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Cinco contos de amor e um painel revelador da visão masculina sobre os relacionamentos em tempo de reconstrução.
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29/4/2009

* O amor entra em campo

No último final de semana, algo que vem acontecendo com frequência, tive que cuidar sozinho do meu filho de dois anos e meio de idade. Levei-o ao Museu do Futebol, no estádio do Pacaembu. Guinho chuta firme a bola, mas ainda não tem muita noção do jogo. Sabe apenas que o pai e o irmão torcem pelo “Palmelas”, time do qual ganhou uma camisa, cor amarelo marca-texto – tamanho P, que para ele fica quase como uma camisola.

No Museu, Guinho viu muitos gols históricos, passou tapando os ouvidos com as mãos pelas projeções estrondosas da torcida, divertiu-se curioso chutando as bolas virtuais desse museu ao mesmo tempo tão contemporâneo pela interatividade e tão melancólico, pelas lembranças que traz a todos que têm paixão por esse esporte.

O que ele mais gostou, no entanto, foi do estádio propriamente dito, que ele viu pela primeira vez, primeiro da altura do campo, depois do alto, na arquibancada. Fez questão de ficar algum tempo ali sentado, sozinho, como se estivesse assistindo a um jogo de verdade. Estranhou que um lugar tão grande estivesse tão vazio. Ao ver um rapaz ao lado, tomou-o como funcionário. E perguntou:

- Moço, cadê o “Palmelas”? O “Palmelas” está dormindo?

Para mim, a visita ao Pacaembu com meu filho pequeno lembrou que ali mesmo meu pai andou quando criança, levado pela mão por meu avô, pai dele, no tempo em que o Pacaembu ainda tinha sua velha Concha Acústica. Chegaram a assistir um jogo de Copa do Mundo, em 1950. Foi Argentina e Itália – partida da qual papai se lembra até hoje pelos milagres realizados pelo goleiro argentino Vaca.

Ali também meu pai me levou muitas vezes para assistir jogos inesquecíveis e que hoje fazem parte do museu da minha memória – lances do meu Museu do Futebol particular.

Como um Palmeiras e Juventus, começo da década de 1970, que acabou com vinte jogadores expulsos, depois de uma briga generalizada – nunca mais vi tamanha batalha campal.

Ou um Palmeiras e Santa Cruz, 2 a 1 para o Palmeiras, com gols de Toninho Guerreiro, quando um torcedor quis pular a cerca para as cadeiras numeradas. Enganchou e rasgou as calças nas lanças da grade, onde acabou pendurado de ponta cabeça somente pela cueca. Virou a atração do jogo até ser resgatado pela polícia e levado para o xadrez debaixo da gozação geral.

Lembro até de uma derrota – sim, uma derrota, um jogo difícil e amarrado que teria terminado num empate de titãs, não fosse um único lance. Um lance de gênio, no qual Pelé colocou Mazinho na cara do goleiro Leão: Santos 1, Palmeiras zero. Uma lição de como um talento pode fazer a diferença.

Nesse dia em que levei meu filho pela primeira vez a um estádio de futebol, mesmo sem nenhum jogo, confesso que escorreu uma lágrima por um canto do olho. Porque lembrou minha infância e a razão pela qual nós, homens, temos adoração por esse jogo. Não é apenas uma identificação com o esporte, uma afirmação de masculinidade, um aprendizado para a vitória e de como lidar com a derrota. É muito mais que isso; é uma ligação afetiva, familiar e de companheirismo que se confunde com o próprio elo formado por filhos e pais.

Prometi a Guinho que assim que ele ficar maiorzinho o levarei num jogo de verdade. Ainda vou a estádios de futebol com meu pai e João, primeiro filho de minha mulher, que virou também meu filho aos oito anos de idade, quando me casei. Na época, João torcia para o Corinthians. O Palmeiras disputava a série B do campeonato brasileiro, verdadeira vergonha para o palmeirense, tão orgulhoso, mas eu o levei a vários jogos. Queria mostrar o apoio incondicional e apaixonado da torcida ao time naquela dificuldade, um exemplo marcante de como se pode dar a volta por cima em uma situação vexatória com alegria e cabeça erguida.

A torcida do Palmeiras, a cada jogo, era um espetáculo: entre shows de fogos, bandeiras e papel picado, cantava e apoiava a equipe numa onda incansável e contagiante. Vimos até o jogo final, em que o Palmeiras se sagrou campeão e voltou à série A com uma vitória por 4 a 1 sobre o Botafogo, fecho de gala para uma campanha histórica.

Certo dia, João anunciou que se tornara palmeirense e eu agradeço ao futebol pelas oportunidades que ele nos traz – de aprender, ensinar e encontrar um meio para esse amor entre homens que não tem melhor maneira de se expressar.

 

 

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