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Cinco contos de amor e um painel revelador da visão masculina sobre os relacionamentos em tempo de reconstrução.
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8/3/2009

* O gigante de papel

Eram cinco horas da manhã de uma quarta-feira de março de 1996, Nova York passara por uma das maiores nevascas de todos os tempos e o avião descia no aeroporto J.F. Kennedy numa escuridão tão completa que só percebi a aterrissagem quando o aparelho tocou o solo. Embrulhado em meu cobertor, espiando pela janelinha como num submarino em grande profundidade, eu só via a luz da asa direita, transformada num halo difuso e pálido em meio à neblina. Tentei imaginar como o piloto chegara ali e taxiava sem enxergar a pista. Quem dera jornalistas tivessem pilotos automáticos para fazer o seu serviço, pensei, grogue de sono. Eu estava como o avião: andando às cegas.

Aos 32 anos, eu era editor executivo da revista Exame VIP, dirigida a um público com capacidade financeira para tomar vinhos, comer bem e aproveitar as recomendações de uma publicação empenhada em elevar seu estilo de vida. Para mim, isso significava um emprego com um bom salário, alguns desfrutes e um regime de trabalho que me permitia, das seis até as dez e meia da manhã, quando partia para a redação, escrever secretamente meu primeiro romance, Filhos da Terra, que seria publicado dali a dois anos.

Gostava da revista: lá, além de vinhos, viagens e outros importantes supérfluos, tinha oportunidade de escrever sobre o que mais gostava – gente, suas idéias e a maneira que elas levavam a vida. Daquela feita, minha missão era produzir uma reportagem sobre três mosqueteiros do jornalismo brasileiro, que viviam em Nova York: Paulo Francis, Lucas Mendes e Nelson Motta, personagens quase lendários que vinham dando brilho a um então recente sucesso da televisão.

O Manhattan Connection, da GNT, era o primeiro programa a se destacar em cabo no Brasil, num tempo em que a audiência da TV por assinatura ainda engatinhava. Não era difícil entender as razões pelas quais atraíra a simpatia de um público crescente. Primeiro, tinha sido concebido como uma mesa-redonda, que provocava o debate acalorado entre seus participantes, como as tertúlias sobre futebol nas noites de domingo, tão ao gosto dos brasileiros.

Tratava de notícias do Brasil e do mundo a partir da Nova York, com novidades sobre a cidade e reflexões de ambição internacional, numa fase em que os brasileiros se abriam para o mundo, estimulados pela abertura política e econômica que lhes permitia viajar para o exterior, usar finalmente cartões de crédito em viagens internacionais e conquistar um novo tipo de status.

Para completar, o programa atraía pela qualidade de seus participantes, cuja personalidade lhe dava o condimento. Com sua língua ferina e sua cultura enciclopédica, Paulo Francis era o polemista visceral. Fiel a si mesmo, e ao que escrevia nas suas colunas na época para o Estado de S. Paulo, O Globo e a TV Globo, disparava seus comentários sobre tudo e todos com a soda cáustica produzida por seu cérebro monumental. Nelson Motta, com sua contagiante alegria de embaixador da música popular brasileira, era a figura ligeira e bem humorada que contribuía com sua visão cultural. No papel de moderador da mesa, encarregado de trazer o fato puro e objetivo, com o talento que fazia dele o melhor texto da TV brasileira, Lucas Mendes tinha a tarefa adicional de colocar ordem nos companheiros de mesa.

Por fim, como um D’ Artagnan entre os três mosqueteiros, Caio Blinder - ex-editor da seção de internacional do jornal Folha de São Paulo - tentava fazer no meio daqueles gigantes da imprensa o difícil papel de sujeito normal.

Escrever sobre aquele pessoal não seria fácil: entrevistar gente de imprensa, dentro dos órgãos de imprensa, é sempre encarado como missão delicada, pois qualquer ferimento a suscetibilidades pode se transformar em retaliação. Além disso, havia um desafio adicional. Meu chefe à época, Antonio Machado, alçado à direção do grupo Exame, responsável pelo lançamento de VIP como revista independente, era partidário das iniciativas ciclópicas. Queria uma reportagem de bastidores sobre o programa, a biografia completa daqueles jornalistas, e mais: uma foto de capa, com os três mosqueteiros abraçados diante de um táxi amarelo, que para ele simbolizava a vida na Big Apple.

