Outro dia, fiz um papelão. Fui jantar na casa de amigos, acompanhado de minha mulher. Havia lá outro casal de convidados: um médico, que é administrador de hospital, chefe do anfitrião, e sua esposa. Conversa vai, conversa vem, o médico começa a falar das dificuldades de administrar um hospital com verba pública, sempre insuficiente. E que é obrigado a vetar procedimentos médicos requisitados por pacientes desenganados, porque precisa do dinheiro para pagar as contas daqueles para quem ainda há esperança.
- Sei que é duro, e se fosse com meu filho, faria tudo para prolongar a vida – disse ele. – Mas, como administrador, não posso pensar e agir dessa maneira.
Fiquei indignado: por quê não? Por quê os filhos dos outros eram diferentes dos dele? Eu lhe disse que colocavam médicos na direção de hospitais justo para que pensassem como médicos, gente que busca salvar vidas a qualquer preço – e não como burocratas, que olham apenas as contas. Num hospital, mais que em qualquer outro lugar, é preciso ser humano, saber abrir exceções. É necessário inconformismo com o ruim e lutar pelo melhor. É preciso ter ideais, para atingir o ótimo, em vez de nos satisfazermos com o bom. Ainda mais quando se está lutando pela vida.
Sei também que a realidade hospitalar é dura, não só no Brasil como no mundo inteiro. Os planos de saúde tomaram conta do sistema e pagam mal os hospitais. Não há recursos para atender bem a todos. Porém, quanto maiores as dificuldades, mais à altura temos de estar delas. Fiquei fulo da vida com aquele sujeito conformado, achando que estava fazendo bem o seu papel, como ele mesmo disse, escolhendo entre “quem vai viver e quem vai morrer”.
Conversa vai, conversa vem, confesso: perdi as estribeiras. Disse-lhe que não havia esse poder de decidir entre quem vive e quem morre. Que nosso dever é salvar a todos. Ou fazer o possível para isso. Disse mais: afirmei que ele pensava daquela forma porque nunca tivera algum parente em estado terminal, e que pensaria diferente quando fosse a vez dele de estar na cama hospitalar. Gritei e quase bati na mesa, enquanto meu anfitrião engasgava com o arroz de pato.
No dia seguinte, encontrei meu anfitrião de novo, com a família, no clube. Era um sábado de sol. Eu dormira muito mal, roído pela indignação. Pedi desculpas. Não queria ter lhe causado problemas nem estragado o jantar com aquele mau-estar. Ele tentou aliviar a situação, foi simpático. “Foi um bom debate”, disse ele. “Vamos ver a repercussão, se perder meu emprego, eu aviso.”
A serenidade é o melhor ponto de partida. Isto se queremos que ela seja também o porto de chegada. Sei que não se pode destratar as pessoas, mesmo sob o efeito da maior das revoltas. A fúria é contraproducente. É preciso domá-la com baldes de água fria na cabeça. No entanto, às vezes é difícil manter o autocontrole.
O que mais me deixa possesso é saber que graças à ação de administradores despreparados e médicos que esqueceram porque entraram na profissão, deixamos de acreditar na vida quando entramos em muitos hospitais. Porque aqueles que estão ali nos abandonarão em certo ponto. Porque não farão tudo o que é possível, mesmo quando é inútil. Porque não entendem que um doente não precisa apenas de remédio. Precisa de humanidade.
Por essas e por outras é que muita gente não gosta de pagar imposto, acha que não deve cumprir deveres de cidadão, ou vive passando na frente dos outros, apelando para o individuaolismo mais selvagem. Na medida em que não acreditamos no retorno de um serviço, sobretudo de um hospital, é que começam a faltar os recursos que pagam essa conta. Para ter o dinheiro, é preciso que acreditemos naquilo em que estamos colocando o dinheiro. E essa credibilidade tem de começar pela postura do profissional que administra a instituição.
Sou autor do livro O Sonho Brasileiro, que relata a vida do comandante Rolim amaro, fundador da TAM. Rolim era um homem que não se importava de fretar um jatinho para atender um único passageiro que perdera o avião ou tivera algum problema causado pela companhia. Claro que saía caríssimo. Mas ele não achava aquilo um prejuízo, ou que o dinheiro faltaria para osvôos regulares da empresa. Ele acreditava que a satisfação do cliente ao ver que a emrpesa fazia tudo por ele traria mais tarde um retorno de valor inestimável. Porque trazia credibilidade.
A TAM cresceu a cavaleiro dessa filosofia, a uma taxa de 30% ao ano, por anos seguidos. Foi uma porva de como fazer o melhor possível não dá prejuízo. Porque quando algo dá o retorno que esperamos, pagamos por isso, individual ou coletivamente. Se isso funciona para algo não tão importante, quanto pegar um avião a trabalho, imagine quando se trata da própria vida. A lição de administração de Rolim valeu para a TAM e continua valendo para todas as empresas e instituições, sobretudo as hospitalares.
Como humanista, eu não posso deixar de defender a vida, em qualquer circunstância. Cinco minutos a mais de vida são mais valiosos que milhões de reais. Não há preço para o minuto de vida. Só quem já acompanhou de perto a agonia de um ente querido, ou mesmo de um desconhecido, poderá ter uma idéia mais exata do que estou dizendo. E quem vê quando um parente recebe o melhor jamais esquece. Esse efeito multiplicador é que traz confiança, respeito e dinheiro.
Espero que isto desculpe o meu mau jeito, a fúria que insiste em surgir, para constrangimento dos amigos e da minha mulher, que passa cada vergonha ao meu lado. Porque eu acho que no dia em que nos conformarmos com o descaso estaremos também mortos. E ninguém – repito, ninguém – terá salvação neste mundo. |