Este mês, a revista Bravo! traz uma instigante reportagem de capa sobre Caetano Veloso e Chico Buarque. Em comum, há o fato de que ambos estão lançando obras novas – Caetano um CD, Chico um romance.
O editor de Bravo!, João Gabriel de Lima, escreve um interessante ensaio sobre a trajetória desses dois artistas que se projetaram para o sucesso na década de 1960 e como eles buscam sobreviver às mudanças do país e da cultura.
Entre os dois, Caetano com certeza foi aquele que melhor se adaptou à mudança dos tempos, não apenas pela qualidade de sua poesia e música, mas de temperamento. Desde o tempo dos Mutantes e da Tropicália, quando fez sucesso com músicas como Sem Lenço e Sem Documento, ele sempre foi um camaleão, um artista em busca de novidades, capaz de se adaptar, pelo fato de ser um experimentador.
Para ele, tudo o que é novidade é capaz de estimular a mente criativa e a veia artística. Por essa razão, aprendeu a lidar com os meios de comunicação contemporâneos, como a internet (promoveu o CD por meio de um blog), criou um CD que traduz o samba com instrumentos mais vivos na música e aprocxima sua linguagem dos mais jovens. Que por sinal hoje o conhecem pouco, assim como a Chico (falha talvez dos pais, que ouvem menos Chico e Caetano, razão pela qual meu João Gabriel, de 13 anos, mal sabe quem são).
Chico, ao contrário, resolveu mudar de ramo, talvez por não querer comparar-se a si mesmo, ou receio de constatar que jamais fará sucesso como fez no passado. Dedica-se agora ao romance, que nele tem sempre algo de picaresco, como a maioria dos personagens de suas canções.
Em Bravo!, ele explica que considera a música uma obra de “juventude”, enquanto o romance seria uma obra de “maturidade”. Isto pode valer para ele, embora não valha para Caetano, cuja luta é continuar fazendo o que sempre fez, sem medo de ser comparado a si mesmo ou seu passado.
Mesmo assim, Chico continua a ocupar o seu lugar, respeitado como o grande artista da metáfora, das letras que expressam de maneira profunda desde os sentimentos mais simples ao mais sofisticados. Como romancista, não tem o brilho do compositor. Porém, a força da história ainda concentra nele o interesse dos mais velhos e faz com que cada passo seu, para aflição de um tímido congênito, ainda atraia sempre as atenções.
Tanto Chico quanto Caetano são proezas, não apenas do gênio como de uma época que ainda resiste. Os anos 1960, de grandes mudanças de comportamento e bandeiras políticas, foram férteis para a cultura brasielira e seus ídolos continuam aí – senhores elegantes, mas vivos e ativos, enquanto gerações posteriores da música, como a de Cazuza e Renato Russo, perdeu-se num final trágico.
Eles souberam, sim, adaptar-se. Os anos 1960 que lhes serviu de celeiro foi um tempo onde o sucesso era relativamente mais fácil. Podia-se chegar ao sucesso levantando uma bandeira simples – a democracia, por exemplo, e a luta pela liberdade, ou contra a ditadura.
O Brasil tinha menos que a metade da população de hoje e os brasileiros, em média, eram mais bem educados e interessados em cultura. Para completar, o Brasil era relativamente fechado para o consumo da arte que vinha de fora. Ainda cultivava uma certa reserva de mercado, derrubada na música e na literatura mais tarde, como em todas as outras áreas, pela cultura de massa.
O talento é insubstituível, mas não basta para um artista atravessar gerações. Chico e Caetano sobreviveram ao consumo de massa, onde sucumbiram tantos outros seus contemporâneos. Mantiveram-se vivos, e relativamente populares, mesmo quando o mundo onde prosperaram acabou. Hoje são senhores grisalhos, mas se mantém ativos e, cada qual de sua forma, prolíficos. Melhor ainda, continuam a ser produto de mercado.
O Brasil e o mundo estão muito diferentes da década de 1960, mas os fatores que levam à fertilidade criativa e ao sucesso ainda estão aí, para quem perceber e souber aproveitá-los. Essa é a grande lição de Chico e Caetano, dois artistas que não pararam no tempo.
Hoje ainda existem bandeiras políticas a serem levantadas, . É o caso da pobreza, um problema que ainda temos em comum com o Brasil da década de 1960. Da violência urbana. Da falta de perspectiva do jovem em melhorar de vida.
Um artista vivo é aquele que está ativo e organicamente ligado ao tempo em que vive, razão pela qual Chico e Caetano ainda não se transformaram em peças de museu. Sim, isso ainda vai acontecer. Mas não ainda, não agora. |