Eu não gostara muito daquela idéia, que achava redundante; além disso, imaginava dificuldades para convencer os personagens, sobretudo Paulo Francis, que por temperamento provavelmente não se prestaria a encenações. No entanto, com Machado ninguém discutia. Quando ele tinha uma grande idéia, era uma grande idéia – qualquer manifestação contrária era insubordinação, passível de demissão. E ponto.

Não foi difícil convencer Nelson Motta e Lucas Mendes ao telefone de que aquela matéria seria excelente para todos. Lucas, que além de apresentador do Manhattan Connection era seu produtor, buscava consolidar o prestígio do programa. Garantiu que daria toda ajuda possível. Nelsinho, o brasileiro cordial em pessoa, mostrou-se disposto a colaborar com alegria. Chegou, então, a vez de falar com Paulo Francis.

Somente telefonar para o velho monstro do jornalismo, implicando nessa expressão o tamanho do personagem e também o medo que eu sentia dele, representava para mim uma enormidade. A terrível verdade sobre o jornalismo é que o repórter sempre depende da boa vontade do entrevistado. E eu, rezando a missa para o Papa, receava ser demolido pela mesma agressividade com que Francis devastava seus adversários, espicaçava governantes e fazia inimigos em tal profusão que somente a vida no exílio em Nova York garantia sua integridade física.

Do alto dos seus 66 anos, Francis desfrutava como alguns personagens mitológicos de uma certa imunidade para dizer o que pensava a torto e a direito – especialmente, como eu temia, a palavra “não”. Mesmo assim, enchi-me de coragem e pedi a Help, apelido de Maria do Socorro, a secretária da redação, para fazer a chamada.

- O Paulo – me avisou ela, com grande intimidade, ao passar a ligação.

Peguei o telefone, disse alô, e minha saudação caiu no vazio. “Alô”, repeti, e nada. Do outro lado, um silêncio cortante vinha em resposta: Francis, no entanto, estava lá, porque eu podia ouvir ao longe, na rua, o barulho de uma sirene de bombeiro, polícia ou ambulância, como as que passam a toda hora nas ruas de Nova York. “Alô”, repeti pela terceira vez, angustiado, e como nada obtivesse de retorno acabei por desligar.

Pensei: já sei o que foi. Eu continuava com medo, mas lembrei de uma máxima, segundo a qual correr do leão é a melhor maneira de ser devorado: é preciso enfrentá-lo. Além disso, eu estava irritado; nem Paulo Francis podia fazer aquilo comigo.

Foram longas horas até o dia seguinte, quando fiz minha segunda tentativa. Pedi a Help que me cedesse o seu lugar. Sentei diante do telefone, disquei o DDD e o número. A voz inconfundível de Paulo Francis, mesmo ao pronunciar uma palavra de três letras, surgiu do aparelho.

- Alô.

- Alô – disse eu, firme. – Aqui é o Thales Guaracy, da revista VIP. - Primeiro, gostaria de saber por quê você não me atendeu ontem ao telefone.

- Eu não espero secretária.

Eu sabia.

- Bem, então eu gostaria de lhe dizer que, como jornalista, eu sempre atendo todo e qualquer telefonema, assim como faço minhas próprias ligações. Só pedi à Help que transferisse a chamada porque a linha da minha mesa não faz ligações internacionais. É também por essa razão que eu estou ligando hoje para você sentado no lugar da secretária.

O silêncio pairou novamente no ar do apartamento nova-iorquino de Francis; daquela vez, porém, senti que era porque ele estava desconcertado. Quando falou, foi com uma nota de irritada aceitação.

- Mas o que você quer, afinal?

Expliquei-lhe a idéia da matéria, sem mencionar o táxi amarelo, assunto delicado demais para nervos ainda à flor da pele. E disse que os outros integrantes do programa, estrategicamente consultados primeiro, já tinham concordado.

- Quando você vai pegar o avião?

- Se você estiver de acordo em dar a entrevista, amanhã – disse eu.

- Então venha. E quando chegar me ligue.

Apesar da confirmação, não fiquei tranqüilo. A voz de Francis ainda me pareceu mais ameaçadora que o seu silêncio. Um fracasso, pelo volume de gastos que a operação toda implicava, incluindo a foto com o táxi amarelo em estúdio, seria funesto. Por isso, eu insistira em explicar o que meu chefe queria a Lucas e Nelsinho, contando com a ajuda deles para convencer o mosqueteiro mais refratário. “Pode deixar que falo com ele”, garantira Nelsinho ao telefone. “Você vai ter tudo o que você precisar”, assegurara Lucas.

