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31/3/2009

* Dinheiro é tempo

Segundo o ditado popular, tempo é dinheiro, mas o contrário ainda é mais verdadeiro. Dinheiro é tempo.

Quem não precisa se preocupar em obter dinheiro para suas necessidades básicas – não é, portanto, escravo do trabalho – tem tempo para as outras coisas da vida. Viajar, praticar a benemerência, dedicar-se a causas coletivas, à arte. Há muitas coisas que a maioria das pessoas não pode realizar por falta de dinheiro. Ou tempo.

Esse é um dilema essencial na vida do escritor. Escrever é uma atividade que toma muito tempo. E, durante esse tempo, o investimento da vida em uma obra, não ganhamos nada, a menos que esse tempo seja dividido com uma outra atividade rentável, o que em geral prejudica ambas as tarefas.

Escrever um livro pode levar um ano, dois ou mais. Entre começar a escrever e a obra ser publicada, vai um tmepo enorme. Por essa razão, um autor muito ativo lança no máximo um romance a cada dois anos.

Enquanto não ganhamos, é preciso sobreviver. Muita gente acredita que sou uma espécie de milionário, porque sempre arranjei o dinheiro para ter tempo e a liberdade de escrever. A verdade é que não é fácil. Sempre tive de lutar muito para criar esse tempo de escrever. O escritor precisa trabalhar pouco e ganhar muito para, na literatura, poder trabalhar muito e ganhar pouco.

Na prática, é preciso financiar o romance, de modo a sobreviver financeiramente durante sua produção. Não existe linha de crédito bancário para essas coisas. É necessário ter outra fonte de renda.

Há gente que vive com dinheiro dos livros didáticos e paradidáticos, um mercado onde o governo é o principal cliente, comprando milhões de livros. Há gente que sobrevive com livros de auto-ajuda, o que também pode dar um bom dinheiro. Romances... Bem, é a escolha mais utópica que se pode fazer, embora romancistas não queiram trocá-la por nada. Mesmo quem já tem obras lançadas não depende exclusivamente delas, pois o ciclo de vida de um romance é cada vez mais curto – as vendas sobem, se estabilizam e caem cada vez mais rápido.

Essa é a principal razão pela qual existem poucos autores que continuam a fazer literatura como uma atividade permanente. Ainda mais no Brasil, onde o mercado para a literatura é ainda menor que em outros países, e cujos autores, a partir da plataforma pouco expressiva de leitores em nosso país, não conseguem resultados capazes de despertar o interesse do mercado exterior. Poucos ficaram ricos com a literatura, mesmo na sua fase mais profissionalizada. No Brasil, a exceção é Paulo Coelho, que escreve ficção, mas do gênero auto-ajuda.

Mesmo Jorge Amado, um romancista brasileiro que obteve grande projeção internacional, muito beneficiado por suas relações com os comunistas do mundo inteiro, não era um homem rico. Sua casa em Salvador e a mansarda em Paris foram adquiridos com a venda de direitos autorais de Gabriela, Cravo e Canela para a TV e depois o cinema. Era convidado para fazer viagens em palestras e encontros, tudo de graça, e convivia com gente da elite. Ele vivia bem porque não precisava de mais do que isso. Não era rico, era um pobre de luxo.

Historicamente, as artes nunca foram a atividade principal dos artistas. No passado recente, houve um processo de profissionalização das artes. Músicos ganhavam dinheiro – e muito - com a música. Pintores ganhavam com seus quadros. Escritores ganhavam mais com livros. Porém, o surgimento de novas mídias está recolocando as coisas no lugar de sempre.
Hoje, as músicas podem ser copiadas de graça na internet e os direitos autorais se tornaram algo incontrolável - uma fonte de renda perdida. Cada vez se compra menos CDs. Os livros estão indo pelo mesmo caminho. Logo teremos o livro digital, e adeus.

Se quiser ganhar dinheiro com música, o artista agora tem de fazer shows – é indispensável sua presença. A música gravada passou a ser apenas um instrumento de marketing, isto é, de divulgação de sua obra. Para escritores, cujo trabalho não tem o mesmo apelo popular – nenhum escritor lota um ginásio de gente que paga ingresso para vê-lo -, não há esse tipo de saída.

