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9/4/2009

* Uma luta que vale a pena

Fui assistir a Gran Torino, de Clint Eastwood, e Entre os Muros da Escola, ganhador da última palma de Ouro em Cannes. Dois filmes muito diferentes, mas que possuem um tema em comum: como lidar com a atual geração jovem, que despreza a disciplina, e os problemas da educação contemporânea.

Em Gran Torino, Clint Eastwood é funcionário aposentado da Ford. O carro vintage que dá nome ao filme simboliza os velhos tempos em que as pessoas respeitavam as outras.

Ele grunhe com desprezo toda vez que vê os sintomas da degeneração do mundo: o desrespeito, a deselegância e a decadência da juventude e do país, a ponto de sua vizinhança ser tomada por estrangeiros. Descobre, porém, que o comportamento desaparecido e que ele tanto preza pode ser resgatado justamente naquela gente diferente que ele antes desdenhava.

Em Entre os Muros da Escola, um professor de francês tem de lidar com os alunos de hoje em dia, respondões, impermeáveis à autoridade, divididos entre raças e crenças díspares.

É um exercício diário exasperante de trazer para o rebanho um monte de ovelhas desinteressadas que nos dá a sensação de que o mundo está perdido, ainda mais porque sabemos que o jovem real é bem o retratado ali.

A educação hoje é vítima da pobreza, do grande número de alunos, que não podem ser alcançados pelo Estado, e pela educação dos pais, que já não é das melhores. A comunicação instantânea ajuda a criar um novo tipo de jovem alienado: aquele que acha saber tudo, porque tem acesso é informação, e quer discutir com o professor em pé de igualdade, e perdeu a noção de respeito.

A sensação de impotência do adulto é o reconhecimento de que sua experiência de vida e seus valores já não têm importância para aqueles de quem gosta e de quem deveria cuidar. Mesmo a imposição da autoridade pela força já não é uma saída.

Apesar de saberem muito e se acharem indivíduos equiparáveis ao adulto, ou até melhores do que o adulto, os jovens hoje não possuem muita liberdade nem o correspondente senso de responsabilidade. São um ponto de interrogação, o que preocupa a todos, a começar pelos pais.

Em Entre os Muros da Escola, o final sugere que não há razão para o pessimismo. A batalha diária do professor encontra algum lugar de passagem e não é uma luta perdida. Em Gran Torino, a idéia de que podemos salvar a parte boa do rebanho, mesmo com o sacrifício da vida, é também a de que esse esforço vale a pena.

Todas as gerações têm problemas com as anteriores. Para nossos pais, nós já representávamos alguma decadência de comportamento em relação aos nossos avós. A liberdade e a tolerância são valores que fizeram a juventude ganhar.

Hoje não se justifica mais os pais baterem nos filhos em nome da sua educação ou da disciplina, da mesma forma que os professores têm de encontrar outros meios além da punição ou mesmo do simples convencimento para fazer com que os alunos se interessem pelo aprendizado.

Com a internet, os alunos se tornaram mais refratários à escola. Acostumados à informação instantânea, estar em sala de aula se torna uma atividade demorada, aborrecida e aparentemente inútil. Lá, o estudante obtém menos informação do que pesquisando pelo computador.

A escola, porém, se tornou um espaço de convivência e de aprendizado do sentido de coletividade. Isso é cada vez mais importante numa sociedade em que os meios tecnológicos incentivam e levam ao individualismo e ao desrespeito ao próximo.

As crianças de maneira geral hoje aprendem mais e têm muito mais percepção do que já tivemos. Começam o aprendizado mais cedo e provavelmente terão uma vida mais longa, o que se traduzirá também em mais experiência e conhecimento. É preciso que a educação, porém, finque nelas também as raízes do espírito coletivo, da solidariedade e do respeito ao próximo.

Se à primeira vista estamos perdendo essa guerra, é em parte porque as coisas são assim mesmo. Quando as crianças crescem e são obrigadas a ganhar a vida por conta própria, percebem enfim que não podem tudo sozinhas e que os pais de alguma forma tinham razão. A vida também educa. Mas não podemos nos eximir de toda a culpa.

Os pais que ensinam e defendem a liberdade devem ensinar e defender também suas implicações, a parte correpondente da responsabilidade e sua importância. Aí teremos, sim, um mundo melhor, com crianças mais inteligentes, informadas, livres e ao mesmo tempo conscientes de sua responsabilidade.

 

 

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