Como parte do trabalho para meu próximo romance, Amor e Tempestade, a ser lançado em março pela editora Objetiva, com o selo Suma, tive de estudar a biografia de vários personagens históricos do Brasil dos anos 1920. Todos eles são importantes e extraordinários, mas nenhum talvez seja tão interessante e tenha tanto a ensinar sobre os problemas mais atuais do Brasil quanto o cangaceiro Virgulino Ferreira, o Lampião.
Mais conhecido como o protótipo do bandido esperto e sanguinário, Lampião foi um homem incomum e um fenômeno sociológico, produto de seu tempo e da maneira como o crime se incrustra na sociedade. Para entendê-lo, li muitas das suas diversas biografias. Entrevistei pesquisadores e gente que se orgulha de ter colecionado depoimentos orais de cangaceiros e outras testemunhas vivas de sua história. tive ainda acesso a muitas fotografias e material do cangaço, como uma mostra bastante completa que, por sorte, ficou algum tempo em exposição no Museu da Imagem e do Som de São Paulo, o MIS.
Lampião entrou no cangaço porque seu pai, um pequeno agricultor, foi assassinado a mando de vizinhos com quem tinha uma rixa. Acabou herdando a chefia do bando de cangaceiros quando seu chefe, o temido Sinhô Pereira, aposentou-se do crime depois de terminar sua carreira de vinganças por motivo semelhante.
Tratava-se de uma figura e tanto. Lampião era caolho. Perdeu o olho direito, vitimado pela catarata. Por isso, teve que aprender a atirar com a mão esquerda, lado do olho bom, com o qual podia fazer mira. Como chefe do bando, tinha o direito de usar a adaga mais comprida. Para reconhecer um chefe do cangaço, bastava olhar o tamanho da sua arma.
Não havia outros privilégios. Lampião não tinha criados: carregava tralha como um jumento. Cada cangaceiro tinha de ser uma unidade autônoma de combate. Além da espingarda, cada um levava seus próprios utensílios de cozinha, remédios, comida e outros apetrechos. Por isso, estavam sempre carregados de alforjes, cujo peso não distribuíam sequer com os animais, sempre prontos ara a eventualidade de ter que desmontar.
Antes de mais nada, os cangaceiros prezavam a mobilidade. Fugiam a pé das volantes no meio da caatinga, muitas vezes andando de ré, para confundir os perseguidores com pegadas na direção contrária.
Lampião por muito tempo proibiu a incorporação das mulheres em seu bando, uma norma dos tempos de Sinhô Pereira, pois achava que isso criava atrasos e confusão. Somente mais tarde se casaria com Maria Bonita e as mulheres seriam admitidas. Isso levou Lampião a fixar-se na região do alto São Francisco, uma das razões pelas quais acabou sendo encontrado e morto com seus seguidores.
Ele mantinha complexas relações com o mundo onde vivia; este tanto o ameaçava quanto protegia. Lampião era não apenas temido como respeitado e admirado pelo povo do sertão, que via nele um justiceiro e libertador; alguém capaz de enfrentar um sistema opressivo, personificado pelo governo explorador e uma polícia tão opressora, violenta e arbitrária quanto os próprios bandidos.
Sua relação com o sertão era de simbiose. Protetor da sociedade pobre e oprimida, era também por ela protegido. É a mesma relação existente hoje entre o traficante e a favela onde ele se instala. O que leva a crer que esse tipo de criminoso só desparece quando as condições em que ele se enraiza e prospera também acabam, por meio de educação, da melhoria da renda e de uma presença positiva do poder do Estado.
Com o tempo, Lampião passou a ser uma força capaz de dialogar com o poder constituído. Seus serviços chegaram a ser requisitados pelo governo para integrar as “legiões patrióticas”, forças suplementares que adicionavam seus esforços aos do exército nacional no combate à Coluna Prestes, de passagem pelo Nordeste.
Esse é o pedaço em que Lampião entra no meu romance. Ele teve como intermediário nas negociações o padre Cícero, poder religioso e temporal de Juazeiro do Norte, a quem respeitava e por quem era respeitado. Por causa desse convite, passou a auto-proclamar-se “capitão” do exército brasileiro. Entrou em Juazeiro em triunfo, cercado pela população, cantando uma canção sua, já famosa na época (“olê mulher rendeira, olê mulher rendá, tu me ensina a fazer renda, que eu te ensino a namorar”...)
Alfabetizado, costurava suas próprias roupas tão bem quanto disparava o fuzil e manuseava a adaga. E não tinha ilusões quanto ao seu futuro. Em Juazeiro, deu entrevista a um médico, correspondente bissexto dos jornais da capital. Perguntado sobre a possibilidade de, como “capitão” anistiado do exército, abandonar a vida de bandido, declarou simplesmente que tinha tantos inimigos que jamais poderia deixar as armas. Mais do que uma opção, ser Lampião era uma questão de sobrevivência.
Lampião acabou morto, mas o Brasil que produz seus clones ainda não acabou – apenas mudou de lugar. Saiu do agreste nordestino para os morros cariocas e a periferia de São Paulo. O Brasil mudou, cresceu, mas seus desafios permanecem os mesmos – e as soluções também. |