Radicalização do velho e íntimo inconformismo do ser humano, a rebeldia é intolerada, talvez porque a maioria das pessoas tenda a querer controlar os outros, tanto quanto a si mesmas. No entanto, ela está em toda parte.
Seja na atitude do menino que se nega a arrumar a cama ou na queda da Bastilha, a rebeldia é por excelência uma reação individual ao controle, à previsibilidade, a toda ordem imposta que, se por um lado traz a paz, de outra traz a revolta contra a própria paz, conflito interno permanente de desejos opostos, nossa grande contradição.
A revolução é a soma das pequenas rebeldias; elas são necessárias, para que as grandes transformações tomem forma e passem do indivíduo para História, seja como resultado de uma manifestação individual ou catarse coletiva.
A dificuldade básica do mundo é que rebeldia e tranquilidade, ou a própria felicidade, entendida como um estado de realização plena que signfica o equilíbrio, o perfeito, onde nada mais precisa ser modificado, são opostos que não conviver muito bem.
A tranquilidade traduz uma vida estacionária, gerando insatisfação; a rebeldia traz a sensação de movimento; mas a mudança permanente, ou o germe da rebeldia instalado de forma latente, trazem a sensação de que jamais se terá paz. Na calmaria da ordem ou na roda viva rebelde, não há felicidade perfeita.
Esses são pensamentos que me vêm sempre que eu me lembro de vovô Guaracy. Falecido com 96 anos, ele parecia ser um bom exemplo do homem que obtivera a satisfação com a vida plana do cidadão comum. Já aposentado desde que o conheci, a imagem que dele guardei foi sempre a do homem sentado na poltrona, como uma espécie de esfinge.
Devotou a maior parte de sua vida à família, enraizada na casa operária, visitada por filhos e netos. Vivia numa ordem eprfeita e criara uma família eprfeita, o que se traduzia numa noção geral de felicidade que fez da nossa infância um tempo tranquilo, cercado de amor e segurança.
Vovô, porém, jamais falara do passado. Pois antes de casar-se tinha sido, espanto, um rebelde – e aventureiro. Fugira de casa, estudara para padre, entrara para o exército, andara o Brasil atrás da Coluna Prestes, dizia-se, por 9.000 quilômetros Brasil afora, a maior parte a pé. Mas nunca falava sobre o assunto, como se aquele pedaço de sua existência tivesse sido apagado no dia em que se casara com vovó. Era como se mantivesse engarrafados antigos demônios e receasse, graças às lembranças, dar mau exemplo – ou trazê-los de volta.
Cordial, calmo e aparentemente supérfluo, ele dominara o rebelde em si mesmo, graças a uma força interior só maior do que a própria rebeldia. Esteio da família, transformara-se numa rocha inamovível. Os filhos brigavam com as mulheres, um ou outro caía doente, o mundo parecia desmoronar à volta de todos, e ele estava sempre lá, impávido, imutável.
Era um alívio geral para as agruras da vida visitá-lo e ver que tudo continuava como sempre fôra: o carinho da família, a calma dominical, a figura compreensiva que parecia uma tábua segura diante das sucessivas catástrofes da vida.
Vovô sacrificara o rebelde dentro de si mesmo pela família, os filhos e nós, os netos. Como? Essa pergunta sempre me intrigou. Isto porque não tínhamos em comum apenas o nome. Havia aquele espírito inquieto. A velha insatisfação. A incapacidade de aceitar a ordem. Enfim, a mesma rebeldia.
E, no entanto, do antigo vulcão, eventualmente se via apenas um fio de fumaça. Era essa fortaleza que eu admirava: o herói dentro do homem comum. Alguém que descobrira para si o segredo da vida: dominara a rebeldia, controlando a si mesmo, e fundara sabe-se a que preço a felicidade, nem sei se para si, mas para todos nós. Acima de tudo, aceitara a passagem do tempo, sem rebelar-se contra ele, mas convivendo com ele. Dessa forma, envelhecera com dignidade.
Muitas vezes, discuti o assunto com meu pai. Gostaria de saber como ele via o exemplo de vovô. Papai sempre disse que não se deve controlar a rebeldia. Ao contrário, devemos conservá-la; é essa força o verdadeiro motor do homem, que nos faz mudar e nos mantém vivos. Meu pai sempre viveu por essa cartilha, rompendo com a vida quando ela o tolhia; encontrou momentos de paz e tranquilidade, mas sempre temporárias, porque apoiadas num equilíbrio instável; mantive minha sensação de que a vida, sem a têmpera do vovô, para gente como nós é uma sucessão de tempestades.
Vovô Guaracy foi o único realmente a dominar a tormenta, com a ajuda dos livros e dos sonhos. Não dominou o tempo, como todos os mortais, mas deixou aquele código: o silêncio discreto, a preocupação em não mudar o curso da vida, em manter o mundo imperturbável que ele criara. Depois de sua morte, nos faltou a sua fortaleza. Para resgatá-la, escrevi Amor e Tempestade, que recria sua história extraordinária, não como uma tentativa biográfica, mas o escapismo sonhador que tanto tem a ver com os anseios humanos e nosso permanete dilema entre fugir e ficar.
Amor e Tempestade, o romance que chega agora às livrarias, é uma mistura de gêneros - épico, picaresco, romanesco. A odisséia do personagem principal, recriação imaginária de meu avô, mistura-se ás aventuras e desventuras de sua época, o Brasil da Coluna Prestes, do tenentismo, da São Paulo em sua Belle Époque, do sertão de Lampião e outras figuras legendárias, como o Padre Cícero e o Marechal Rondon, transformados em personagens do romance.
Amor e Tempestade representa não apenas o melhor de meus esforços paraproduzir um romance de prender o fôlego, como traz os meus sentimentos mais caros e os caminhos pelos quais busquei minha felicidade. Como vovô, ainda luto para vencer a mim mesmo, superar o emdo, o desespero, a angústia, entre outros tantos fantasmas que fazem de nós caçadores nômades da felicidade. |