Chamei a Help e disse: “Mande comprar a passagem”.
Minhas preocupações se juntavam ao jet lag quando desembarquei do avião em Nova York num finger aonde penetrava um frio antártico. O táxi deslizou pelas avenidas desertas do Brooklyn enquanto as luzes de Manhattan mais adiante brilhavam como um mosaico enfumaçado pela escuridão e a neblina. Pelas ruas planas da ilha, adormecidas naquele horário, montanhas de neve e sacos de plástico negro deixados por uma greve dos lixeiros se acumulavam nas calçadas.

Eram pouco mais de sete horas quando entrei no Algonquin, o velho hotel que naquele tempo pertencia à rede Caesar Park, da brasileira Shieko Aoki, e por isso oferecia descontos para empresas nacionais. Entrei no saguão afamado pelas reuniões que no passado tinham abrigado a escritora Dorothy Parker e os membros da sua Round Table; suas confortáveis poltronas pareciam ainda mais acolhedoras naquela manhã fria e a gatinha que habitava o lugar, uma de suas tradições, enrolava-se a um canto. Apresentei meu voucher no balcão. Era cedo demais: o quarto só estaria disponível às nove horas. Tomei meu café da manhã no pequeno restaurante do hotel, até poder levar minha malinha para o apartamento de simplicidade austera, com suas paredes brancas e cama de madeira escura.

Depois de deixar a mala em um canto, fui direto ao telefone. Pensava no que Francis dissera (“ligue assim que chegar”). Ainda não eram dez da manhã, hora considerada precoce pela maioria dos jornalistas. Contudo, obedeci às instruções: fiz a ligação. Para minha surpresa, ele atendeu o aparelho de imediato – e parecia de bom humor.

- Chegou? – perguntou ele.

- Sim.

- Então me encontre no 230 East 63. Meio dia.

A discussão que eu tivera com Francis sobre jornalistas, telefones e secretárias surtira um efeito maior do que eu imaginara: aparentemente, naquela manobra arriscada, eu ganhara o seu respeito. Espantado pela maneira como o que parecia mais difícil se tornava o mais fácil, cinco minutos antes do meio dia eu me encontrava no endereço indicado, uma cantina italiana no Upper East Side.

O Bravo Gianni tinha um grande aquário na entrada, como os estabelecimentos decadentes que eu conhecia da minha infância quando almoçava com meus pais no Bixiga, em São Paulo. Estava vazio, não por causa do horário, mas porque, como eu veria em breve, pouca gente almoçava lá – incluindo nessa lista alguns brasileiros que tinham feito daquele lugar, muito graças a Francis, um ponto de encontro.

Quando disse ao garçom quem encontraria ali, ele me levou a uma mesa de canto, redonda, cercada por uma poltrona de couro, a preferida do seu cliente habitual. Francis surgiu meio dia em ponto, com um chapeuzinho estilo inglês, sobretudo preto cobrindo o terno escuro de lã e gravata verde: parecia uma espécie de duende gigante, atrás dos óculos grossos que deformavam ainda mais seus olhos esbugalhados.

- Olá, Guaracy.

Sentou-se ao meu lado; pouco olhava na minha direção, mas parecia de uma extraordinária afabilidade para quem, até há pouco tempo, sequer tinha vontade de me dizer alô ao telefone.

- Este é o meu restaurante preferido em Nova York – foi dizendo ele. - Não essa Nova York, que não é Nova York, mas esse quadrilátero aqui, onde ficam minha casa, o Bravo Gianni e a TV Globo. Essa é a verdadeira e única Manhattan, eu nunca saio desse quadrado, seria uma grande perda de tempo.

Contou então sentir muita falta de Elio Gaspari, seu grande companheiro de tertúlias, que há um ano deixara Nova York, onde ocupara o posto de correspondente da revista Veja. Havia em Francis um certo fastio, ou uma melancolia de um tempo em que achava ter a única pessoa no mundo inteligente o bastante para conversar com ele. Almoçava com Gaspari no Bravo Gianni, naquela mesma mesa onde estávamos sentados, e dali eles saíam para caminhadas de até “quarenta quarteirões”, nas quais mantinham a forma física e praticavam seu esporte preferido, definido por Francis como a “observação dos “loucos”.

