Foi em 1977, eu tenho certeza porque tinha treze anos. Era um menino magro de óculos e pulava carnaval no Palmeiras. À tarde, havia as matinês: os pais ficavam na arquibancada e podíamos dançar à vontade na quadra de basquete, dividida por cercadinhos conforme a idade; lembro de mudar de cercado de ano para a ano, até chegar àquele que mais interessava: o dos “grandes”.
Ali a gente podia circular no meio da folia e o esporte mais interessante era olhar as meninas, de cabelos soltos, saias de palha e colares havaianos, arrastando as sandálias entre montes de confete e serpentina. Não era mais carnaval de criança, tinha mais ambições. Era uma oportunidade, a melhor do ano inteiro, de namorar.
Não que eu gostasse só disso no carnaval. Eu adorava a folia, a alegria, e as brincadeiras de rua. Na Casa Verde ficávamos na rua o dia inteiro, enchíamos bisnagas de água e espreitávamos os carros; fazíamos guerra de água e havia uma liberdade tão grande que ninguém se incomodava quando chegávamos tarde em casa molhados e suados e cansados depois de muitas horas na rua sem que ninguém soubesse de nós.
No clube, porém, não era só a música, a alegria, a liberdade, mas também a expectativa, porque eu podia entrar nos trenzinhos, segurar as meninas pela cintura, jogar confete, segurar a mão – e quando elas deixavam a mão era sinal de que ficariam com a gente.
O jogo de sedução já valia a diversão, mas havia ainda a esperança de encontrar uma namorada de verdade, algo que apenas então começava a deixar de ser algo fora do alcance para as crianças. O carnaval quebrava barreiras, tirava os medos, abria portas para coisas que em outra situação jamais teríamos coragem de fazer.
De vez em quando, caía um toró daqueles no fim de tarde, a rua Turiassu virava um rio e o ginásio do Palmeiras enchia d’ água, liquidando os bailes; havia a expectativa de torcer para que a chuva não estragasse tudo, quem iríamos encontrar, qual a menina mais bonita, e sobretudo o que fazer quando ela passasse perto.
E foi naquele carnaval de 1977, não me lembro exatamente da menina, sei só que era morena de cabelos anelados, um pouco mais velha do que eu, com catorze ou quinze anos; deixou-se pegar pela mão já no final do baile, aquele era o momento crucial. Dançamos um pouco; quando a música acabou estávamos ainda de mãos dadas, e foi assim que saímos juntos.
Na porta do ginásio, quando nos despedimos, ela me deu um beijo; na aproximação dela havia doçura, um perfume, uma suavidade desconhecidas; um instante pareceu longo, transformado em encantamento; então os lábios dela encontraram os meus: o primeiro beijo na boca da minha vida.
Já era o máximo, mas então, para minha surpresa, senti a língua dela entrando na minha boca; era uma língua dura, rápida e curiosa, que entrava por todos os cantos - um susto tão grande que quase dei um pulo para trás.
Eu imaginava que beijos eram aquilo mesmo do cinema, um encontro romântico de lábios; não tinha a menor idéia daquela movimentação interior, secreta e inesperada. O orgulho masculino, proém, foi maior que a surpresa: fiquei ali como se soubesse já de tudo, experimentado como um velho marinheiro, e retribuí o beijo conforme ela me ensinava.
Ficamos ali grande tempo a nos beijar e eu a conhecer o beijo, a descobrir que nada era como eu imaginava. Lembro da despedida, de algumas promessas de reencontro, que ambos sabíamos serem falsas. Era o último dia de carnaval e nunca mais vi a menina do meu primeiro beijo; ela foi embora à procura dos pais e junto com ela foi alguma coisa da minha inocência; naquele tempo ainda podíamos ter treze anos e ser inocentes, uma inocência que hoje me parece ao mesmo tempo tão doce e absurda. |