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Cinco contos de amor e um painel revelador da visão masculina sobre os relacionamentos em tempo de reconstrução.
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19/3/2009

* Um romance e seus demônios

Em 1989, quando eu tinha vinte e cinco anos de idade e trabalhava como jornalista em minha primeira passagem pela maior revista semanal do país, vovô adorava ler minhas reportagens, que eu assinava como “Thales Guaracy”. Ele olhava meu nome do meio, o seu primeiro, e repetia em voz alta, rindo: “Guaracy, Guaracy”.

Quando ele completou noventa anos, lhe dei de presente um ano de assinatura da revista. Isto originou a sua segunda mensagem por escrito endereçada a mim em toda a sua vida — “O velho avô agradece”. A primeira tinha sido quando eu completara cinco anos e ele mandara encadernar, na sua capa de courinho vermelho, os fascículos da enciclopédia Conhecer, que pacientemente colecionara para me dar de presente de aniversário: “Ao neto querido”.

De alguma forma, ao trazer-lhe aquela distração, eu retribuía um pouco do que ele fizera em meu favor. Com a Conhecer, uma enciclopédia que fez a cabeça de muita gente na minha geração, vovô me ajudou a ter interesse pela leitura e o conhecimento. Conhecer era um enciclopédia “moderna” para a época. Em vez de artigos com aquele jeitão científico, procurava contar histórias – fosse sobre mamíferos, Alexandre o Grande ou a invenção da lâmpada.

Conhecer era anterior à chegada do homem à Lua – fato sobre o qual, por essa razão, não informava nada. Mas em muitos de seus assuntos históricos e outros temas ela permaneceu útil e guardo comigo duas coleções – uma no escritório de casa, outra no sítio. Eu a uso não apenas como referência, mas como lembrança – gosto de passear por suas páginas, com as quais tenho grande familiaridade, como quem vê um velho álbum de fotografias. É uma leitura prazerosa e confortadora.

Meu avô cursou o seminário, o que fez dele um homem sem formação profissional. Quando desistiu do sacerdócio, tornou-se militar. Chegou a ser oficial do exército brasileiro, participando da campanha de perseguição à Coluna Prestes, de 1924 a 1926. Depois de pedir baixa, trabalhou como jornalista no Jornal do Brasil. Era um tempo em que para ser jornalista não havia necessidade de diploma de qualquer espécie. Bastava saber ler e escrever.

Meu avô jamais contou a meu pai, nem quando este se tornou jornalista, que trabalhou algum dia em jornal. Muito menos a mim, que também segui a profissão, já na fase em que ela precisava de diploma. Soube disso por tia Maria Eugênia, que morou com meus avós até eles falecerem. Assim como eu, papai ficou muito surpreso com essa revelação.

Meu avô era um homem afetuoso, justo, elegante e discreto, que jamais falava sobre o passado. O silêncio é uma espécie de herança de família. Meu pai também não me contou, até mais recentemente, que havia trabalhado duas vezes na revista Veja, onde fiz meu início de carreira.

Isso que é aparentemente sem explicação, na verdade se explica. Entre nós, essa prática do silêncio vem de uma certa educação espartana. Da família de vovô e vovó, vem o preceito de que não se deve incomodar os outros. Que problemas pessoais são resolvidos com portas fechadas. Que as crianças devem crescer livres de problemas que envolvem os adultos. É parte de uma certa fortaleza indispensável a uma vida com dignidade.

Outro aspecto dessa educação, que tem raiz na origem aristocrática portuguesa da família de meu pai, é o gosto pelo conhecimento. Meu avô deixou o jornalismo para se tornar funcionário de administração da companhia Sorocabana da estrada de ferro, em São Paulo, um emprego mais seguro que a imprensa, naquela época considerado trabalho de malandro, assim como o teatro. Durante toda a vida, porém, cultivou a leitura e a música clássica.