No passado, artistas de modo geral dependiam de outro emprego ou de um mecenas – alguém de posses que, para refinar-se ou perenizar sua imagem, encomendava uma obra para sua casa, pedia que lhe pintassem o retrato, ou lhe escrevessem um livro. O artista se aproximava de empresários ou poderosos entendedores de que o dinheiro e o poder não compram a educação, nem a eternidade.

Da Vinci era sustentado pelos Medici. Michelangelo, que era arquiteto, trabalhou para os ricos de Florença e o Papa, inclusive na obra da basílica do Vaticano. Rembrandt fez belos retratos de pessoas que, sem o seu trabalho, teriam ficado desconhecidas. E ganhava dinheiro com isto para produzir suas próprias telas.

É de certa forma o que também fiz nos últimos anos, escrevendo livros de memórias de homens de negócios. Os livros às vezes não dão tanto dinheiro, mas bons livros sempre dão prestígio e, com o prestígio, ganha-se dinheiro com aqueles que têm recursos para comprar ou financiar o talento.

Outra opção é ter um emprego correlato, como o jornalismo. Muitos escritores vivem modestamente, escrevendo para revistas ou jornais, ou se sustentam com uma atividade paralela. Carlos Heitor Coni passou a vida nas organizações Bloch. Ignácio Loyola trabalha na revista Vogue. Sempre foi assim. O poeta Carlos Drummond de Andrade foi funcionário público. O romancista Guimarães Rosa era médico e diplomata. Érico Verissimo trabalhou na Editora Globo. Monteiro Lobato foi ele mesmo editor, e dos mais importantes.

Hoje, ninguém conhece Drummond por seu trabalho no funcionalismo, ou as qualidades de Rosa como médico, nem lembramos de Veríssimo por seu emprego. Poucos sabem que Lobato foi um dos fundadores da indústria editorial no Brasil. Eles tiveram, porém, que sobreviver, sustentar a família e ainda escrever a obra que se tornou importante para o país. Tudo indica que as coisas continuarão iguais.

O que fez esses homens diferentes dos outros, inclusive daqueles que desejavam escrever, mas nunca se desvencilharam de outras ocupações? Enquanto uns sucumbem ao trabalho e deixam as artes de lado, outros não as abandonam, por uma simples razão: a necessidade interior. Um romancista não se importa com as agruras. Vai em frente de qualquer jeito. Por isso, para ser um escritor, o principal não é o talento. É essa obsessão que alguns confundem com tenacidade. A persistência, na verdade, é um mero instrumento do obsessivo para atingir seus objetivos.

O escritor trabalha muito, mesmo quando não ganha nada. É uma vocação sacrificada. A arte é assim. Muitas vezes penso nos quadros de Van Gogh, que em vida vendeu uma única obra, para o irmão Theo, e morreu na mais triste das misérias – hoje, seus quadros são leiloados por centenas de milhões de dólares.

O mesmo vale para a literatura. Scott Fitzgerald vendeu, em vida, 27.000 exemplares de O Grande Gatsby. Morreu pobre. Só depois de sua morte, quando o livro virou filme, ele se tornou mais conhecido e foram vendidas milhões de cópias de sua obra magna – hoje, autor e obra são considerados clássicos da literatura americana. Há muitos outros exemplos assim. A vida do artista muitas vezes é uma existência miserável para servir a uma glória indesfrutável.

Tenho rascunhados mais quatro livros, que desejo muito completar, mas terei de fazê-lo devagar. Depois de quatro anos de investimento na redação de Amor e Tempestade, devo voltar aos negócios. Preciso novamente trabalhar pouco e ganhar muito para poder trabalhar muito e ganhar pouco.

Claro que o público leitor ajuda, e muito, o escritor - não apenas financeiramente, como na condição de autor, pois quem não vende muitos livros nem sequer continua a ser publicado. Eu tenho sido afortunado por contar com o apoio de muitos leitores, gente que me trouxe até o quinto livro de ficção para adultos. É fundamental hoje a divulgação boca a boca, em que um leitor recomenda o livro a parentes e amigos. Mais que sobreviver, isso nos permite manter a fé de que todo o sacrifício vale a pena.

 

 

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