Arquivos 

 

  Nas Livrarias

Cinco contos de amor e um painel revelador da visão masculina sobre os relacionamentos em tempo de reconstrução.
Comprar

 

 

19/5/2009

* Os inimigos da virtude

Quando ainda estava no último ano da faculdade de comunicação, aos vinte anos de idade, fui convidado por intermédio de colegas para fazer um estágio na TV Bandeirantes, num programa de variedades chamado Oito e Meia, que ia ao ar no horário nobre, logo após o noticiário.

Fui escalado produtor do repórter e comentarista político Hamilton Almeida – marcava suas entrevistas e anotava as perguntas que ele fazia aos entrevistados. Como havia uma câmera só, ela primeiro focava o entrevistado, e depois eu lembrava o repórter do que perguntara para que ele as repetisse no “contraplano”.

Era um ofício inglório, claro – eu apenas esperava uma oportunidade para começar no jornalismo de verdade. Essa chance apareceu certa tarde, quando caiu doente o repórter que faria uma entrevista com um metereologista da Universidade de São Paulo. Naquela época, e falo de 1986, havia uma inversão climática no Brasil – chovia a cântaros no Nordeste e o Sudeste passava por uma seca bíblica.

Precisavam entrevistar o homem que explicava o fenômeno.

Na falta de alguém... Olharam para mim. “Vai ele mesmo”, decretou o diretor do programa, Roberto de Oliveira. Era um risco colocar um jornalista principiante na parada. Mas Hamilton me ajudou a fazer as perguntas e uma produtora me levou à sala dos figurinos, meio empoeirada - há algum tempo a Bandeirantes não fazia mais novelas. Ali achei uma gravata, uma peça de época, a unica disponível, que adicionei à minha camisa de algodão cru.

Com aquela indumentária, bem própria de quem não esperava fazer sua estréia na televisão, embarquei na “viatura” da Bandeirantes rumo à USP, onde entrevistei o metereologista, cujo nome já nem recordo. Excitadíssimo, esperei a minha estréia no ar. Na TV da redação, assisti a todo o programa, do começo ao fim... E nada. O programa acabou e a entrevista não entrara.

Saí a perguntar o que tinha acontecido. Embaraçados, os editores me responderam que a fita onde a entrevista havia sido gravada tinha sido perdida.

- Perdida? – perguntei, pasmo. – Como é possível?

Era mais que possível, disseram. Roberto de Oliveira estava de cara fechada – queria a entrevista com o metereologista e ficara contrariado. E eu... não podia estar mais arrasado. Minha grande chance simplesmente evaporava. Não sabia quando teria outra.

No dia seguinte, de volta à condição de figurante, dentro do carro de reportagem, lamentei a Hamilton aquela falta de sorte – uma fita perdida, justo com a minha entrevista!

- Parabéns, sua entrevista estava ótima – disse ele.

Olhei-o, pasmo.

- Como você pode saber, se ninguém viu? – perguntei.

- Porque se ela estivesse ruim, eles não a teriam apagado.

Nesse dia, compreendi que as coisas não são como dizem, ou como parecem, sobretudo na vida profissional. Mais estranho ainda, descobri que as nossas qualidades às vezes podem nos prejudicar tanto ou mais que os nossos defeitos. Porque quando surge alguém com talento, disposição para o trabalho, idéias ou qualquer outra virtude importante, existem aqueles que tratam de não lhe dar espaço. Simplesmente para não perder o seu. Ou por inveja.

Tive que lidar com esse tipo de problema ao longo de toda a minha vida profissional como jornalista. Na vida de escritor, não é diferente. Há muita competição e ninguém gosta de ver o outro brilhar, num ambiente onde é difícil conquistar um lugar; o pouco é disputado palmo a palmo, seja por questões de sobrevivência, seja por vaidade. Pouca gente tem a grandeza de dar o devido valor ao talento quando ele aparece. Pasme, leitor, mas um escritor de má qualidade muitas vezes recebe mais espaço que outro muito melhor. Porque a mediocridade não parece uma ameaça. Nem é algo invejável.

Para o medíocre, o talento incomoda. Mais vale um sujeito quietinho, aparentemente desprovido de maiores atributos, incapaz de ofuscar ou tomar o lugar de alguém. Este consegue manter seu lugar por anos a fio. O medíocre só aceita o medíocre. E sonha em realizar suas ambições, sendo às vezes de fato premiado pelo seu silêncio, pela conivência, ou por sua vassalagem.

Eu, numa atitude que me custa muitos enfrentamentos e uma porção de derrotas transitórias, não aceito um mundo em que a ordem é a da mediocridade. Creio que é isto o que o crítico Ivan martins escreveu, ao me definir em sua resenha na revista Época sobre Amor e Tempestade como um profissional “talentoso e insolente”. Nunca tinha visto antes a crítica de um romance elogiar tanto um livro ao mesmo tempo em que xingava o autor. Mas Martins foi honesto. O que ele escreveu reflete muitas opiniões a meu respeito.

Acho que precisamos cada vez mais do talento que não se acovarda e ganha seu espaço de qualquer jeito, mesmo contra o trabalho silencioso de quem não tem a generosidade de reconhecer o valor alheio – o que seria, por sinal, uma boa maneira de começar a crescer. É preciso ser insolente para passar no meio da muralha daqueles que vivem de defender posições tacanhas.

Devemos combater os males do mundo tanto quanto os seus criadores, incluindo os burocratas que usam de seus pequenos poderes para esconder ou prejudicar o talento e continuar a amesquinhar este planeta. São como Salieri, o músico do rei, que vivia como um nababo, mas invejava Mozart, por saber que ele era o talento verdadeiro, ainda que tenha terminado a vida na vala comum. Os Salieris podem até obter vitórias temporárias, mas não vencerão. Seu castigo é ainda mais triste: saber exatamente quem são, destinados ao caixão da obscuridade.

 

 

Clic
Livros
Poemas
Biografia
Mural
Frases
Página Principal
Sua mensagem

Arquivos

Conheça também:



      Site by