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26/12/2009

* O tempo muda o julgamento

Aconteceu há cerca de dez anos, quando eu trabalhava como editor na revista Veja, responsável pelas treze sucursais, mais uma seção encarregada de produzir reportagens de interesse geral e desenvolvimento pessoal. Havia na minha equipe uma jovem, loirinha, que acabara de começar na carreira. Naquele mesmo dia, estava especialmente feliz: deois de um período no programa de treinamento, tinha sido contratada - acabara de receber o crachá da empresa, que veio me exibir sorrindo, como um troféu. Pouco mais tarde, chegou a notícia, por telefone. O aviso de um erro grave na edição daquela semana. Muito grave. A autora do erro: a menina feliz.

Fui conversar com meus superiores. Chegamos à mesma conclusão, não havia como evitar a demissão. Por um lado, parecia uma medida injusta, desproporcional. A menina estava na situação em que qualquer um mereceria uma segunda chance. Se havia um erro, era muito nosso, já que tínhamos colocado alguém inexperiente para fazer o trabalho. Porém, fosse como fosse, a revista tinha de tomar uma providência correspondente à gravidade do erro; era importante mostrar que leváramos o dano causado a sério, um princípio que norteia veículos com credibilidade.

Chamei-a para dar a notícia. Lembro da sua expressão de choque, confusão, terror. O melhor dia da sua vida se transformava também no pior.

Claro que eu não estava contente. Muitas vezes, por razões profissionais, tive de fazer o papel de nêmesis. Acostumei-me a um papel desagradável. Porém, sempre procurei ser justo, fazer o mais acertado, encontrar a saída mais correta. No momento, aquela me pareceu a única decisão possível, por mais desumana que pudesse parecer.

Dez anos depois, não lembro mais do erro propriamente dito cometido ela e que motivou a demissão. Poderia investigá-lo, refrescar a memória, mas concluí que o fato de não lembrar é significativo. Só o tempo mostra o que é certo ou errado. Enquanto não lembro do que motivou a demissão, lembro perfeitamente de ter mandado a menina embora, dos meus sentimentos contraditórios em relação ao que estava fazendo, da expressão dela, mesclando surpresa, sofrimento e horror. Só o tempo, repito, mostra o que importa numa decisão. E quando estamos certos ou não. Creio que nesse caso o tempo mostrou.

Recordo esse episódio porque a todo momento temos de avaliar se uma decisão é ou não correta, sem pesar o que realmente faz uma decisão ser correta ou não. A pergunta que devemos fazer não é se isso é certo, mas como nos sentiremos com aquela atitude, dez anos depois. Em geral, ao tomarmos uma decisão, levamos em conta uma série de fatores racionais ou profissionais e menos os sentimentos que estão envolvidos. E a verdade é que com o tempo os fatos que levam a uma decisão são apagados da memória, ou mesmo suas consequências práticas, enquanto as emoções ficam, muitas vezes de forma indelével.

Provavelmente a vítima daquela decisão já tenha superado o episódio e nem se lembre do que aconteceu, enquanto para mim ficaram estes pensamentos. Talvez aquilo no final tenha sido mais importante para mim do que para ela, pois peso episódios como este ao tomar decisões difíceis.

Aprendi que considerar o coração é tão importante na vida profissional quanto na hora de escrever um romance. É ele, afinal, quem devemos consultar, tanto ou mais que o cérebro, no nosso dia a dia.

Qualquer outro tipo de julgamento está fadado a mudar com o tempo e a lição imposta pela nossa memória.

 

 

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