Com o lançamento de meu romance Amor e Tempestade, tenho feito uma série de palestras ao pessoal de vendas das lojas, para que conheçam melhor o romance e possam lhe dar a devida atenção. Com esse contato mais direto, acabei sabendo um pouco como é o mundo do livro – visto pelo lado deles.
Um rapaz que trabalha na Saraiva em São Paulo, por exemplo, me conta que muita gente apenas pergunta “pelos livros mais vendidos”. E que algumas pessoas compram livros por razões equivocadas, que evidenciam a desinformação. Certa vez, um cliente pediu um “livro do Ziraldo”. Depois de muita insistência, acabou se convencendo de que a obra à qual se referia era de Chico Buarque – Ziraldo era apenas o ilustrador.
Outro vendedor conta que, ao entrar na livraria, certo cliente comprou Catadores de Conchas, de Rosamunde Pilcher, por estar convicto de que era do mesmo autor do Caçador de Pipas (de Khaled Hosseini). Reafirmando sua cultura geral, não queria saber de objeções.
- Então você me faça um favor - eu disse ao vendedor. - Não tente impedir que o próximo cliente compre Amor e Tempestade, pensando que é do mesmo autor de A Sombra do Vento!
(Em tempo: A Sombra do Vento é o best seller de Carlos Ruiz Zafón).
Um dos maiores obstáculos para a venda do livro no Brasil é a falta de informação, ou a desinformação – seja da maioria dos vendedores, que pouco sabem sobre os livros que colocam nas livrarias, seja dos clientes, que também não têm muito acesso ao seu conteúdo.
Ler jornais e revistas ainda é algo restrito a uma parcela relativamente pequena da população. E a imprensa dedica pouco espaço aos livros. Poderiam colaborar mais também as próprias livrarias. As grandes redes mantém revistas que pouca informação trazem sobre as obras além do preço, editora e número de páginas. Dessa forma, não passam de catálogos. Com informação mais qualificada, as revistas das livrarias poderiam orientar tanto seus próprios vendedores quanto os leitores que não encontram maiores referências na grande imprensa.
Pela própria necessidade de venda, quem mais trabalha pela divulgação do livro e do conteúdo são as editoras, que promovem palestras sobre seus lançamentos para os livreiros e fazem um grande esforço de divulgação junto à imprensa, geralmente pouco aproveitado. Há também editoras que investem na capacitação dos professores, responsáveis tanto pela escolha do livro didático como do paradidático.
Algo muito ruim para o livro foi a adoção generalizada da consignação. Isso significa que a livraria não compra os livros da editora, apenas os coloca nas prateleiras, para um acerto posterior de contas. Ao devolver mais tarde o que não vendeu, a livraria joga a despesa com o estoque exclusivamente para a editora.
Dessa forma, as livrarias acham que agem de forma muito inteligente, pois livram-se de um risco inerente ao próprio negócio. De fato, evitam prejuízos, mas também a possibilidade de ganhar mais. Assumem pouco compromisso com a divulgação e a venda do livro. E diminuem sua necessidade de fazer um esforço pelo resultado. Dessa maneira, acabam é perdendo venda, assim como sacrificam seus fornecedores, dos quais tanto depende a sua atividade.
As livrarias apresentam a seu favor o exemplo dos Estados Unidos, maior mercado de livros do mundo, onde o sistema de consignação foi consagrado. O mercado americano de maneira geral anda bem desmoralizado, mas é importante entender o que há de bom mesmo num sistema ruim.
Lá, as editoras consultam as livrarias antes de definir a tiragem de uma obra. Porém, ao projetar um número de vendas para determinado título, as livrarias americanas assumem o compromisso de atingir aquela marca. Dessa forma, existe uma parceria na qual a editora também se garante de que os livreiros farão o máximo esforço para alcançar o resultado combinado.
Diante dessa situação, creio que hoje a principal informação sobre o livro vem dos próprios leitores – aqueles que leram alguma coisa e recomendam a leitura. O processo boca a boca se acentuou com a difusão da internet, onde uma mensagem pode ser transmitida com mais rapidez por e-mail ou em grupos de interesse e amizade.
No Brasil, há muito por fazer, a começar pela base da educação, que tem uma total relação de interdependência com a leitura. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do IBGE mostrou que em 2007 tínhamos 14 milhões de analfabetos no país. Isso significa que 1 em cada dez brasileiros com mais de 15 anos não sabia ler nem escrever.
Esse índice, que tinha sido de 32% no início da década de 1990, desde 2005 permanecia praticamente o mesmo. E não parece que hoje terá melhorado.
O governo compra anualmente cerca de 40 milhões de livros didáticos e paradidáticos para distribuir a crianças da rede de ensino público. É um esforço monumental tanto do ponto de vista orçamentário quanto logístico. Ao longo dos anos, serviria muito bem para inculcar no brasileiro o hábito do estudo e da leitura. O programa vem crescendo desde a década de 1980 e já seria tempo de se ver algum resultado. O hábito da leitura na formação do estudante é que faz também o leitor que compra o livro na livraria e faz crescer o varejo.
É no ensino fundamental, com o estímulo à leitura, que se constrói um país de cidadãos bem formados e informados, condição essencial para o desenvolvimento. Um país de primeira grandeza se faz com educação e educação se faz com a leitura. Se ainda se lê tão pouco no Brasil, não é por falta de vontade do brasileiro de melhorar. O preço do livro é ainda muito alto e seu barateamento só vem junto com o crescimento do próprio mercado. Monteiro Lobato dizia que um país se faz de homens e livros, mas não bastam os livros, sobretudo se são caros e ficam nas estantes. Um país, de fato, se faz de homens e leitores. |