Tenho sentido falta dos meus velhos heróis.
Vejo meu filho de dois anos brincar com o boneco do Senhor “Inquível” e lembro do tempo em que era tão confortável ser criança; havia sempre um adulto ou um herói com capacidade superior para salvar a todos. Que bom era viver sem responsabilidade nem preocupação!
Ser adulto é ser responsável por tudo, um provedor de soluções em tempo integral. Com o agravante de que não é herói, mas um reles mortal. E nunca tira férias. Sabe que a responsabilidade está nas mãos dele. E não deixa de estar, mesmo que ele saia a passeio.
Quando eu era criança, havia muita gente para assumir responsabilidades. Meus pais eram responsáveis e além deles havia meus tios e acima deles meus avós. Os avós eram como segundos pais; meus próprios pais recorriam a eles em busca de um conselho, um ombro amigo, ou mesmo de dinheiro. Problema de saúde? Alguém ajudava. Sem custo.
Havia a quem recorrer.
Não sei a quem recorriam meus avós, que já tinham perdido seus pais, mas havia uma certa solidariedade geral que aliviava o peso médio sobre os ombros de todos. Isso não existe mais. O adulto nunca foi tão sobrecarregado de responsabilidade na história da Humanidade.
Quando eu era criança, havia muito colégio público bom e o particular não era tão caro. Para se divertir, a gente brincava na rua. Antigamente, a gente pegava uns paus e fazia um carrinho de rolemã, cortava papel e fazia uma pipa, coisa de centavos. Nenhum adulto precisava se envolver. Só lembravam da gente quando era hora do café, do banho, ou quando a bola estourava na janela de algum vizinho.
Hoje os filhos saem de casa tarde e dependem dos pais por muito mais tempo do que antes. Eles também exigem atenção contínua e custam mais caro. Um bom colégio hoje tem de ser particular – e isso custa ouro. Diversão? Também exige dinheiro – e tempo. Até para se divertir é preciso que os pais levem os filhos a algum lugar. A diversão também é movida a dinheiro. Nenhuma criança se contenta hoje em empinar uma pipa. Por conta disso, os pais pagam o videogame numa dívida de dez prestações.
Os avôs também se tornaram dependentes. Graças ao avanço da medicina, hoje se vive muito mais e a maioria deles não se preparou para sair do mercado de trabalho e viver tanto tempo na aposentadoria. É a atual geração economicamente ativa que tem de pagar para eles custos que cresceram muito, como planos de saúde e, muitas vezes, moradia.
Embora dependentes economicamente, os avôs modernos ajudam menos os filhos. Eles são em grande número separados ou casados pela segunda ou terceira vez, são mais individualistas e querem seu tempo disponível não para cuidar de netos, trocar fraldas e resolver problemas dos filhos, mas se divertir despreocupadamente enquanto puderem.
Mesmo os tios já não são personagens tão ativos. As famílias tornaram-se menos numerosas e não há tantos tios como antes. E os que existem em geral também estão sobrecarregados demais para ajudar os irmãos.
Quando era pequeno, repito, eu não me preocupava com nada porque havia não só os pais como os tios, os avós e o National Kid. Professor que se travestia de capa curta, pistola de raio laser e capacete com máscara branca para salvar os sobrinhos e a Humanidade, o herói japonês era a esperança de solução para tudo, quando já perdêramos as esperanças. Era isso o que significava aquela musiquinha que rompia o medo e nunca deixou os meus ouvidos: “Nationaro Ki-i-dôoo!”
Hoje lembro do meu herói de infância com saudade, desejoso de acreditar que ainda posso recorrer a ele em caso de urgência – a ele, pelo menos a ele. |