- Magnésio!
Alex estava diante de Gisela, atônito. Namoravam há duas semanas. Ele fora ao apartamento dela, ela ao apartamento dele - um caso de entusiasmo à primeira vista. Alex a levou àquele restaurante japonês perfeito para o aconchego, sentaram no tatame, um diante do outro, palitinhos entre os dedos, tomaram bastante saquê. Ela tinha já os olhos marejados dos apaixonados, Alex reconhecia aquele brilho. Gisela não resistira ao charme dele, seus lábios tremiam, estava na ponta da língua a declaração tão esperada, e aí veio aquilo:
- Magnésio!
Ele recuou.
- Como assim, magnésio?
Gisela então lhe passou um sermão. Como que então ele não sabia nada do assunto? Os japoneses viviam bastante porque comiam muito peixe cru, peixe cru tem magnésio, esse era o segredo da vida. Por isso ela não ingeria carne nem massa, só alimentos em estado natural.
Aquilo foi um choque para Alex. Ele já se imaginou ao lado dela, comendo folhas e peixe cru, a vida inteira. Nunca mais iria a uma churrascaria. Pizzas, adeus. Ele era louco por pizza. O amor arrefeceu tão rápido como surgiu.
Partiu para outra. Sula era uma morena de fechar o trânsito, tinha olhos de mel, cadeiras de dançarina do ventre, exuberante como toda recém-separada. Convidou-a para jantar num restaurante árabe.
Pela conversa, Alex descobriu que Sula estava na onda mística, acreditava em disco voador, tinha ido de ônibus de excursão a São Tomé das Letras, convidou-o a percorrerem juntos o Caminho de Santiago, seria a experiência de suas vidas.
Alex ruminou: 800 quilômetros a pé, com um cajado na mão, já sou quarentão, com uma mulher dessas nunca mais irei a Paris, tomar sorvete no Odeon, admirar Monet no Louvre. Serão apenas escaladas no Nepal, retiros em campos vietnamitas, jejuns em spas védicos.
- Que grande idéia! – disse, e depois daquela noite sumiu.
Tentou Sandra, Madalena, Maria, parece que as mulheres tinham enlouquecido, uma só queria sexo, outra ia diariamente ao psicanalista, sabia tudo do Freud, a terceira pertencia a uma seita misteriosa que se reunia em noites de lua cheia. Alex pensou: será possível? Tudo bem que com sua separação ele voltara ao mercado depois de muito tempo, mas será que as mulheres tinham mudado tanto assim?
Não podia desistir. Foi para Terezinha. Essa gostava de ioga, dizia entrar no nirvana, falava com plantas, garantiu que voava, tinha o dom da levitação. Alex tinha medo de avião, quanto mais de mulheres que voam. Dessa deu mais trabalho escapar, precisou mudar seu telefone. Mesmo assim sonhava que ela aparecia de noite, pousando de um vôo noturno na sacada de seu apartamento. Só dormia com ajuda do Lexotan.
Finalmente, Alex resolveu seu problema, de uma vez por todas. Encontrou uma mulher maravilhosa, que não voa, nem levita, detesta caminhadas, faz amor maravilhosamente. Tudo o que ele queria: uma mulher romântica, que gosta de flores, vai ao cinema, come cheese burguer, ouve o Roberto Carlos e, acima de tudo, o entende como ninguém.
E quando os amigos do chope lhe perguntam por que escolheu aquela... Razões de mercado, amigos, ele diz, e se dá por muito entendido, quando explica porque voltou para sua ex-mulher - as mesmas razões alegadas como a rotina neutralizante que o levara à separação. |