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Cinco contos de amor e um painel revelador da visão masculina sobre os relacionamentos em tempo de reconstrução.
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28/2/2009

* Onde nascem os sonhos

Outro dia, fui a bar fuleirinho em Pinheiros, lugar marcado para o encontro com amigos do terceiro ano colegial. Dos trinta e poucos integrantes do 3º. T.R.A. (Terceiro Ano de Eletrônica A) do Liceu Coração de Jesus, apareceram quinze. Apesar dos desfalques, foi uma reunião bem humorada, em que o tempo pareceu não ter passado – as velhas amizades continuam as mesmas, sedimentadas ainda mais no ano memorável de 1979.

O tempo passa, mas as pessoas continuam as mesmas. Foi só um detalhe o efeito da idade, que deixou uns mais gordos, outros meio carecas. A diferença ficou ainda mais evidente pelo fato de que alguns resolveram trazer fotografias que retratavam aquele nosso tempo alegre e baderneiro, quando fazíamos pirâmides humanas, festas em que acontecia de tudo e infernizávamos a vida dos padres salesianos.

Recordamos muitas das histórias daquela época. Como o dia em que roubei uma prova destinada a reprovar a todos, obra de um professor maléfico que, confrontado em comícios dentro de sala de aula que visavam derrubá-lo, decidira nos derrubar antes.

O crime benfazejo foi perpetrado com o ocultamento de uma cópia mimeografada dentro da cueca na secretaria, onde eu fora levar as cadernetas de presença (sim, isso existia em colégio de padres). Saí de mansinho, para o papel não fazer barulho, antes que voltasse o funcionário de plantão. Graças ao furto providencial, pude distribuir cópia da prova a todos os colegas.

Com a ajuda dos principais crânios da classe, levamos mais de uma semana para resolver as questões que, no dia do exame, deveriam ser respondidas em apenas uma hora. O que era para ser uma reprovação geral se transformou numa vitória maiúscula contra o ardil do professor mal intencionado que, desapontado e surpreso, no final daquele ano pediria demissão.

Nós tínhamos de batalhar contra tudo e contra todos. Ao participar da Maratona Cultural, por iniciativa minha, preparamos um jogral com poemas de amor às mulheres dos principais autores brasileiros. A idéia recebeu imediata oposição dos padres, a começar pelo bedel, padre Perini, um sujeito feroz, até o diretor, padre Anderson, mais suave, porém igualmente irredutível. Para liberar a nossa apresentação, padre Anderson exigiu fazer a censura prévia daquele material - farto de descrições dos dotes femininos e referências que a eles se afiguravam libidinosas.

Os padres salesianos eram disciplinadores, duros e segregadores. No ginásio, não havia meninos – só homens. No colegial, eram permitidas mulheres, mas era proibido não apenas namorar como havia certas restriçoes à convivência. Chegar perto das meninas era malvisto – eu mesmo fui afastado de amigas por padres que as levavam a outro lugar para lhes dar “conselhos” relacionados ao comportamento.

Impunha-se a linha dura, como se podia ver pelos rituais, fruto de uma filosofia autoritária que cedo me ensinou o inestimável valor da liberdade. Mesmo no colegial, tínhamos de rezar todos os dias pela manhã, depois de ouvir o sermão do padre, e subíamos as escadas em fila, em silêncio. Um bedel percorria os corredores durante as aulas, espiando pelos janelões internos das salas de aula no edifício centenário. Seu objetivo era capturar de surpresa qualquer movimento considerado inapropriado.

Enfrentar a censura não foi o mais difícil na execução do nosso empreendimento poético. Minha idéia era colocar no centro do palco do teatro do Liceu, onde encenaríamos o jogral durante a Maratona, ponto culminante do ano letivo, uma estátua grega – uma mulher seminua, que nos deu um trabalho terrível encontrar, ao custo de extensa investigação em todos os vendedores de esculturas de jardim.

Além de rara, nossa musa pesava meia tonelada e chegou ao colégio graças a uma dúzia de braços, dentro de uma Kombi arriada. Entrou no teatro pela porta dos fundos, trajando uma jaqueta militar, encontrada providencialmente no almoxarifado do teatro. Aqueles cuidados de contrabandista visavam não atrair a atenção dos padres e manter longe de olhos curiosos o detalhe significativo de que nossa musa trazia os seios de fora, mal cobertos por uma mão pudica que levantava o lençol.

Qual não foi o escândalo quando caiu o pano e surgiu a nossa diva de seios miraculosos, emergindo de uma nuvem de gelo seco, produzida pelo nosso Sérgio Soares, o Cabelinho. E o pasmo só cresceu quando demonstramos que podíamos driblar a censura, com uma equipe eficaz de declamadores, formada por revelações súbitas como o Reinaldo Lino, o Frida e o Márcio “Dudu” Duailibi, entre outros.

Perdemos a Maratona para o Terceiro Ano de Patologia, que nos passou a perna com um palhaço que cantava como um tenor profissional e dançarinas de cabaré que deixaram a todos, inclusive a mim, de boca aberta. A beleza feminina, por nós decantada, foi a arma que afinal nos derrubou, uma luta desigual, já que no 3º. TRA não havia uma mulher sequer – a eletrônica, infelizmente, era de interesse exclusivamente masculino. Mesmo assim, nossa união na épica batalha contra o establishment cobriu de glória nossa apresentação e foi um grande marco do ano inesquecível.

Qual não foi minha surpresa quando o Lino apareceu na nossa reunião temporã com uma fotografia da nossa musa, que ainda hoje repousa no mesmíssimo lugar onde a deixamos, em merecida aposentadoria, logo após a apresentação: o jardim da casa de sua mãe, no Bairro do Limão. Foi como rever um antigo amor.

Sim, lá estava ela, a Musa do 3º. TRA, ao lado de uma garça branca, num jardim florido, ainda mais idílico aos olhos de um velho apaixonado. Pudemos constatar que, de todos nós, ela foi a que menos sofreu fisicamente os efeitos do tempo. Chegou a melhorar: continua a dirigir ao éter seu olhar olímpico e a arrancar suspiros tingida de um branco marmóreo.

Nossa musa continua a mesma: um lembrete de que os sonhos não envelhecem nem morrem. Ali eu percebi que minha vida seria para lutar contra injustiças e a favor do iluminismo e da liberdade. E que não seria feliz num mundo de transistores e circuitos integrados. Mesmo sem saber ainda ao certo qual o caminho, tive a certeza da minha vocação humanística.

É bom saber que continua viva apenas aquela irmandade que o tempo e a distância não desfazem e nem outros trinta anos poderiam igualar. Foi com aqueles amigos que compartilhei o momento em que, sem ainda nos dar conta de como será o resto de nossas vidas, é onde nascem os nossos sonhos. Como a velha Musa no seu Paraíso, eles também estão ainda comigo, intactos, chama que enche de vida, capaz de nos manter eternamente jovens.

 

 

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