- Essa é a coisa mais engraçada de Nova York - disse. - Você desce pela Terceira Avenida e vai vendo os loucos. Eles se modernizaram e agora têm até microfone com speakers para gritar maluquices mais alto.

Passavam também pela Quinta Avenida na altura da Rua 56, reduto de grifes como a Tiffany’s, que Francis classificava como a “maior esquina do mundo”. “O Elio dizia como piada que essa é a região com a maior concentração de mulheres bonitas do planeta.

Elas vão lá depois de velhas para lembrar como eram e ficar espiando as mais novas”, explicou.
Pedimos a comida – pasta – e o dono do restaurante, Gianni em pessoa, um italiano de cabeleira branca, apareceu para dar um alô. Tinha estado em viagem, explicou, num inglês macarrônico, e para provar que fugira à nevasca levantou a camisa até a altura do peito, deixando à vista sua barriga de chope, transformada em uma bola alaranjada. “Estava na República Dominicana, tomando sol”, disse ele, satisfeito. “Desde 1978 eu não via uma nevasca assim”, disse Francis. “Desde 1961”, corrigiu Gianni. “Para mim, esse foi um ano de duas tempestades: a neve e o meu casamento.”

Depois que Gianni foi para a cozinha, comecei oficialmente a entrevista. Francis era na conversa pessoal exatamente a metralhadora giratória que aparecia em seus artigos de jornal, ou nos comentários feitos todas as noites para o Jornal da Globo. Não perdia oportunidade de falar mal de ninguém e enfiava um assunto no outro com a facilidade de um moleque que sai disparando seu estilingue na passarinhada. Sentado no restaurante, dissertava com desenvoltura sobre assuntos variados, que estudara profundamente, do preço dos aluguéis em Nova York ao balé e a tecnologia das bombas atômicas. Chegara a fazer, segundo explicara, um curso a respeito, que o deixara preparado para ser um verdadeiro agente da CIA.

Com seu porte de aristocrata, Francis sempre morou em Nova York no Upper West Side, aquela região que considerava a única habitável na cidade, desde que se mudara para lá. Ocupava um apartamento na rua 47 com a Segunda Avenida, a dez quarteirões de caminhada do antigo escritório da Rede Globo, na Terceira Avenida com a 54. “Para morar em Nova York, e aproveitar tudo de bom que a cidade oferece, é preciso ganhar pelo menos 10 mil dólares por mês”, disse. “Aqui não se aluga um apartamento por menos de 2 000 dólares. Eu pago menos que isso, mas essa foi uma galinha morta que só encontra quem mora aqui há anos.”

Entramos no terreno mais pessoal. Francis falou da sua infância e de como seu pai parecia sempre preocupado em que ele não virasse um vagabundo. Para “fazer alguma coisa” alistou-se como figurante num grupo de teatro, dirigido por Paschoal Carlos Magno. Foi Paschoal, que achou impronunciável seu nome de batismo (Franz Paulo Trannin Heilborn) quem lhe deu o pseudônimo de Paulo Francis. “Eu achava que ia ficar segurando uma espada no palco, mas acabei fazendo seis papéis”, contou ele. “Num DC-3, avião então utilizado pelos correios, e com o auxílio de Getúlio Vargas, que deu metade das passagens, porque político só dá as coisas pela metade, fizemos uma turnê pelo Brasil. Sou, por isso, um dos poucos atores que representou em Teresina.”

Francis passou de ator a diretor, de diretor a crítico, tornando-se colunista de artes em meados da década de 1960, seu caminho de entrada na imprensa, logo ampliado para a política, até escrever a partir de 1977 a coluna no jornal Folha de S. Paulo que o projetou ainda mais. Impunha seu crivo sobre tudo, do último romance da moda ao presidente da República, como se fosse uma autoridade superior.

Explicou-me seu gosto pela leitura, o empenho com se fizera um bem sucedido autodidata e a importância da vida introspectiva, levando-me a acreditar que havia na metralhadora Francis um fundo psicológico mais profundo do que eu pudera imaginar.

Apanhou os óculos de fundo de garrafa, segurou-os na concha das mãos, examinando-os como um passarinho ferido. Era, no entanto, como se visse além deles, através da toalha branca da mesa; olhava a si mesmo, ou um passado com recordações capazes de machucar.

