Mesmo para quem não tem particular interesse por jornalismo, entrar pela primeira vez na redação de um grande jornal é uma experiência assombrosa. Comigo foi em 1985, quando entrei no número 90 do velho prédio da Rua Major Quedinho, em São Paulo, onde já funcionara em outros tempos o Estadão, na época a sede da Gazeta Mercantil, o maior jornal de negócios do país.
Como foca (aprendiz de jornalista), foi para mim a mesma coisa que ter saído de uma cidade do interior e descer do ônibus no meio da metrópole. Ao longo de um imenso salão, pelo menos uma centena de jornalistas formavam um formigueiro ao redor de mesas escuras. A febril atividade de dezenas de máquinas de escrever, velhas Olivetti cor cinza, produzia troada tamanha que dava a saensação de sacudir o piso.
Tudo ali parecia importante: as notícias chegavam de toda parte. As pessoas ali contavam o que se passava no mundo. Do que escreviam, dependia o rumo do mercado, dos negócios, da própria vida. Ali se respirava a vida de uma maneira intensa.
Claro que eu ambicionava fazer logo parte daquele mundo. Queria conhecer pessoas importantes, escrever grandes reportagens, dar furos jornalísticos. Tive, contudo, que me contentar em entrar naquele planeta doido ao nível do assoalho.
Meu primeiro emprego tinha um título bastante pomposo, em inglês: copydesk trainee. Fui alocado na seção de Nacional, a mais importante do jornal: por ela era feita a cobertura do Ministério da Fazenda e saíam as notícias da política econômica, área muito relevante numa época em que o governo mexia um palito e tudo virava de cabeça para baixo.
Ser copydesk trainee não tinha aquele charme. Na prática, minha função era a de “pentear” telegramas. Na época, a maior parte das reportagens dos correspondentes e das sucursais era enviada à redação por telex; minha tarefa consistia em colocar pontos e acentuação naqueles longos telegramas, atividade que lembrava um pouco a de ajeitar os cabelos. Aquelas imensas tripas de papel eram coladas a um cabeçalho, onde os diagramadores colocavam todas as informações inerentes ao texto, de maneira que ele não saísse no lugar errado, ou com corpo diferente.
Visto hoje, tudo aquilo era muito tosco, é claro. As falecidas laudas (folhas de 20 linhas com 70 toques) redigidas pelos repórteres eram coladas umas nas outras, como velhos pergaminhos, e depois ao cabeçalho. Aqueles rolos de papel eram jogados em escaninhos, e um oficce boy se encarregava de circular entre as mesas recolhendo toda aquela papelada e aninhando-a em canudos de PVC que literalmente entravam por um cano rumo ao andar inferior, onde ficava a composição.
Fiquei nesse trabalho quase um ano; ao mesmo tempo, me esforçava para produzir minhas primeiras reportagens. Sofria para conseguir uma linha telefônica, pois o tronco do jornal vivia congestionado; quando conseguia, do outro lado dava ocupado. Quando afinal conseguia ser atendido, morria de medo de nem passar pela secretária, já que ninguém me conhecia; por fim, morria de medo de falar besteira e ser desdenhado pelos meus interlocutores.
Foi um ano danado, mas de grande aprendizado. Primeiro, descobri como um jornal funcionava por dentro. Segundo, comecei a conhecer as pessoas. Minha sorte é que a Gazeta Mercantil erqa na época uma formadora de talentos. Sempre recebeu muito bem os jovens jornalistas, procurou treiná-los e tratar seus melhores quadros como estrelas do jornalismo. Naquele tempo, a Gazeta possuía uma constelação humana.
Na época, o grande nome da redação era Celso Pinto, considerado o grande repórter de economia do jornal, um verdadeiro astro, bajulado por todos, até pelo o diretor de redação, Matias Molina. (“O Celso é um sujeito bem formado, muito culto, entende de economia como ninguém, mas você sabe qual é o segredo do sucesso dele?”, me disse Molina, certa vez, como uma lição à queima-roupa. “Ele nunca deixou de gastar o sapato.”)
Na cobertura política, o jornal possuía dois homens de peso. Getúlio Bittencourt, apesar da aparência de tartaruguinha, era um jornalista respeitado: tinha prêmio Esso na bagagem, contato íntimo com os políticos e prestígio ainda inabalado por suas experiências posteriores, quando caiu num certo descrédito ao servir o presidente José Sarney na qualidade de astrólogo, uma atividade cultivada na sua vida particular.
A Gazeta tinha ainda José Casado, brilhante repórter e editor que migrara com sucesso da economia para a política; Angela Bittencourt, então mulher de Getúlio, extraordinária mulher, capaz de falar sobre o complicado mundo das finanças com as autoridades no assunto como se estivesse num parque de diversões. E uma cascata de outros profissionais que faziam com que o jornal funcionasse como uma máquina de peças bem encaixadas.
