, que fazem restrições aos comportamento das mulheres na maneira de se vestir e expressar de maneira bem pior.

Em todas as religiões, há gente que representa o retrocesso. É preciso separá-lo das religiões e fazer com que o obscurantismo não se espalhe. Isso se faz com mais renda para que as pessoas não caiam no radicalismo levadas pelo desespero da pobreza. E pela educação, a verdadeira iluminação do homem.

É essa capacidade de entender profundamente o outro que um ocidental com sangue africano e nome árabe deveria usar para diminuir a dissenção entre Ocidente e Oriente, hoje a grande ameaça à paz do mundo: Barack Hussein Obama. O presidente americano não é depositário das esperanças mundiais por acaso. Homem certo, no lugar certo, no tempo certo, ele é a síntese do problema – e, esperamos, a solução.

 

 

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