Arquivos 

 

  Nas Livrarias

Cinco contos de amor e um painel revelador da visão masculina sobre os relacionamentos em tempo de reconstrução.
Comprar

 

 

24/12/2009

* O verdadeiro valor do homem

Filho, preciso te contar esta história.

Quando eu tinha sua idade, era menino de apartamento. Desses que crescem na cidade, vendo televisão e brincando com os amigos do prédio. Por isso, um dos momentos mais esperados do ano era quando minha mãe visitava a tia Mercedes (que era tia dela, bem entendido), no interior de São Paulo. Uma semana, sempre nas férias. Ah, o sítio da tia Mercedes! Que delícia.

Ficava longe, a seis horas de carro, no fim de uma estrada de terra fina como areia, vermelha como tijolo e que na chuva escorregava feito sabão. Perto de uma vilazinha chamada Guarapuã, a poucos quilômetros de Jaú.

- A cidade que já foi a capital do café – dizia mamãe, orgulhosa.

Toda a família de mamãe era de lá. Meu bisavô, Mauro, tinha vindo da Itália com toda a família – a mulher e oito filhos – para trabalhar como colono nas fazendas de café. Meu avô José e minha avó Dileta tinham nascido ali mesmo, num sítio vizinho ao da tia Mercedes.

Minha mãe tinha passado toda a infância dela no interior. Dizia que seu pai, assim como os irmãos, tinha ficado muito rico com o café. De colono, trabalhando como empregado de fazenda, tinha passado a fazendeiro. Como muitos, porém, perdera tudo na crise de 1929. Eu não sabia direito que crise tinha sido essa, só que o café, a grande riqueza do Brasil na época, de repente passou não valer mais nada.

Vovô ficou com muitas dívidas, vendeu a fazenda e, de negócio em negócio, perdeu tudo o que tinha. Acabou morando em São Paulo, onde foi trabalhar como metalúrgico. Era quase analfabeto, e dava muito mis importância ao trabalho que à educação, mas na cidade todos os seus filhos, veja só, viraram professores.

A tia Mercedes, casada com o tio Mário Piva, tinha ficado em Guarapuã, num sítio pegado ao que pertencera à nossa família, antes de vovô José comprar com os irmãos uma fazenda de 300 alqueires em Torrinha, mais longe dali. Com menos ambição e mais bom senso, num sítio menor, tinham sobrevivido à crise e continuaram a viver no sítio, igualzinho sempre, plantando o seu café.

Lá, tudo parecia ser igual ao que era cem anos antes. O carro passava sobre um ribeirão, numa ponte de madeira das antigas, que dava medo de atravessar – aaaai... A casa da tia Mercedes era de madeira, com um alpedre na frente. Logo ao lado, ficavam o cocho, onde pelas manhãs se tirava o leite das vacas; o terreiro onde as sementes de café eram secadas ao sol; e o paiol, onde depois eram ensacadas.

Tia Mercedes já era velhinha e enrugada. Estava sempre de vestido de algodão florido, como se fosse jovem, com os cabelos presos na cabeça por um coque. Era corcundinha, curvadinha para a frente, diziam que de tanto lavar a roupa inclinada no ribeirão. Lavava a roupa numa tábua, lisa de tanto esfregar, com sabão feito de sebo.

- Meu Deus! – exclamava ela, sempre que nos via. – Como esse menino está crescendo!

A casa de tia Mercedes era muito simples. A sala, comprida, era iluminada à noite pela luz de lampião. Na cozinha, funcionava um fogão a lenha, que crepitava o dia inteiro, do café até o almoço, do almoço até o lanche, do lanche ao jantar, e toda a noite, até de madrugada. Tio Mário, um homem magro e silencioso, gostava de “quentar” ao lado do fogo, como se dizia, arrancando o milho seco da espiga com as mãos, enormes, escalavradas pelo trabalho na terra, de dedos grossos e nodosos.

- Aêh, menino, que você quer fazer amanhã? – ele perguntava, como se não soubesse a resposta.

- Andar a cavalo! – dizia eu, no maior entusiasmo.