- Você sabe – disse ele, num murmúrio, - os meus olhos são ruins.

Explicou-me sua quase cegueira; havia no seu relato sobre aquele dado biológico um extraordinário peso, como se tudo o que fizera na vida fosse sempre um esforço supremo para enxergar, no sentido figurado e literal. Essencialmente, Francis era o tipo de homem que passara a vida lutando contra as limitações, as impossibilidades, o que me fez imaginar se a sua resistência, desde o tempo em que tivera de sair do Brasil para não ser preso como comunista durante o regime militar, em 1971, era a filosofia de lutar sempre contra a corrente.

Nos artigos que escrevia, na sua postura, havia algo muito próprio da imagem que eu fazia de um jornalista ideal. Além disso, por trás do homem que levava a razão a extremos, surgia o sentimentalismo mais radical. Como exilado, Francis se sentia traído pelo seu próprio país, a ponto de nunca mais voltar. Ao mesmo tempo, como o filho rejeitado pelos pais, gostava demais do Brasil, ao ponto da paixão.

Talvez pela distância, ou pela saudade, poucos discutem a política e o Brasil tanto quanto os expatriados. Do seu posto, como um Diógenes com sua lanterna acesa, Francis procurava extrair da sua quase cegueira física uma visão de maior alcance que pudesse realmente ajudar o país. No entardecer da vida, era ainda um idealista incansável. Para defender suas idéias, não dispensava a criação de inimigos, esporte apurado pela sua natureza rabugenta e seu temperamento ciclotímico.

Ali, na minha frente, colocando os óculos no nariz para receber o prato de macarrão que chegava à mesa, como a bonança no olho do furacão, eu vi o melhor Francis. Pensei que, por alguma razão, a maneira como eu o enfrentara ao telefone não apenas fizera com que ele passasse a me respeitar, como de certa forma o reaproximara de si mesmo.

Quando terminamos o almoço, eu já não tinha mais perguntas. Francis fez questão de pagar a conta. Eu lhe garanti que o dinheiro não sairia do meu bolso, seria pago pela revista para a qual eu trabalhava – mesmo assim, com autoridade, não me deixou colocar a mão no bolso. Saímos para a rua. Com o chapeuzinho de volta à cabeça, Francis permitiu que eu o acompanhasse a pé, descendo a Terceira Avenida em direção ao escritório da Rede Globo, onde gravaria sua coluna diária. Depois de semanas de nevasca bíblica, naquele final de tarde uma nesga de sol iluminava a rua, refletindo-se nos montes cristalizados da neve suja que os caminhões tinham atulhado na calçada. Com sua entonação característica, Francis olhava para aquelas pilhas de lixo com ar reprovador, dissertando sobre a cidade, a sujeira e a vida, numa mistura que graças às suas cambalhotas retóricas acabava fazendo todo sentido.

- Em 1966 havia aqui um prefeito alto, louro, bonito como um ator de cinema; comia a mulherada toda - dizia. - O nome dele era John Lindsay e ele enfrentou uma greve dos lixeiros como esta. A população não gostou nem um pouco da sujeira. Ele tentou se reeleger, não conseguiu e desapareceu da política: o sindicato dos lixeiros o derrubou. Se fosse no Brasil, onde os políticos podem roubar mais de 21 bilhões de dólares como fizeram com o Banespa (nota: o maior escândalo financeiro da época), não aconteceria nada. Tanto que estão todos lá, rindo da vida.

Logo adiante, Francis deu uma paradinha. Naquele trajeto a pé, costumava cruzar com os alunos de uma escola pública localizada no caminho. Apontou o estabelecimento, sem deixar de pontificar sobre aquele outro assunto, como todos os que o absorviam.

- As meninas dessa escola parecem todas umas prostitutas, e os garotos uns assaltantes – sentenciou. - É um horror.

Voltou à caminhada, ao prefeito e o lixo.

- Esse (Rudolph) Giuliani até que não é mau prefeito - disse Francis. - Apesar da greve dos lixeiros, tem obtido outros sucessos, como uma espetacular redução dos crimes em geral de 30% nos últimos dois anos.

Perguntei se ele achava que isso era resultado da eficiência da polícia, como ventilara a revista Time em recente reportagem. Francis, porém, sempre tinha outra teoria sobre tudo, muito mais original.

