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23/4/2009

* O preço da eternidade

O doutor Virgílio Pereira Gonçalves Júnior, jovem esculápio que atende na UTI e no departamento de diálise do Hospital Albert Einstein, além do seu consultório, é também meu amigo. Como outras pessoas que encontrei pelo caminho, Virgo chegou-se a mim pelas discussões filosóficas. Ele, que vive salvando gente de todo tipo de morte, também tem seus dilemas existenciais. Num canto do seu apartamento, agora como peça decorativa, repousa ainda o cajado com o qual percorreu o Caminho de Santiago.

Fui visitá-lo, dessa vez como paciente. Uma vez por ano, faço um pequeno check up, para saber como andam as coisas. Virgo me mandou fazer uma bateria de exames, de um teste ergométrico à microscopia de tudo que o corpo humano pode produzir. Voltei ao consultório para ver os resultados e o veredicto.

Depois de três anos de trabalho num romance, que será lançado na Saraiva do Pátio Higienópolis na próxima terça, diz 28, está assim o meu organismo: cintura, 1 metro e três centímetros de circunferência; gordura no fígado, não exagerada, mas alarmante; 178 de colesterol. Três anos atrás, eu nem pensava em colesterol; media 83 centímetros na cintura; o fígado ainda aguentava muita chateação.

- E aí, o que vamos fazer a respeito?

Expliquei o que ele já sabe: detesto rotina de exercício, como qualquer rotina, embora isto seja uma aparente contradição: não há vida mais rotineira que a do escritor, resumida em escrever, escrever, escrever. Todas as vezes em que passei a me alimentar direito, cheguei a perder cinco quilos em um mês.

Aprendi a técnica com o Nuno Cobra, um dos mais famosos preparadores físicos do país, a quem entrevistei há alguns anos. Comer bem de manhã e no almoço, tomar um iogurte entre as refeições para não ficar com fome, jantar pouco, de preferência macarrão, carboidrato de digestão rápida, para ir deitar de barriga vazia.

- Ainda não parece suficiente – disse o Virgo.

Avancei na minha teoria. O que leva a gente a esse estado é o regime de trabalho. Parte integrante de escrever, a ansiedade é que faz a gente a comer mais. Somada ao sedentarismo da profissão, é uma desgraça para a saúde.

Prometi a ele que faria outras coisas. Terminado o romance em pue literalmente empenhei minha alma, voltaria a ter outras atividades. Pretendo escrever de agora em diante em regime light. E fazer outras coisas.

- O problema não é fazer dieta, mas mudar o estilo de vida – admiti.

- Isso parece melhor.

Por via das dúvidas, Virgo receitou um remédio para baixar o colesterol. E me deu receita para um novo exame de sangue daqui dois meses. Melhor assim.

Uma vez por mês, eu e Virgo nos juntamos a uma turma de confrades degustadores de vinho, outras de nossas afinidades, e que também não faz muito bem à taxa de colesterol. Penso tudo pode mudar, menos a confraria. Um dilema: como viver sem o que precisamos para viver?

- Ficar sem escrever é difícil – eu disse a Virgo, no abraço de despedida. – O preço da eternidade é a própria vida – completei.

Ele riu.

 

 

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