O dia começava muito cedo: eu pedia a tia Mercedes que me acordasse às cinco da manhã, para ver os primos de mamãe, Nelson e Ariosto, tirarem o leite. Eles moravam em duas casas próximas à de tia Mercedes, pouco acima na estrada torta que levava ao cafezal. Nelson, sempre de chapéu de palha, com um bigodinho fino como uma risca debaixo do nariz, era um homem suave e gentil. Trazia as vacas para o curral ao lado da casa de tia Mercedes, com o chão coberto de cana de açúcar, que naquele tempo servia apenas de forragem, não era a riqueza de hoje, agora que é usada para fazer álcool combustível. Amarrava as pernas traseiras das vacas, com os bezerros presos num cercadinho, ordenhava os animais e depois soltava os bezerrinhos; cada qual ia mamar direto na sua mãe.

Eu gostava de sentar na última tábua do cercado; às vezes, uma vaca ou outra chegava bem perto e eu tinha oportunidade de passar a mão, maravilhado. Havia umas grandes, tão pretas que pareciam quase azuis, de chifres grandes e ameaçadores; outras eram malhadas de preto e branco, e por fim havia as de cor marrom. Depois que o leite ia para um balde, levado para dentro de casa, Nelson enchia os garrafões de metal, deixados em um cesto na entrada do sítio: todos os dias, às seis da manhã, passava o carroceiro que os apanhava para vender o leite fresco em garrafas de vidro na vila de Guarapuã.

Era bom beber o leite às vezes ainda quente do ventre da vaca, espesso, sumarento e saboroso. Eu, porém, tinha muito o que fazer. Passava a manhã atrás dos bezerros, com uma corda na mão, tentando laçá-lo, sempre inutilmente. Tentava não perder a pose de vaqueiro, com minhas botas de caubói, um chapelão que usava só para ir ali, um par de coldres recheados de revólveres de plástico, correndo atrás dos pobrezinhos pelo pasto, atirando a corda a esmo e, vez por outra, indo de cara no chão.

- Ai ai ai – balbuciava o primo Ariosto.

Era um homem sempre de barba por fazer, semblante fechado, meio taciturno. Nelson, que tinha duas filhas, nenhum menino, achava extraordinário um garoto da cidade adorar cavalo, vaca e andar no mato. Estava sempre disposto a me ajudar. Ariosto, porém, era diferente. Ele me olhava como se eu tivesse vindo de outro planeta. Seus olhos diziam: aquele menino desajeitado, correndo para todo lado, ainda vai dar muito trabalho. Ao meu tio Mário, achando que eu não escutava, dizia: onde se viu usar animal para diversão de menino que nem sabia botar sela, montar nem fazer nada sozinho?

A eguinha baia, sempre reservada para mim, era a mais mansa do lugar, talvez do mundo. Velhinha, seu pelo já ficara meio amarelo, e andava tão magra que tinhas as ancas ossudas. Nelson a estacionava diante do paiol, onde buscava os arreios, arreiava o animal e me ajudava montar, pois eu era tão pequeno que não chegaria lá sozinho.

Eu não ligava para o que pensava o primo Ariosto, que tinha idade para ser meu pai: plantado com meu chapéu de boiadeiro, sentia-me como um rei. Fingia que a eguinha velha era um garanhão fogoso e tratava de tocá-la com uma varinha de salgueiro, flexível mas doída, para tirá-la do lugar. Dava voltas por ali mesmo, perto do cafezal; o que mais gostava, porém, era andar dentro do rio, vendo as patas da égua afundarem na areia mole, passando entre as pedras e a sob a ponte, cuja sombra parecia tremular dentro da água.

Às vezes, eu ia com Nelson levar sal para o gado na invernada; eu gostava porque ficava a uma hora dali e eu pdia andar bastante a cavalo e me sentia no trabalho de um vaqueiro de verdade. Quando era tempo de colher café, ia com meus primos e os meus tios para o cafezal. Os pés eram plantados a curta distância um do outro num terreno limpo e arenoso. Os frutos eram colhidos com a mão, que corriam pelos galhos trazendo aquelas bolinhas vermelhas para a bateia, onde elas eram separadas das folhas e galhos antes de serem ensacadas. Por isso, as mãos daquela gente eram grossas e cascudas como o pé de quem nunca usa sapato.