- Dizem isso, mas eu acho que é por causa da redução do consumo do crack - afirmou ele. - As pessoas perceberam como ele pode ser perigoso e estão mudando para outras drogas. Bem, muitos consumidores do crack também morreram.

Na porta da TV Globo, nos despedimos com um abraço cordial. Saí dali feliz, e aliviado: todo o peso da responsabilidade por aquela viagem desaparecera dos meus ombros. Mais: eu me sentia quase como uma criança que acabava de conquistar a amizade de seu ídolo do futebol. Estava tão contente que me esquecera completamente do fato de não ter mencionado a fotografia com o táxi amarelo. Antes de partir, eu ainda fizera uma tentativa de demover meu chefe daquela idéia, mas Antonio Machado era tão teimoso quanto Paulo Francis: dizia que sem a foto não havia reportagem. Devido à mudança de humor de Francis, no entanto, eu já considerava quase realizado aquele milagre.

Passei o resto do dia fuçando as livrarias de Nova York, minha atividade preferida na cidade. Como estava perto da rua 53, naquela tarde fui primeiro até uma de que gostava muito: a Mistery Book Shop, pequena loja monotemática no subsolo de um edifício residencial, onde se encontrava a maior variedade possível de romances de detetive. Na manhã seguinte, eu trataria de organizar a sessão de fotografias e rumaria para meu segundo compromisso, previamente marcado: um almoço com Nelsinho Motta.

Faltava só um pedaço da missão. Naquela mesma tarde, fui ao escritório de Lucas Mendes, ao lado do estúdio onde era gravado o Manhattan Connection, no pedaço de um andar onde funcionava a agência Reuters em Nova York. Lá Lucas me deu informações sobre o programa e prometeu que no dia seguinte, depois da sessão de fotos que eu programava, me levaria também para almoçar, de modo que eu traçaria o perfil do meu último mosqueteiro e poderia comemorar o final daquela empreitada.

- Vou levá-lo também ao um lugar de que gosto muito – disse. – É aqui perto.

Combinamos que eu passaria ali novamente no dia seguinte às nove horas; parti contente, certo de que uma tarefa quase impossível começava a ser concluída. Naquela altura, tinha já contratado um fotógrafo brasileiro para fazer a foto, um estúdio no Greenwich Village e um produtor que alugara um táxi amarelo antigo, de 1946, em estado impecável – tudo, obviamente, a peso de ouro. Por recomendação de Nelsinho, tomei cuidados extras: aluguei uma limusine para apanhar o grupo de jornalistas no escritório de Lucas, uma maneira de agradar, sobretudo, Francis. Pelo menos ele não teria razões para colocar o transporte como objeção.

Na manhã da sexta-feira, a data crucial, estava tudo certo: o táxi amarelo já se encontrava no estúdio, fotógrafo, maquiador e produtor nos esperavam no local. Saltei da limusine preta que alugara como o responsável por uma produção de Hollywood. Ao entrar no escritório de Lucas Mendes, porém, encontrei o grupo do Manhattan Connection reunido pesarosamente. Lucas mantinha-se mudo; Nelsinho olhava para a ponta dos sapatos; Caio Blinder, embora humildemente deixado de lado da minha pauta original, tentava ser solidário: procurava amenizar o clima de cemitério comentando banalidades. Sentei numa cadeira diante do grupo, como um acusado diante do tribunal.

- Ué, o que foi?

Por dois excruciantes segundos ninguém disse nada. Francis, no meio do grupo, então me olhou com certo ar enfarado.

- Sabe, você é um rapaz até simpático – ele começou a dizer. – Não é nada pessoal. Mas não gostei nem um pouco dessa história de fazer a fotografia diante do táxi amarelo. É uma bobagem muito grande.

Vi o meu mundo cair.

- Eu tentei falar com meu chefe, também não gosto da idéia, quem sabe ainda exista uma maneira de fazer a foto, tiramos o táxi e...

- Não – disse Francis. No meio do embaraço coletivo, aquela palavra soou de maneira brutal. – Eu estive pensando e não quero mais participar dessa reportagem. Da próxima vez que eu aparecer na imprensa, será como capa da revista Veja.

