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21/3/2009

* Saudades do comunismo

Nos dia 11 de setembro de 2.001, eu perambulei o dia inteiro pelas ruas de Istambul, nas alamedas entre a Aya Sofia e a Mesquita Azul, envolvido pelo sol dourado onde, ainda durante o dia, despontara no céu a lua sarracena.

Conheci as cisternas de Justiniano, o poço que o imperador bizantino fez, sustentado por colunas romanas, como um templo subterrãneo, para abastecer a capital do mundo em seu tempo. Depois, voltei ao hotel para tomar conhecimento das notícias que, já no seu início, mudaram o século.

Estava hospedado no hotel Four Seasons, uma antiga cadeia política transformada em hotel de luxo, com banheiros de mármore decorados com tapetes persas e um restaurante cinco estrelas no pátio central onde no passado presos políticos esquálidos tomavam um pouco de sol em pijamas listrados.

Ao chegar, os funcionários se mostravam atormentados. “O senhor não sabe?” Então me contaram dos aviões comerciais tomados pelos terroristas islâmicos que, em sua missão kamikase, tinham derrubado as torees gêmeas em Wall Street.

Passei a noite grudado à televisão, estareecido diante daquelas cenas. No dia 11 de setembro de 2000, exatamente um ano antes, eu havia almoçado com publicitários brasileiros no Windows of The World, o restaurante do World Trade center, no último dos seus mais de cem andares - um ponto lá no céu. Era dificil acreditar que aquilo tudo não mais existia: os prédios, o restuarantes, possivelmente o gerente e os garçons.

Mais: a que ponto chegara o barbarismo, a insanidade, o radicalismo. Como um país podia despertar tanto ódio; como o ódio adquirira aspecto tão maligno; como o conjunto da obra mostrava o quão errado andava o mundo e a necessidade radical de mudar.

Na manhã do dia 12 de Setembro, ao meio-dia, quando saí para fazer o check out do hotel, o balcão estava tromado por dezenas de americanos que queriam sair todos do hotel ao mesmo tempo. Na porta do Four Seasons, havia uma fila de táxias para apanhar os passageiros que dobrava o quarteirão. Quando cheguei ao aeroporto, com meu bilhete para Roma, vi americanos correndo os guichês em desespero, procurando passagem para qualquer lugar do mundo que fosse, desde que saíssem da Turquia, um país pacifíco, mas eminentemente islâmico, o que na hora lhes parecia risco de vida.

Diante daquela gente varejando o aeroporto de Istambul, pensei que aquele seria o retrato de novos tempos, feitos de ódio para os pobres e medo para os ricos, numa escala como nunca havíamos visto no mundo. E foi o que aconteceu.

Em vez de um tempo de reconciliação, de busca pela solução de problemas, veio um tempo de retaliação. Os americanos invadiram o Afeganistão, depois o Iraque. Milhares de mortos se somaram aos anteriores. Leis internacionais e princípios humanitários foram atropelados da forma mais dantesca.

O país dos direitos humanos abriu em Guantânamo um campo de concentração para prender e torturar inimigos. A pobreza do oriente Médio, geradora da revolta que levao radicalismo político e religioso, misturados numa coisa só, aumentou ainda mais. Pior: espalhou ainda mais o antiamericanismo e um tipo de ódio do pobre contra o rico que se tornou uma marca capaz de lançar uma nuvem negra sobre o futuro.

A crise econômica dos Estados Unidos, provocada pelo materialismo desenfreado, que não respeitou os limites do bom senso, num consumismo sem base na realidade, nos lembra os perigos do capitalismo sem contestação. E da falta fazem os ideais humanitários e de igualdade entre pessoas e povos.

Oito anos depois da queda das torres gêmeas, olhamos para o mundo como está, e posso dizer, logo eu, que sempre fui contra os fanatismos de toda ordem, fossem os religiosos, fossem os políticos, que nos falta hoje algo como o comunismo.

Não o comunismo da União soviética, mas a alternativa ao mundo que está aí. Havia um tempo em que capitalismo democrático tinha oposição. Ou, pelo menos, alguma coisa a lembrá-lo de que ele não é perfeito, ou a lembrá-lo de que precisa melhorar. O comunismo, antigamente,me ra essa alternativa. Hoje, não há alternativa. E o fato é que o capitalismo democrático, sob a liderança americana, não resolveu todos os problemas do mundo.

Hoje, o que se vê é uma imensa massa de pobreza crescente no planeta abandonado pela eficácia de ação e pelos ideais. Nos rincões do Brasil pobre em meio à abundância, na Índia, na China, na Rússia esfrangalhada pela experiência soviética, na África, no Oriente Médio, onde o fanatismo substituiu o pão.

O capitalismo democrático construiu nos Estados Unidos uma sociedade mais rica, mas de um materialismo extremo, que gerou um outro monstro, feito de frieza e ganância que os levaram também à ruína. Os americanos têm sorte pela cultura objetiva, pragmática, de espírito coletivo, nacionalista. Buscam resultados coletivamente, são solidários e resolvedores de problemas. Mas o individualismo exacerbado, o consumismo egoísta e a incapacidade de ceder um pouco do que têm para que o benefício de todos trouxeram de volta o rancor que depois da segunda Guerra Mundial já tinha lhes valido a fama do “imperialismo”.

É preciso saber como erradicar a pobreza, como devolver valor ao indivíduo, como levar ao resto da humanidade um sistema que lhe proporcione dignidade. Faz falta o comunismo. Não o comunismo dos gulags, do Politburo, da ilha absolutista de Fidel, mas o comunismo como princípio idealista, defensor do humanitarismo, contraponto da selvageria descontrolada do capitalismo. O comunismo como um lembrete de que o capital, deixado ao bel prazer, se torna um criminoso. Como um esforço consciente para tornar os indivíduos social, política e economicamente mais iguais, de uma forma que se reflita na vida material e se traduza no equilíbrio social e em pacífica civilidade.

Até o mais radical americano deveria saber que não será possível ser rico num planeta pobre. Quem são os culpados? No Brasil, são os ricos que se trancam em casa, atrás de muros eletrificados, que contratam seguranças particulares e fogem dos impostos que trariam mais segurança em benefício público. São culpados os governantes espoliadores que se locupletam enquanto desmoralizam o Estado, incapaz de cumprir suas obrigações mínimas nas áreas da segurança, da saúde, da educação e do bem estar social.

A sociedade já sabe que não há riqueza ao lado das favelas, que se transformadas em um mundo próprio, com suas próprias leis, seus próprios ricos, e que aos poucos vai invadindo o mundo organizado. Dessa maneira, corremos o risco de transformar o mundo numa enorme periferia.

Os culpados por essa situação são os mesmos que pdoerão mudá-la, quando a realidade se tornar insuportável. Já é, inclusive, hora. É rpeciso fazer cair as barreiras que podem levar a uma humanidade melhor. A riqueza não precisará ser defendida, pois o vizinho cobiçará menos o que é teu. Não será nunca um mundo perfeito, mas ele será construído a partir de um novo modelo. Não terá o nome de comunismo, mas terá o ideal da sociedade mais justa.

Os ideais sempre andaram na frente do homem. São esses ideais o comunismo do futuro, que alguns homens terão de levar adiante,a cima das diferenças, das religiões e dos interesses mesquinhos.

 

 

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