Depois, espalhava-se o café no terreiro ao lado da casa da tia Mercedes, onde secava ao sol. Era revirado no chão com um rastelo de madeira até ficar preto e pronto para ser torrado e moído.

As tardes eu passava no quintal da tia Mercedes, onde havia um pomar cheio de frutas gostosas e um ribeirão cujas águas límpidas rolavam entre as raízes grossas de uma mangueira, transformada em uma ilha viva, onde eu ia me deitar. À tarde, quando o calor se tornava insuportável, era o lugar mais fresco da redondeza; eu adorava ficar ali, ouvindo o burburinho da água, respirando o ar com cheiro de terra molhada e lendo os muito livros que levava, pelos quais me transportava para outro mundo: O Minotauro e os Doze Trabalhos de Hércules, de Monteiro Lobato, os Reis Malditos, de Maurice Druon, ou as histórias de Tarzan, de Edgar Rice Burroughs.

Às vezes, Ariosto passava por ali; me via deitado e olhava com aqueles olhos que eu não sabia decifrar.

Às vezes, eu ia jogar milho para os porcos no chiqueiro: adorava a confusão que faziam no meio da lama para pegar as espigas da minha mão. Havia muitos porquinhos pequenos correndo pelo terreiro e eu adorava persegui-los, vendo abanar os rabinhos enrolados. Meu inimigo por ali era o peru, que levantava a cara feia e arrastava as asas no chão – Rrrrrrrr! – para assustar os intrusos como eu. E havia patos e galinhas e marrecos e aquele campo inteiro para passear.

Aprendi também como a vida no campo podia ser dura e cruel. Um primo distante, Ivo, criador de gado, vinha levar a boiada para um cercado atrás da casa de tia Mercedes que usavam de matadouro. Nesses dias, eu tinha de assistir tudo encarapitado na cerca, que era para nenhum boi me pegar.

Ivo vinha com três empregados e uma matilha de cachorros cinzentos perseguindo os novilhos com mordidas nas canelas. A boiada chegava levantando poeira e batendo em tudo o que vinha pela frente, até entrar no cercado.

Os bois eram laçados uma a um, pendurado pelos chifres no galho mais baixo de uma árvore pelada até ficarem apenas com a pata de trás no chão. Então tomavam na cabeça uma cacetada com o machado, virado ao contrário. Desmaiados, então vinha o açougueiro com a faquinha e ó: fazia um furinho no coração, estava morto o boi. Depois ele era aberto, limpavam as víceras e o animal era carneado ali mesmo, para ir ao açougue em pedaços.

Eu ficava muito impressionado com aquilo, mas no sítio da tia Mercedes essas coisas eram normais: se não fosse assim, ninguém teria bife para comer na cidade. Depois de um dia de emoções, no fim da tarde, minha mãe punha na minha mão um sabonete e lá ia eu para o banho.

Não havia chuveiro, muito menos água quente. Apenas de cueca, eu entrava embaixo de um cano d’ água ao lado da ponte. Ele fazia girar um roda d’água que despejava descargas tão geladas na gente que eu pulava e depois saía dali tiritando e com a pele vermelha feito de índio.

De noite, eu dormia na sala, depois do jantar de frango com polenta. Às oito horas, estava na cama, lençóis acomodados em um catre. Apesar do cansaço, não estava acostumado a dormir tão cedo. Brincava projetando na parede sombras com a luz que vinha do lampião. Depois fingia dormir, para ouvir melhor as conversas dos adultos.

Era estranho estar na intimidade da casa de tia Mercedes. Certa vez, ao passar diante da porta de seu quarto, vi ela sentada na cama, de camisola, meio debruçada sobre uma bacia, lavando os cabelos. Desenrolados, eles eram compridos até a cintura; elas os segurava nas mãos, passando a escova alternadamente com uma esponja molhada, como uma princesa de conto de fadas.

Foi assim, de olhos fechados e bem quietinho, que ouvi também, certa noite aquela conversa na cozinha, pescando somente algumas palavras: “... garoto... não... ... bobo... égua... desperdício”.

