Quando eu tinha vinte anos, nas farras que fazia com meus amigos em Santos, vi sair do mar por volta das duas da madrugada, com sua prancha debaixo do braço, o Serjão – cabelos encaracolados escorrendo de água salgada, o peito de aço, o velho sorriso no rosto. Um colega de colégio, que eu não via há tempos e que, com o Lino, Dudu, Lorenz e outros, formava uma turma de surfistas. Fiquei espantado em ver aquela figura encharcada surgindo do breu completo, andando pela na minha direção, enquanto eu comia um “X-tudo na bola”: um hamburguer famoso ali no Chora-Menino, que forrava o estômago da gente antes de irmos para os bares atrás das garotas.
- Serjão, como é que você consegue surfar assim de noite, no escuro? – perguntei.
- É fácil – disse ele, dando risada. – Eu fico deitado na prancha, na arrebentação, olhando as luzes dos navios ancorados no porto. Quando as luzes desaparecem, é porque a onda está vindo. Aí, a gente vira a prancha na direção da praia.
O Serjão era e ainda é um sujeito admirável – hoje responsável pai de família, já não faz loucuras como antes (aliás, nenhum de nós), mas uso até hoje a imagem do surfe no escuro. Descobri que escrever, como fazia o Serjão, é também surfar no escuro.
No encontro mensal do Autores e Ideias, o escritor e roteirista de cinema e TV Marçal Aquino me disse que não consegue escrever um romance quando sabe qual será o desenvolvimento e o final. Para ele, o estímulo de escrever um romance vem do simples fato de não saber o que vai acontecer. E experimentar os caminhos de cada personagem, como se estivessem vivendo a vida real. O esporte de Aquino é também surfar no escuro. “Quando eu sei o que vai acontecer, não tem graça”, afirmou ele. “Se já sei o que acontecerá, para quê escrever?”
Aquino pode parecer radical, mas há algo muito verdadeiro no que diz: o que nos estimula a escrever um romance é, mais que o mistério de uma história, o mistério de nós mesmos. Somente ao explorá-lo enquanto escrevemos, ele vai sendo resolvido – ou, pelo menos, esmiuçado. A gente não sabe de onde nem quando vem a necessidade de escrever, mas sabe que ela vem. E, quando vem, a pegamos de maneira intuitiva, na tentativa de nos equilibrar até a praia, depois de experimentar uma incrível sensação de estarmos vivos.
Diferente de Aquino, sou um surfista diurno. Meu processo de trabalho é diferente: sempre imagino o desenvolvimento da história e para onde ela irá. Isso é importante para criar uma estrutura que leva ao suspense, sobretudo nos romances de maior fôlego. O planejamento, porém, não significa que eu sei tudo o que vai acontecer.
Minha motivação é a mesma de Aquino: experimentar o que eu não vejo, descobrir o que eu ainda não sei. Há sempre aspectos na história que tomam seu próprio rumo ou estão ocultos no subconsciente, mesmo para quem imagina de saída os pontos principais da trama. Mesmo quando um romance é previamente planejado, há no caminho questões ocultas que vão surgindo e sempre revelam algo sobre nós. Eu surfo à luz do dia, mas nunca sei exatamente como a onda vai se comportar, nem tudo o que vou fazer. Às vezes, nem mesmo sei por que entro em certo tipo de mar.
Eu tenho necessidade, quase compulsão, de contar aquela história. Somente no processo de fazer, porém, entendo as razões pelas quais preciso daquilo obsessivamente – e as razões para contar a história daquele certo jeito. O grande estímulo para escrever é muito mais aquilo que não sabemos, do que aquilo que sabemos e queremos colocar no papel. É a investigação individual sobre a origem dessa compulsão e onde ela nos leva. A mesma sensação de surfar, deslizar nos meandros da mente.
Quando um escritor entra num romance como no surfe da madrugada, ele sabe mais ou menos quais são as preocupações que o levam a escolher aquela história e condicionarão os acontecimentos. Nenhum mar literário é totalmente escuro – você pode ver a luz dos navios no porto ou saber, ao menos, por quê resolveu entra ali. O desafio, nesse caso, é como isso vai se desenrolar – feito um filme não assistido, que se passa dentro da sua cabeça.
Ninguém surfa por acaso. Seja um romance feito para divertir, um drama profundo ou algo que misture ambas as coisas, o romance é sempre uma manifestação de forças interiores do autor. Às vezes, elas permanecem ocultas, ou são deixadas ocultas por quem escreve – para que o leitor possa, se não encontrar respostas, ao menos entender por que faz a si mesmo as mesmas perguntas. Por que o melhor de surfar não é contar o que sentimos, mas fazer com que os outros sintam as mesmas coisas que sentimos.
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