Quando comecei a trabalhar na revista Veja, aos 21 anos de idade, depois de escrever uma coluna (o chamado pirulito) sobre um ônibus sueco que ajoelhava para a entrada dos passageiros, passei a uma segunda reportagem, muito mais complexa pelo tema (impostos) e o tamanho (duas páginas).
Comecei a escrever a reportagem na quinta-feira, com entrega prometida para sexta. Tinha tudo na cabeça, mas o nervosismo e a inexperiência me fizeram empacar já no primeiro parágrafo. Não sei quantas vezes escrevi e reescrevi aquilo. Cheguei em casa às duas da madrugada com um calhamaço de papel embaixo do braço. Lembro que joguei aquelas folhas rasuradas e perdidas sobre a cama, sentei e chorei.
Depois daquilo, tive várias vezes o que a gente costuma de chamar de “branco” - um bloqueio criativo, em geral psicológico, que surge justamente quando estamos escrevendo algo importante, quando há pressão do tempo ou temos algum outro problema que nos tira a concentração. Escrever é uma batalha invisível, que nos faz transpirar, nos mantém em um estado de elevada ansiedade por horas a fio e que produz diversos tipos de desgaste – cansaço mental, dores nas costas, compulsão pela comida e, eventualmente, certa inclinação pelo suicídio, graças ao “branco”.
Em mais de vinte anos de carreira como jornalista, e mais de dez como romancista, já encontrei gente com todo tipo de solução para o bloqueio da escrita. Fernando Pacheco Jordão, que comigo trabalhava nas madrugadas de Veja, por exemplo, lançava mão de um recurso que apelidei de “técnica aleatória”: quando não sabia por onde começar a escrever, Fernando começava por qualquer lugar. Iniciava um parágrafo secundário e ia seguindo, até que num estalo surgia a idéia principal. Então ele a punha no papel e seguia até emendar o texto com a parte onde havia começado. Somente com o simples exercício de escrever despreocupadamente, ele acabava por desbloquear a mente.
Outro método bastante simples é: sem vergonha, peça ajuda. Certa vez, também em Veja, fui falar com Elio Gaspari, então diretor –adjunto da revista, para explicar por que estava demorando tanto a entregar o trabalho – simplesmente não conseguia escrever. Já preparado para uma bronca, surpreso ouvi dele a reação compreensiva de quem já tinha passado por aquilo muitas e muitas vezes. “Por quê você não disse logo que deu nó?”, perguntou Elio. Sentamos e, depois de redigir juntos o primeiro parágrafo, o resto deslanchou sozinho.
Em geral, esse é o segredo de um bom texto: quando o primeiro parágrafo é estimulante e tem as idéias que levam ao seu desenvolvimento de forma natural, a redação flui com facilidade e uma desejável combinação do importante com o interessante. Se o que escrevemos nos impulsiona para a frente, animados, o mesmo acontecerá com o leitor.
Do modo contrário, quando a redação se torna penosa, é mau sinal. Um texto que sai a forcéps será torturante também para quem o lê.
A fluidez é essencial para o bom texto: ele sai de nossa cabeça direto para o papel, leva a um sorriso no canto do rosto, as palavras surgem com rapidez. Um frase leva a outra, um parágrafo ao seguinte, o fecho produz um efeito final. Escrever dessa forma com regularidade, como exige o jornalismo diário, ou mesmo o romance, porém, é muito difícil e só se alcança com a experiência.
Quando me perguntam como consigo escrever romances tão grandes e bem encadeados, a resposta "não sei" é bastante honesta. Não se trata de modéstia; o que sei é que, mais do que um talento ou técnica, é preciso passar anos a fio escrevendo para adquirir prática. Por fim, a cabeça acaba funcionando tão bem e naturalmente quando estamos escrevendo como quando conversamos no dia a dia. Experiência de vida também ajuda. Quem tem mais bagagem também tem mais recursos para tornar um texto mais interessante, assim como em uma conversa.
Por essas razões, o principal formador do bom romancista é o tempo. Outro elemento essencial é a capacidade de observação, que enriquece o texto; a clareza de idéias e a simplicidade. O maior inimigo de um bom redator é a vaidade, que leva ao rebuscamento: ela só coloca obstáculos no processo de escrever. Muita gente tende a complicar as coisas para se provar culto ou inteligente; isso em geral leva a desvios que só atrapalham o entendimento.
No jornalismo, exige-se temperamentos diversos do repórter e do redator. Enquanto o repórter é mais atirado, pelo gosto de sair em busca da notícia, o bom redator em geral é mais introspectivo e reflexivo. Essa é a razão pela qual é difícil encontrar um jornalista que seja ao mesmo tempo um grande repórter e que escreva muito bem. Eu mesmo conheço poucos. Elio Gaspari é o principal deles e tem ainda uma virtude adicional, que coroa essa rara combinação: sabe chefiar.
Não existe a fórmula certa para escrever, embora se possa aprender algumas técnicas, que ajudam a fazer desde uma simples carta a um texto de jornal, site, revista, ou até mesmo um romance. Todos esses textos têm uma abertura, com a finalidade de prender a atenção do leitor, seja com informação útil e direta, mais importante ainda em textos curtos, ou com uma introdução de substância capaz de fisgar o leitor pelo interesse. Essa introdução deve levar a um desenvolvimento natural do tema e a um fecho, importante para se obter uma boa impressão final da leitura.
Tão ou mais importante é cuidar do estilo. Ser honesto, conciso, enfatizar as idéias importantes, economizar palavras inúteis e evitar exageros são balizadores importantes de qualquer texto. Acima de tudo, a pessoa que escreve deve ser fiel a si mesma - não fugir, na escrita, da maneira como raciocina e fala. É a melhor maneira de nos expressarmos e também de evitar o risco de, no papel, nos perdermos tentando parecer aquilo que não somos. |