Naquele instante, aquilo só não soou como piada porque era a pá de cal no meu trabalho. Com o que me restava – uma certa dignidade – levantei, agradeci e saí, deixando atrás o vazio da consternação. De um instante para outro, tudo o que eu fizera – as entrevistas, o estúdio, o fotógrafo, o táxi amarelo, a limusine preta, as estadias no Algonquin, a própria viagem – se transformava num fracasso dos mais caros que eu já tinha promovido em minha carreira. Pensei em Machado, e na minha própria cara, ao voltar de mãos vazias, após gastar alguns milhares de dólares. Era provável que fosse pagar a dívida com o meu emprego.

Emergindo da sua sala, Lucas Mendes me alcançou no corredor. Não havia mais entrevista, reportagem, fotografia, nada, mas disse que o almoço ainda estava de pé, se eu esperasse pelo fim da gravação do programa, antecipado para aproveitar a presença de todos. Depois de alguns telefonemas em uma sala ao lado, em que dispensei todo o circo que havia acabado de armar, e autorizei o pagamento da conta em uma ligação para Help, esperei por Lucas meio escondido de vergonha, até que ele ficou livre para me levar a pé ao Wollenski’s Grill, um restaurante com ares de bistrô, na 49 com a Terceira.

Saímos da garoa fina que caía sobre Nova York para o pequeno hall do restaurante, no qual se entrava por uma porta de aço, como o refúgio de um doleiro. Lá dentro, fervia gente no bar antigo, apartado das mesas, localizadas num estreito mezanino em L. Galgamos a escada e sentamos numa mesa pequena, milagrosamente vaga naquele horário, depois de pendurar os casacos numa quina de escada. “Eu queria te levar num restaurante turco, mas aqui também é ótimo”, disse Lucas. “A especialidade é a sopa de ervilha”. Pedimos as sopas e ali ele me falou de sua carreira desde os tempos em que era o correspondente da Rede Globo e da vida que construíra em Nova York.

Temperamento inquieto do repórter, às vezes parecia distante, como se enquanto conversava já estivesse pensando no que fazer a seguir.

Como jornalista, Lucas sabia que eu voltaria sem minha reportagem, mas cumpriria sua palavra e até o final do almoço concedeu sua própria entrevista. Às três horas da tarde, quando saímos, caía uma tempestade fluvial, já prevista pela infalível metereologia americana. Quando Lucas saltou do degrau e mergulhou na enxurrada, duvidosamente protegido por seu chapéu impermeável e uma capa de chuva, eu pensei que ele era mais que o melhor repórter de televisão do país: aquele mineirinho de coragem que atravessava a tromba d’água em direção ao outro lado da calçada e virava a esquina, premido pela necessidade urgente de ir ao banco, era também um cavalheiro.
*
Antes de voltar ao Brasil, passei na Mistery Bookshop para comprar os três volumes com as obras completas de Raymond Chandler, recém lançadas. Passei uma última vez no escritório de Lucas Mendes, entregando o presente, com a dedicatória de um admirador, nas mãos de Paulo Francis.

Embaraçado, em vez de agradecer ele fez uma longa dissertação sobre a excelência do criador do detetive Philip Marlowe. Nos despedimos de maneira um tanto acabrunhada.
*
Paulo Francis morreu seis meses depois, em 4 de fevereiro de 1997, vítima de um ataque cardíaco fulminante em seu apartamento nova-iorquino. Andava estressado com uma ação por danos morais movida por diretores da Petrobrás, encabeçados pelo então presidente da estatal, Joel Rennó, a quem Francis acusara no Manhattan Connection de formar “a maior quadrilha que já existiu no Brasil" e colocar o produto de subfaturamento em contas pessoais na Suíça – algo que obviamente não tinha como provar.

Assustara-o ainda mais o valor exorbitante da ação, movida na corte de Nova York: 100 milhões de dólares. Ciente de que a pendenga se arrastaria por anos, acreditava que quebraria somente com as despesas com advogados. Compreendi - e creio que ele também - que de certa maneira ali terminava uma era: aquela em que um jornalista podia dizer tudo o que pensava acreditando que fazia o seu papel. E começava a era de um certo burocratismo que coincide com um empobrecimento da imprensa, da liberdade e da intelectualidade.

Sem que ele pudesse imaginar, a vontade de Francis se realizou como uma de suas profecias: na semana de sua morte, Paulo Francis sairia – sozinho – na capa de Veja. E fez com que a entrevista concedida a mim, a última de sua vida, permanecesse engavetada. Até agora.

 

 

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