Está chegando às livrarias meu novo romance, Amor e Tempestade, publicado pela editora Objetiva com o selo Suma Editorial. O lançamento oficial será diz 28 de abril, na Livraria Saraiva do Shopping Pátio Higienópolis, a partir das 19:00. É um momento de alegria para mim. Um livro, não importa o que aconteça, é uma grande realização. Ainda mais um livro como este.
Ando sorrindo por dentro, porque sinto que consegui o que queria. Amor e Tempestade é um livro raro, do tipo que não sai todo dia nas livrarias. Há muito alguém não escreve algo assim na literatura brasileira. E acredito que levará muito tempo até produzirem algo da mesma envergadura. Não apenas pela história excepcional e o fato de que nunca me senti tão bem escrevendo.
A razão é o livro mesmo: aquilo que ele exige de suor e lágrimas para ser feito. Amor e Tempestade é um tipo de obra que exige um grande tour de force, não apenas mental e afetivo como físico. É coisa que hoje em dia pouca gente pode tentar produzir.
Foi com prazer que ouvi as primeiras palavras de minha editora, Isa Pessoa, quando me ligou após ler a obra. Isa tem uma qualidade essencial: ela lê o que publica, ou boa parte do que publica. Um bom editor precisa, antes de mais nada, gostar de seus autores. Se o editor não acredita no que lança, ninguém mais tem por quê acreditar. “É difícil ver hoje um romancista de verdade”, disse ela. “A maioria dos escritores de ficção hoje escreve apenas livros que são grandes contos.”
Isa sabe bem a diferença. Um “romance de verdade”, ou simplesmente o romance, gênero que ela tem em mente, algo que vale esse nome, é aquele livro com que ficamos um bom tempo. Vivemos sua história. Ansiamos para que a narrativa acabe, ao mesmo tempo em que sofremos porque ela está acabando – queremos saber o que acontece, mas lamentamos que a leitura não vá durar para sempre. Um conto é como um curta, um romance é um filme longa-metragem. Um vasto campo de emoções que nos transporta ao fundo de nós mesmos.
Ao sair de um livro desses, parece que vivemos outras vidas, muitas vidas, longas vidas. Temos a sensação de ter experimentado grandes alegrias, marguras, emoções. De ter cruzado o oceano, ou escalado uma montanha. É algo que nos impressiona fundo.
Um grande livro não precisa ser necessariamente grande. Um romance não se mede pelo tamanho. Há obras-primas no minimalismo, como A Metamorfose, de Kafka, que pode ser lido de uma sentada. Eu também escrevi livros mais concisos. Campo de Estrelas, de 2005, e o livro de contos A Quinta Estação, de 2003, são obras menores em tamanho, mas não menos fortes, tanto em termos da mensagem que procuram passar como da concentração de sentimentos importantes ali empregados.
Porém, é com espanto que olho para Amor e Tempestade e, depois de Filhos da Terra e O Homem Que Falava com Deus, ver que produzi uma terceira obra de tamanho fôlego. Algo que jurara não fazer. Algo que muitos romancistas fazem uma única vez na vida. Mario Vargas Llosa, por exemplo, fez muitos bons romances, mas apenas um Guerra do Fim do Mundo. Garcia Marquez só escreveu ótimos romances, mas apenas um 100 Anos de Solidão.
Romances grandes e romancistas de fôlego eram mais comuns no passado, porque faziam também o papel que é hoje o das novelas – longos folhetins que fazem pensar e procuram entreter até o seu final. São assim, por exemplo, os romances de Alexandre Dumas, tanto o de Os Três Mosqueteiros quanto de O Conde de Montecristo. São assim Ana Karenina e Guerra e Paz, de Tolstói. Obras volumosas, mas que lemos com a rapidez e a delícia de quem vai comendo um bolo de chocolate - quando percebemos, já comemos o bolo inteiro.
São romances de fôlego também outros romances célebres da era clássica: Madame Bovary, de Flaubert; Dom Quixote, de Cervantes; As Vinhas da Ira, de Steinbeck. No Brasil, onde o romance é uma arte recente, poucos entraram nessa jornada épica do escritor dentro de um grande romance. Um exemplo é Jorge Amado, que fez pequenas obras primas, como Quincas Berro D´Água, e vastos romances, como Tieta do Agreste; Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa, é uma empreitada monumental; cito ainda O Tempo e O Vento, o grande roman fleuve de Erico Veríssimo.
Pode parecer extemporâneo escrever romances grandes na era contemporânea, em que as pessoas parecem ter pouco tempo para a leitura. Porém, há muitos escritores que rumam contra esse engano. Sucessos recentes, como A Sombra do Vento, de Zafon, Os Pilares da Terra, de Follet, ou mesmo O Código da Vinci, de Dan Brown, são exemplos de um enorme sucesso comercial de obras com mais de 350 páginas. O grande romance não morreu - ao contrário, continua vivíssimo.
Amor e Tempestade é meu quinto livro de ficção para adultos em dez anos – um a cada dois anos, em média. É bastante, se considerarmos que não fiz apenas isso na vida - produzi outras obras de não ficção e tenho minha atividade como jornalista. Mais extraordinário é pensar que, desses cinco romances, três são feitos com essa mesma ambição de competir até com as obras de autores do passado. É isso o que eu desejo: não escrever livros apenas para as prateleiras, destinados ao esquecimento, passaporte para a bacia das almas, mas romances que possam ficar.
Talvez eu mesmo leve muito tempo para escrever outro romance do calibre de Amor e Tempestade. Tenho a tentação de dizer, como disse depois de O Homem Que Falava com Deus, que jamais escreverei de novo algo tão grande (nem talvez tão bom). Começar um romance dá medo, ainda mais dessa dimensão, porque há um certo mistério nesse tipo de livro; ele sempre parece um obra além do nosso alcance, da nossa capacidade, das nossas possibilidades. E no entanto, agora vejo que Amor e Tempestade está aí, materializado. Os milagres se realizam. Quem ler entenderá bem o que estou dizendo. |