Arquivos 

 

  Nas Livrarias

Cinco contos de amor e um painel revelador da visão masculina sobre os relacionamentos em tempo de reconstrução.
Comprar

 

 

21/4/2009

* Corações expostos

- Ai, ai.

Sim, era verdade: Marília Gabriela, 40 anos de prática no jornalismo (“que horror”, diz ela, ao fazer essa conta), estava com medo de uma entrevista.

É verdade que não era uma entrevista qualquer. Primeiro, porque ela estaria do outro lado do balcão, não como entrevistadora, mas como entrevistada. Segundo, seria uma entrevista ao vivo diante da platéia do Autores e Ideias, que acontece uma vez por mês no auditório envidraçado da Livraria da Vila, no Shopping Cidade Jardim. Além das perguntas do moderador – eu –, as pessoas poderiam fazer suas próprias perguntas. Ao ver o salão abarrotado, com os 100 lugares completos, mais uma porção de gente em pé, ela titubeou, mas só por um instante.

- Vamos lá -, cutuquei. E ela foi.

Sentada elegantemente diante da platéia, Marília se impôs, primeiro graças ao traquejo profissional, depois com sua simpatia natural, quando ficou mais à vontade. Provocou o entrevistador (pobre de mim), respondeu a perguntas que envolvem o lançamento de seu livro e não fugiu das questões mais delicadas, nem mesmo as mais pessoais. Disse que escreveu Eu Que Amo Tanto da mesma forma que se interessa por todos os seus entrevistados, ou os personagens que faz no teatro ou em novelas – procura respostas para si mesma.

Apenas pelo tema escolhido por ela, Eu Que Amo Tanto já é bastante revelador. Coleção de relatos em primeira pessoa de mulheres que sofrem por amor a um ponto patológico, que as leva a perguntar o que há de errado com elas mesmas e sua vida, o livro indica por onde andam as especulações íntimas de Marília.

Ela recolheu seus depoimentos entre as integrantes do MADA, um grupo de mulheres que se encontram para discutir seus problemas da mesma forma que fazem os alcoólicos anônimos - vítimas de um vício que não conseguem controlar e que destrói suas vidas. Porém, não desistiram de lutar.

Cada relato é um quase-conto, lido com prazer, sempre com um enfoque um pouco diferente do anterior, e um elemento de drama reforçado pelas fotografias do português Jordi Burch, que soube captar em imagem a alma de cada texto.

Aos 60 anos, Marília admitiu identificar-se com a frase de uma entrevistada para o livro: “há algo de errado comigo, mas não sei bem o quê”. Separada do ator Reinaldo Gianecchini, de seu segundo marido, com quem teve dois filhos, e viúva do primeiro casamento, ela se diz uma questionadora permanente de relacionamentos e de si mesma. Inquieta, afirma que, se não estiver escrevendo ou fazendo alguma coisa nova, fica angustiada. É uma mulher bem resolvida e descobriu que, mesmo assim, ninguém é totalmente resolvido.

Ex-repórter do Jornal Nacional, do Fantástico, apresentadora do TV Mulher, ela se consagrou como a melhor entrevistadora do país em uma série de programas que mudaram de nome, mas não no essencial: Marília cara a cara com seus entrevistados. Jornalista de origem, ela usou o jornalismo cada vez mais para se interessar e se aprofundar no conhecimento das pessoas, com a sabedoria de entender que as respostas estão sempre nos outros – e, quando não há respostas, há pelo menos o consolo, o amparo mútuo, a compaixão.

Sua exploração do ser humano acabou encontrando outros canais, reflexo da inquietação que caracteriza os temperamentos artísticos – Marília canta bem e já fez três discos, Marília estrela peças de teatro, Marília interpreta personagens de novela.

Sobretudo, ela tem coragem de se expôr, como fazem os artistas, e como fez na série de relatos que, embora de outras pessoas, falam de sentimentos universais e ao mesmo tempo muito dela – a mulher que acha que amor não pode ser sofrer, num território onde não há linha separatória entre prazer e dor, felicidade e angústia, sucesso e fracasso, paz e perturbação emocional.

Em Eu que Amo Tanto, as doze mulheres de Marília têm extração social e atividades as mais diferentes – há uma psicóloga, uma manicure, uma médica, uma bombeira – mas possuem todas algo em comum: a navegação nesse mundo indefinido, exceto pela certeza de que sua incapacidade de lidar com a paixão aos poucos vai lhes destruindo a vida.

Pouco suspeitam de onde vem sua dependência doentia de alguém ou como superá-la.
Há pistas por toda parte, mas na realidade não há respostas: o que as mulheres de Marília encontram no relato de umas e outras é o alívio de saberem que não estão sozinhas no mundo e que existem aquelas capazes de, se não obter uma cura completa, ao menos melhorar.

Em literatura, se pode apanhar personagens reais e transformá-los em ficção, ou dar a personagens fictícios algo de personagens reais. Entre uns e outros, o autor acaba colocando muito de si mesmos, de suas próprias questões, resoluções e interpretações. Ao final, não sabemos mais exatamente o que é uma coisa ou outra, se o que está ali é ficção, realidade, os outros ou nós mesmos.

Acostumada a entrevistar pessoas famosas, que apesar da exposição pública muitas vezes são tão desconhecidas por nós quanto muitas vezes por elas próprias, Marília avança em território muito próximo da literatura, em que somos todos iguais, anônimos ou famosos, ricos e pobres, igualados na condição humana, nas alegrias e angústias de pontilham a existência em qualquer tempo e lugar.

Com seu trabalho de entrar nas pessoas, em busca de ajudar a si mesma, ela acaba se tornando um espelho de todas aquelas pessoas que, como Marília, descobriram que viemos a um mundo onde as perguntas – leia-se, a própria vida – são mais importantes que as respostas.

*
Fica o agradecimento a Marília pela gentileza de atender ao convite de Autores e Ideias e ao público que compareceu.

O próximo encontro, sempre na Livraria da Vila do Shopping Cidade Jardim às 19:30, será em 18 de Maio, com o jornalista e escritor Laurentino Gomes, autor do best seller “1808”.

 

 

Clic
Livros
Poemas
Biografia
Mural
Frases
Página Principal
Sua mensagem

Arquivos

Conheça também:



      Site by