No antigo Egito, o homem que escrevia era o verdadeiro detentor do poder. Com suas tabuinhas, ou às vezes o papiro, o homem que sabia escrever controlava tudo. Os escribas eram os altos burocratas: dominavam a burocracia do Estado, viviam próximos ao faraó e se comparavam em poder aos militares e os sacerdotes.
Escrever sempre teve algo de mágico. A escrita representa o saber: ninguém sabe tanto quanto aquele que escreve. Claro que essa não é uma verdade absoluta: existe muita gente que escreve muito bem e utiliza essa arte para dizer bobagens. Existe gente que sabe muito e, por não saber se expressar, faz seu saber passar em branco. Aquele que existe, proém, envolve-se profundamente com a atividade intelectual, o mundo das idéias, a busca pelo conhecimento. O exercício de escrever é também o exercício de pensar e criar.
Esse é um trabalho cada vez mais importante no mundo contemporâneo. Já vão quatro mil anos desde que surgiram os escribas e eles têm mais força do que nunca. Não apenas porque estamos na chamada Era da Informação, em que a comunicação se tornou o bem mais importante para destacar pessoas e produtos no meio da multidão, formar, educar e acelerar, por meio do conhecimento, o processo de desenvolvimento e melhorar a vida, com saúde e bem estar.
As pessoas hoje passam o tempo envolvidas com suas especializações: constroem pontes, curam doentes, administram indústrias. Porém, não têm tempo de pensar. Identificar as mudanças que afetarão a sociedade e sua vida particular. Entender o que se passa à sua volta. Captar ou criar idéias e processos que podem modificar o mundo. Esse papel ainda cabe ao homem de idéias, que se dedica a escrever, e a pensar.
Não importa se por meio do livro, do jornal, da revista ou de meios eletrônicos ou virtuais: o escriba continuará a ter sua influência no mundo, construindo as idéias que guiarão a humanidade por este e pelos próximos séculos. Estará sempre próximo dos líderes, dos governantes. Estará sempre atento aos movimentos políticos sociais e participará deles, porque quem se preocupa com as idéias não fica indiferente ás injustiças e problemas e tende a passar sempre à ação.
O romancista é o primeiro cientista. Cabe ao escritor, com o uso livre da imaginação, inventar primeiro o que o homem não sabe. Penso em Júlio Verne, com sua pena, escrevendo à mão à luz de velas, imaginando antes de ninguém o submarino e o vôo ao redor da Lua, utilizando o próprio efeito da gravidade lunar para devolver o bólido à terra. O futuro já existe: ele é imaginado antes por um escritor.
Gilberto Gil inventou uma frase importante: o povo sabe o que quer, mas também quer o que não sabe. Ninguém achava precisar do telefone celular, antes que fosse inventado. Depois de sua invenção, começou a parecer um bem tão indispensável quanto o sabonete. Que, por sua vez, substituiu o vazio para se tornar fundamental na nossa sociedade.
Assim também são as idéias: precisamos delas, mesmo sem saber ainda quais elas são. Quando uma nova idéia surge, ela se torna indispensável, mesmo que a Humanidade tenha passado sem ela até ali. As idéias são indispensáveis. E são os homens de idéias que substituem o vazio da vida para transformá-la em algo palpável. |