Eu ouvia a voz de Ariosto, surda, enrouquecida, sem entender o que dizia, mas nem precisava ouvir, para imaginar.

Então vieram uns dias de chuva, em que pouco pude sair de casa. Num deles, fui chamado para uma estranha reunião. Tia Mercedes fazia questão que eu lesse um trecho dos livros que trouxera para ouvirem. Todos estavam lá: minha mãe, meus tios, os primos e suas esposas. E Ariosto, de cara amarrada. Eu não tinha a menor vontade de ler em voz alta para ninguém, mas tia Mercedes, apoiada por mamãe, insistiu tanto que não tive jeito. Assim foi que li para eles um pedaço de Tarzan e a Cidade de Ouro.

Isso, eu sabia fazer bem. Todos ficaram muito impressionados. Eu achava saber ler, interpretando bem a história, com a entonação e o suspense certos, algo fácil e normal. Ali, era uma façanha. Tia Mercedes, com ar de vitória, virou-se para Ariosto e disse: “Viu só?”

Entendi tudo. Queriam mostrar para ele que eu não era um bobo completo, sabia fazer alguma coisa. Apenas era um menino de apartamento, tão desajeitado ali quanto Ariosto seria na cidade grande. Mas não falei nada.

No dia seguinte, Ariosto mandou recado. Disse que queria conversar comigo. Tinham botado duas cadeiras na frente de casa: a mulher dele até saiu para permitir que tivéssemos uma conversa a sós. Ariosto começou a conversa sem muita direção.

- Você está em que ano na escola, menino?

Fez uma porção de perguntas e não disse nada. Eu imaginei que tia Mercedes, o tio Mário ou mais alguém tivesse dito a ele que me pedisse desculpas pelo que havia falado e pensado. Por algum tempo, o primo Arisoto pareceu enrolar alguma coisa na língua, como se fosse pedir mesmo desculpas ou dizer algo simpático. Porém, simplesmente não conseguiu. Há gente que é fraca demais para pedir desculpas. Depois de algum tempo, vendo que aquela conversa dava em lugar nenhum, eu disse que tinha mais coisas a fazer e educadamente me despedi. Primo Ariosto não disse mais nada.

Quando me levantei e saí, vi nele uma certa cara de derrota. Além de ter sido vencido, ele estava desmoralizado.
O que o primo Ariosto não imaginava é que eu tinha uma coisa em comum com ele. Conhecia de cor as histórias de meu avô José, do tempo em que ele era fazendeiro, das grandes coisas que ele, seus pais e seus irmãos tinham feito, e da idéia que faziam deles mesmos. Meu avô era quase analfabeto, mas não tinha vergonha disso. “Entre nós, Fiorini, nunca nasceu um tonto”, dizia.

Sustentava que tínhamos de nos orgulhar de quem nós éramos. Podiam pensar mal da gente, como os brasileiros, que viam os imigrantes italianos com preconceito, fazendo pouco da sua comida, do jeito que falavam, da sua rudeza de colonos. Dizia vovô. Porém, que cada um sabe o seu verdadeiro valor. E sempre surge a ocasião de provarmos esse valor. Era uma certeza que ele definia numa só frase:

- A vida às vezes não vale nada. Mas, às vezes, vale muita coisa.

Eu podia não ter jeito para montar a cavalo, laçar gado ou colher café, mas também tinha do que me orgulhar. Quando voltava do sítio da tia Mercedes, corado de sol, com as mãos machucadas de brincar com as coisas da terra, o coração cheio de vontade de voltar, sentia como se aquele lugar também me pertencesse. Mesmo que eu fosse do mundo da cidade grande, eu me sentia ali como se tocasse aquele passado com o dedo e lembrado algo a respeito de mim mesmo.

Havia em mim, o menino de apartamento, algo daquela gente que, como meus avós, tinha transformado o sertão paulista de uma mata cheia de cobras e mosquitos na grande riqueza do Brasil, ao custo de uma vida heróica, cheia de grandes sacrifícios.

Lembre-se disso, filho, pois você também é um de nós.

 

 

Clic
Livros
Poemas
Biografia
Mural
Frases
Página Principal
Sua mensagem

Arquivos

Conheça também:



      Site by