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26/2/2009

* Imprevisível passado

No final dos anos 1990, trabalhando na revista Veja, fiz uma reportagem sobre o funcionamento do cérebro e o mecanismo da memória. Entrevistei uma série de cientistas dedicados ao estudo desse órgão até hoje pouco conhecido e sugeri a chamada de capa: “O Poder da Mente”.

Coisa inimaginável para uma reportagem de ciência, “O Poder da Mente” vendeu mais na banca que muitas desgraças e acidentes, tradicionais vendedores de revista: ficou entre as 10 edições mais vendidas de Veja nos trinta anos de existência que tinha a publicação.

Meu contato com os cientistas rendeu não só uma reportagem de sucesso, como meu interesse pelo fascinante mundo da memória. Até então, eu nunca havia considerado o pensamento como resultado de uma combinação biológica. Pela primeira vez, entendi como funcionam os arquivos mentais, em que armazenamos o que chamamos de passado.

Explicam os cientistas que o cérebro contém células semelhantes a um filme fotográfico. Uma visão, um cheiro, uma dor, o prazer, tudo é impresso nessas células, cujas enzimas são transformadas. O resultado é que essas células passam a ser arquivos daquela lembrança. Quando precisamos recorrer a determinada gaveta da memória, vamos buscar aquela fotografia impressa em matéria viva que ficou em algum lugar da cabeça.

Então, descobri também algo perturbador. Ao contrário do filme fotográfico, hoje também já em extinção, o celulóide da memória é matéria viva, portanto, em transformação. As células se movem, se arranjam, sua química se transforma ao longo do tempo, de modo que nossa memória também vai mudando. Episódios dos quais nos lembrávamos de uma forma, aos poucos se transformam em outra coisa.

Isso explica muita coisa. Explica, por exemplo, porque duas pessoas podem assistir ao mesmo episódio e, num futuro mais distante, contá-lo de duas formas completamente diferentes. Nenhuma das duas, de fato, está mentindo. A memória de cada uma delas é que se transformou. Acreditam na história que contam, embora a mesma história se tenha transformado em duas versões, às vezes completamente diferentes.

Um caso impressionante é o de um amigo, que aqui chamarei de M. Eu me lembro perfeitamente do dia em que ele conheceu sua primeria mulher. Éramos estudantes de jornalismo, comemorávemos a formatura numa pizzaria e lembro de tudo muito bem por uma acúmulo de circunstãncias. M. e a moça sentaram-se do meu lado. Ela era irmã de uma amiga que tínhamos em comum. M. me deu carona para casa naquela noite, num Passat cor de laranja (algo por si já inesquecível) e disse algo ainda mais impressionante: que estava certo de que se casaria com aquela moça. De fato, foi o que aconteceu.

Só que M. conta uma história completamente diferente a respeito de seu primeiro casamento. Diz que não conheceu a moça numa pizzaria. Que nunca disse que se casaria com ela. Nega até emsmo ter tido um Passat cor de laranja. E dá outros detalhes impressionantes da sua própria história.

É desconcertante, mas tendo a acreditar que ambos falamos a verdade. Ou, ao menos, como ela se apresenta para cada um.

A conclusão de que já não sabemos recuperar o passado exatamente como foi, dependendo apenas da memória, foi chocante para mim. Já é difícil conviver com a incerteza quanto ao futuro. Mais difícil ainda é não ter certeza do passado. Se até ele muda, não podemos confiar em nada, nem mesmo no que somos. Perdendo o passado, sinto como se perdesse a mim mesmo.

Resta, portanto, a escrita. Essa, única certeza possível, pode ainda nos salvar.

 

 

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