O domingo era o dia sagrado para ouvir seus discos e ler o jorna -, sempre a Folha de S. Paulo, porque o Estadão havia sido inimigo de Getúlio Vargas. Vovô admirava Getúlio, pelo fato de ter implantado as primeiras leis trabalhistas no Brasil, não importava que tivesse sido um ditador.

Acabo de receber a capa de Amor e Tempestade, que chegará às livrarias na terceira semana de abril com o selo Suma, da editora Objetiva. É um romance inspirado em meu avô, que procura desvendar as histórias que ele jamais contava, em especial suas aventuras na perseguição à coluna Prestes e a sua misteriosa vida antes do casamento com vovó.

Mesmo com seu lado de romance picaresco, com direito a aparições de personagens históricos, como o marechal Rondon, Prestes, o padre Cícero e até Lampião, o romance tem muito da minha busca pessoal.

A jornada de vovô no romance é também, de certa forma, a minha jornada. Quanto mais o tempo passa, mais penso no velho Guaracy. Uma das idéias do romance é que não vemos nossos pais e avós como o nosso passado, mas como o futuro. Não alguém que já foi, mas alguém que seremos.

Para mim, o velho Guaracy sempre foi um exemplo de como dominar o tempo, envelhecer com dignidade e dominar os impulsos rebeldes da juventude, que o levaram a fugir de casa, enfrentar o pai autoritário, correr mundo em aventuras, como se de repente tivesse se tornado outra pessoa. Pusera o pacato pai de família no lugar do aventureiro para sempre, ainda que em prejuízo da sua liberdade.

Eu, quando menino, admirava o homem na cadeira, os óculos assestados no nariz, a consumir enciclopédias e a ouvir música clássica – talvez uma forma de fuga, para alguém que já não podia aventurar-se a pé pelo Brasil, correndo mil perigos, como um dia ele fizera. Meu avô se tornara um pensador, e um sonhador – uma válvula de escape que lhe permitiu prover a família e criar aquele ambiente onde nós, seus filhos e netos, pudemos desfrutar de uma infância tão feliz.

Eu imaginava de onde ele havia tirado a força para, tendo uma alma rebelde, controlar a si mesmo. Queria essa energia porque precisava dela para apaziguar dentro de mim mesmo a tempestade, que me levou por anos a uma vida talvez não tão aventuresca, mas igualmente errante. E fundar uma família, ou uma certa felicidade de infância, da qual eu sentia tanta falta.

Para mim, não bastava compreender as razões de vovô. Para me transformar, eu precisava sentir. O conhecimento verdadeiro, como diz meu pai, não está nos livros. Está nas pessoas. Eu queria reviver a vida de vovô. Para isso, precisava reconstruir, com os poucos elementos que tinha, e muito da minha imaginação, aquela saga fabulosa que me sugeria uma odisséia brasileira - um Ulisses correndo perigos Brasil afora, enquanto sua Penélope enfrentava iguais ou maiores dificuldades a esperá-lo. Não me bastava saber que por trás de tudo havia a força de um amor. Eu tinha de experimentar aquele amor.

Esse, a meu ver, é o papel do romance, essa é sua força. Por meio do romance, vivemos a vida dos outros. Sentimos. Identificamos ali nossas necessidades, nossos medos, nossos sentimentos. O romance não traz respostas. Traz algo de experiência vivida, nos faz sentir. E sentir, mais do que saber, é o que nos dá força para mudar de vida.

Um romance é transformador quando exerce esse efeito sobre nós. Eu precisava de Amor e Tempestade para ganhar força para a vida. Recorri a vovô para repetir a sua façanha. Hoje tenho meus demônios guardados numa garrafa.

Graças a vovô, compreendo mais a força sobre-humana do coração. Quem viajar neste romance, certamente entrará, como eu fiz, pelos sentimentos mais profundos: uma aventura tão emocionante e inacreditável que às vezes eu mesmo duvido que tenha tanto de real.



 

 

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