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16/2/2009

* A importância da desilusão

O escritor amazonense Milton Hatoum é um privilegiado. Vindo de Manaus, ganhou notoriedade aos 37 anos, em 1990, com o prêmio Jabuti. Tem uma boa editora (Companhia das Letras), espaço na mídia por meio de colunas e a simpatia da crítica. Tudo o que muitos romancistas desejam. E, vejam só, Milton Hatoum descobriu que nada disso tem muita importância.

Em entrevista à Ilustrada, da Folha de S. Paulo, Hatoum conta que se entusiasmou no início da carreira com a fama súbita. “Fiquei deslumbrado”, diz ele. “Com o tempo, porém, você aprende que isso não é nada”.

O tempo mostrou a Hatoum o que todos aqueles que escrevem acabam sabendo, de uma maneira ou outra. A notoriedade não é suficiente para manter ninguém como escritor. Escrever, sbretudo o romance, é uma atividade penosa, não remunerada com dinheiro, nem com a fama. Só escreve quem realmente gosta, ou precisa disso. São esses que não desistem.

Só a quantidade das nossas desilusões mostra o quanto nos iludimos. A desilusão é importante. Ela mostra o que realmente queremos da vida. Temos desapontamentos, abandonamos as ilusões. Os escritores genuínos são aqueles que sobram desse processo, aqueles que não desistem, mesmo depois das frustrações. O escritor verdadeiro não é o que escreve embalado pelos sucessos, mas apesar de todos os seus fracassos.

O romancista se concentra em seu trabalho porque se trata de uma atividade visceral. Não importa o que o mundo pense. O romancista só escuta suas próprias necessidades. Enquanto o escritor a cavaleiro do sucesso vai perdendo a força com a glória, o desprezado prossegue incólume. Pode ser ignorado, passar fome, beber como um gambá, ser abandonado pela mulher, desdenhado pelos filhos. Tudo isso só aumenta sua vontade de escrever.

Vejamos o caso do Cristóvão Tezza. Numa trajetória oposta à de Hatoum, ele passou duas décadas escrevendo nas sombras, ignorado pela imprensa e o grande público. Ganhou prêmios tão pouco prestigiados quanto ele, que o levaram a lugar nenhum. De repente, com O Filho Eterno, tornou-se famoso. E declarou que tinha criado “casca grossa”: estava tão acostumado a ser ignorado que também não perdia a cabeça com a notoriedade.

O que a fama mudou na sua vida? Sabiamente, Tezza concluiu: nada.

Hatoum encontrou o caminho do amadurecimento. Escritores que ganham súbita fama não necessariamemnte ficam na história da literatura. Tendem a desaparecer junto com a moda. A única maneira de ficar na literatura é fazer um bom trabalho, o que exige dedicação solitária e árdua. Escrever é uma atividade oposta ao prazer pelos holofotes. “O que afirma o escritor é o texto e a relação que estabelece com o leitor”, diz Hatoum. Eu diria mais: o que afirma é o escritor é o espelho. Quando nele encontramos a verdade, alcançamos sempre o nosso semelhante.

 

 

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