Certa vez, Gabriel Garcia Marquez descreveu o período de sua vida em que escreveu Cem Anos de Solidão como um longo e extenuante exílio, o que provavelmente lhe inspirou o título. Praticamente seu único contato com o mundo exterior era a esposa, que o sustentava financeiramente e lhe trazia “café, jornais e cigarros”. É como uma longa ausência, da qual a gente retorna com cara de náufrago.
Escrever um romance de fôlego exige as qualidades de um eremita: paciência, tenacidade e, acima de tudo, a capacidade de viver em um longo isolamento, suficiente para deixar outros seres humanos loucos de pedra. Além de grande desgaste mental, implica num esforço físico do mesmo tamanho. As horas de trabalho transcorrem em permanente ansiedade, própria da tarefa de escrever. O sedentarismo enguiça as engrenagens e ouvimos os ossos rangerem.
Acabo de escrever Amor e Tempestade, um romance que consumiu três anos de trabalho, a maior parte das minhas economias e algo do meu prestígio. Começa dentro de casa. Nesse ofício, a gente aos poucos vira parte da mobília: as pessoas entram e saem, primeiro sem serem notadas, e depois sem nos notar; a empregada vai aspirando o pó monotonamente ao redor dos pés enraizados; quando aparece, a sogra cutuca, sem ver nenhum resultado ou sentido naquela reclusão interminável, que casa não é trabalho.
A queda de prestígio prossegue nas poucas vezes em que saímos de casa. Quando encontramos aguém conhecido, e que geralmente não vemos há muito tempo, sempre surge aquela pergunta: “o que você está fazendo?” Como se ninguém mais soubesse realmente o que a gente faz. Escrever um romance longo é como construir uma pirâmide invisível: leva um tempo enorme, custa um esforço enorme, com a diferença de que ninguém vai enxergando o resultado.
Esse efeito vai fazendo com que no processo vá se perdendo mesmo o apoio e a companhia das pessoas queridas. Por mais amor que exista, ninguém está disposto a ler pela terceira vez aquele mesmo trecho que foi refeito e que nos atormenta a alma e tira o sono. Como resultado, vamos sendo abandonados no processo.
Claro que eu não fiquei todo os tempo desses três anos escrevendo. Houve intervalos de descanso e um período em que o livro ficou dormindo, enquanto eu descansava, para depois revisá-lo de cabeça fresca. Escrevi outras coisas, especialmente reportagens para a imprensa, um blog, rascunhos para obras futuras. Porém, todo o tempo, minha atenção estava concentrada numa única coisa: o livro.
Não fosse por essa obsessão, ele nunca acabaria. Mesmo quando descansamos, comemos ou dormimos, ali fica de alguma forma o nosso inconsciente, trabalhando. É por isso que, quando retomamos o trabalho, é como se não o tivéssemos deixado. Creio, inclusive, que nunca o deixamos, até realmente terminar.
No final, quando colocamos o pingo atrás da última palavra, depois de atravessar a experiência de todos os personagens, triturados por uma jornada imaginária, mas de grande efeito emocional, a sensação é de que acabamos aquilo contra e apesar de tudo e de todos. É como atravessar o Atlântico, sozinho - e a nado.
Esta tarde, para comemorar que a obra está indo para o prelo e se apresenta nas livrarias em meados de abril, saí para me entregar às mãos da Adriana. É uma nissei que trabalha num spa urbano, aqui ao lado de casa. Tem ofurô, shiatsu, massagem relaxante. Deito na mesa, deixo ela me esticar como um boneco de pano, enquanto sinto que a vida ainda é algo material.
Contei a ela que o arquivo onde estão os originais de Amor e Tempestade tem exatamente 866.239 caracteres, o que corresponde, cada um deles, a um toque dos dedos sobre o teclado. Como muito do texto é corrigido, calculo que um romance desse calibre implique em pelo menos 1 milhão de operações repetitivas. Adriana apalpa o resultado.
O desgaste físico de um longo romance é terrível. Durante certo período, quando eu ainda morava em Nova York, tinha tanta dor nas costas de ficar sentado que passei mais de um mês escrevendo em pé, com o lap top apoiado numa prateleira da estante de livros. Fui salvo pelo Pilates, que me ajudou a fortalecer os músculos da barriga e segurar a coluna, além de relaxar.
Hoje penso na razão de todo esse esforço, que me custou muito da convivência de pessoas queridas e de anos importantes para viver. Quem compra um livro numa prateleira, infinitesimal parte de um acervo que se conta aos milhões de volumes, nem faz idéia de quanto um único daqueles pode custar ao autor.
Tolstói disse que para se escrever um bom livro é preciso mergulhar a pena em sangue. Eu diria outra coisa: os livros são feitos de sangue, muito mais do que de idéias. E, se empenhamos a vida neles com tamanha fúria, é porque sabemos que lá ficará o nosso sangue, isto é, o melhor de nós.
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