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22/5/2009

* O papel da crítica e da arte

Ex-editor da Planeta na Espanha, o jornalista e crítico espanhol Juan Cruz, 60 anos, foi a estrela do recente 1º Congresso de Jornalismo Cultural, que aconteceu em São Paulo, reunindo profissionais e interessados nesse segmento vitimado por uma crise de identidade sem precedentes, conforme se detectou. "Os cadernos de cultura estão ficando todos iguais”, disse Cruz, repetindo o que já havia declarado por telefone ao jornal Folha de S. Paulo.

Segundo ele, diante da dificuldade em identificar movimentos nas artes, e sem segurança para afirmar o que é bom, os jornalistas culturais "se garantem apoiando-se no que é mais fácil". Isto é, escrevem sobre o que já está consagrado, sem arriscar-se a uma visão mais compreensiva do que é novidade. “É um fenômeno mundial”, aponta ele.

A imprensa cultural já fez mais o papel jornalístico de informar o que acontecia no meio artístico e intelectual. A crítica adotou um sentido literal para a palavra que define sua função e abandonou a antiga resenha, que tem muito mais o caráter de informação, sem tanto conteúdo opinativo – uma forma de autovalorização dos críticos, mas que os fez perderem um pouco o rumo.

O resultado é uma paralisia que faz com que os veículos da grande imprensa tenham perdido muito do seu prestígio na área cultural. Como acontece em outros segmentos da imprensa, jornais e revistas acabaram deixando para blogs e sites o papel da formação da opinião. Porque o que forma a opinião pública não é a crítica, mas a boa e correta informação, aquela que deixa espaço ao leitor para tirar suas próprias conclusões.

Cruz salientou outro aspecto contemporâneo da cultura de massa: a valorização das celebridades, pessoas que utilizam sua vida particular como chamariz para a curiosidade do público, em lugar daquelas que têm algo a contribuir no mundo das idéias. “Para um João Ubaldo Ribeiro se destacar hoje, teria de pular do alto de uma torre”, disse ele à Folha. “Para chamar a atenção, um artista jovem precisa que aconteça com ele algo surpreendente e não necessariamente relacionado à sua obra."

É verdade, mas não se trata de um fenômeno contemporâneo. Na realidade, nunca foi muito diferente. Quando André Breton reuniu em Paris um grupo de jovens intelectuais para criar o Surrealismo, no início do Século passado, a idéia era chamar a atenção, isto é, provocar situações que causassem escândalo, quebrando regras de comportamento e fazendo o absurdo parecer normal para mostrar que o "normal" pode ser também absurdo.

Salvador Dali pintava com hiper-realismo cenas as mais insólitas, como seus famosos relógios derretidos, e seus longos bigodes indicavam o doido, ou o gênio. Luis Buñuel fez O Cão Andaluz, o filme de vinte minutos em que um burro é arrastado por Dali dentro de um apartamento e um globo ocular é cortado por uma navalha sob a luz do luar. O público surpreso quebrou cadeiras de horror e indignação na sessão de estréia. O filme acabou censurado e se tornou cult.

Quando Dali fez contratos que o deixaram milionário, ficou claro que o mundo entrava em uma nova era, na qual mesmo a arte contestatória era absorvida pelo sistema. O alternativo, definido como o anti-sistema, em vez de quebrá-lo, era engolido, reprocessado e apresentado como uma novidade de mercado. “O escândalo já não existe”, lamentou Breton, inconsolável, de acordo com Buñuel em seu delicioso livro de memórias, Meu Último Suspiro.

Esse é o principal problema da arte de hoje e da sua incapacidade de chamar a atenção: o escândalo já não existe, ou melhor, ele faz parte do sistema de consumo. Foi também apropriado por celebridades que não têm preocupação em utilizar as idéias para contestar ou melhorar a sociedade, nem mesmo contribuir para o questionamento e aperfeiçoamento do indivíduo. Elas se interessam apenas em aparecer e ganhar dinheiro graças à superexposição. Com isso, a vida privada das pessoas acaba se banalizando e o noticiário se torna superficial e desimportante.

A oferta de filmes e livros capazes de chocar, de mudar alguma coisa, de influir no pensamento, vive sufocada pela profusão não apenas de lançamentos como de uma peculiaridade da era do alto consumo, que é sua capacidade de devorar os seus devoradores.

Apesar disso, o papel da arte continua o mesmo: provocar a sociedade e a consciência individual. Quando o artista hoje se volta contra a cultura de massa, ou mexe nas suas feridas, como procuramos fazer agora, não está se fazendo de coitado ou vítima do sistema. Muito ao contrário, está no seu papel clássico de denunciar e questionar os defeitos do sistema.

A imprensa tem comprado muito isso, e se esquecido de que sua missão, ao lado da arte, é também a de questionar.
Não importa a exposição na mídia, uma verdade é absoluta: só o que é bom fica. Se Breton, Buñuel e Dali são conhecidos ainda hoje, não foi porque o Surrealismo os tornou célebres, mas porque eles foram questionadores de seu tempo – e porque o fizeram bem, com arte de qualidade. Dali sabia pintar com a mesma destreza de um mestre do classicismo e, assim como Buñuel no cinema, construiu uma obra ainda hoje perturbadora.

Muito lixo projetado por uma onda momentânea tende a ser esquecido com o tempo. Não são, nem nunca foram, os críticos que formularam os caminhos da arte, mas o artista em seu laboratório da alma, influenciado pela época em que vive, com sua participação real na vida circundante. Isto acaba sendo percebido de alguma forma, cedo ou tarde – e, se for realmente bom, o trabalho prevalecerá.

 

 

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