Esse conjunto era regido por alguém não menos extraordinário, o próprio Molina, que ocupou o cargo por muitos anos e teve sua identidade confundida com a do próprio jornal. Com seus cabelos brancos, mãos longas e igualmente alvíssimas, ele parecia mais um monge albino do que um jornalista; mas funcionava como a força motriz e a própria alma do jornal.
Primeiro, era um milagre do vernáculo: sendo espanhol de nascimento, e falando numa língua engrolada e gutural só compreendida por quem o conhecia bem, era capaz de apanhar o mais mínimo erro de português de todos nós nativos da língua. Além disso, era paciente, estimulador e ferrenho protetor dos princípios elementares do bom jornalismo: erro zero, busca pela notícia, correção na análise, cuidado com os números.
Conviver com aquelas pessoas foi a melhor experiência que um foca poderia ter. Além do dia a dia no jornal, cultivava-se ainda naquela época o hábito de deixar a redação e e encontrar as pessoas mais tarde. O ponto preferido dos jornalistas da Gazeta, como já o fôra para os do Estadão, era o Mutamba, o bar que ficava embaixo do jornal, no piso térreo do mesmo prédio.
Era um estabelecimento feio, mosqueirinho, cuja entrada corria paralela ao balcão. Nos fundos, havia um salão maior, sem janelas, sempre ocupado por frequentadores de todas as espécies, incluindo as piores. Depois das nove da noite as mesas começavam a ganhar vida: era a hora em que os jornalistas saíam da redação para tomar cerveja, conversar e desabafar com os colegas.
Esse hábito na época ainda tinha relação com a tradição de esquerda da imprensa, centrada na conversa de bar como terreno institucional do discurso livre e da conspiração. No Mutamba, ao contrário do que ocorria na redação, chefes e subordinados podiam conversar de igual para igual. Sabia-se dos bastidores da política interna do jornal, falava-se mal deste ou daquele desafeto e contavam-se histórias. Eu bebia tudo aquilo como se fosse a própria cerveja.
Desde então, é evidente que o jornalismo mudou muito. As velhas máquinas de escrever se tornaram peças de museu. A diagramação deixou de ser artesanal, feita a régua e estilete, para se tornar eletrônica. Os jornais se tornaram mais parecidos com grandes indústrias - a própria Gazeta Mercantil mudou de dono e de endereço. As mesas engorduradas do Mutamba, que foram a minha segunda faculdade, hoje são frequentadas pelos pedestres da Major Quedinho e pelos funcionários do Ministério público que se instalaram no prédio.
Não foram só os meios de produção que mudaram no jornalismo. Muito do comportamento dos profissionais de imprensa também se modificou. As antigas gerações começaram a dar lugar a uma gente mais jovem e objetiva, não só no trato com a notícia como em sua vida no trabalho. A conversa de bar deixou o caráter institucional que possuía; hoje, a maior parte dos jornalistas sai da redação em hora hábil de ir para casa e encontrar a família como um trabalhador qualquer.
Corro o risco de ser chamado de velho, mas acho que isso é um grande erro. Ao contrário do que ocorre em outras profissões, o jornalismo se aprende muito mais na prática do que na faculdade. É o exercício da profissão que faz o profissional. E a conversa informal, o contato próximo com o profissional experimentado, é muito importante na sua formação.
As histórias que criam ou recriam os personagens do jornalismo ajudam na formação de uma tribo, com identidade própria e ideais comuns. Para entrar nessa tribo, como um igual, sempre foi fundamental a tradição oral, a idéia de transmitir a experiência vivida nessas tertúlias hoje um tanto fora de moda.
A Gazeta Mercantil foi o lugar que me permitiu entrar aos poucos nesse mundo. Eu olhava com admiração o jovem Lázaro, repórter de nacional, entrar na redação, vindo de alguma coisa importante, ainda que fosse a inaugiração de uma fábrica em Piracicaba, e sentar para escrever sua reportagem. Sonhava com o dia em que poderia também fazer a mesma coisa.
Tive meu tempo de ser repórter da Gazeta, por mais de um ano, antes de me transferir para Veja. Trabalhei no lugar de Lázaro quando este foi convidado para a revista Exame; escrevi muitas reportagens para a primeira página do jornal e cheguei a disputar espaço nobra do jornal com os astros da época. Eu era um repórter em ascensão – e colheria o fruto desse trabalho com um convite para trabalhar na revista Veja.
Hoje os jornalistas que conheço em posição de chefia no jronalismo se queixam de que os repórteres se acomodaram com a internet, congecem pouco as pessoas (as antigas “fontes” do jornalista) e não gostam muito de sair da redação. Trata-se de algo essencial para a experiência de vida e da profissão que faz alguém escrever sempre melhor e trazer as melhores notícias.
Repito, corro risco de ser chamado de “velho” – um daqueles para quem os antigos tempos sempre são melhores. Mas foram. Não?
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