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São Paulo, 20 de março de 2010

* Indignação e mentira

“Ninguém mente tanto quanto o indignado”, escreveu o filósofo Friedrich Nietzche em uma de suas mais importantes e menos lidas obras: Além de Bem e do Mal. Como se sabe, Nietzche era um retórico, um polemista, um filósofo dedicado a negar o conhecimento, a destruir a própria filosofia. Era um provocador. Com sua provocação, procurava abrir horizontes, destruir barreiras imaginárias, fazer pensar. E, se pensarmos bem, ele tinha razão. Por isso, estou prestes a abandonar a indignação.

O pressuposto do indignado é que ele está com a razão. A mentira, a injustiça, o atropelamento do óbvio, o desvirtuamento das coisas naturais – estas são as fontes primárias da indignação. Para Nietzche, porém, não existia a verdade absoluta, nem justiça, nem o óbvio, ou o natural.

Havia apenas a verdade de cada um, assim como a filosofia não era uma ciência, mas um ponto de vista individual, que expressava o pensamento do autor, e tanto melhor ficava quanto mais se aproximava da literatura, isto é, de uma expressão artística.

Que sentido há na indignação quando não há verdade absoluta, mas a verdade de cada um? Indignar-se, dessa forma, é defender um ponto de vista como verdade absoluta, uma forma de mentir.

Penso nisso, não somente por perceber a inutilidade da busca pela verdade, como também por uma questão de atitude. Há na indignação uma certa superioridade, uma rispidez, um moralismo que faz com que percamos a razão, mesmo quando a temos. A atitude de quem se indigna é a de um falso juiz. Nos revoltamos, mas a causa é semrpe mais emocional que objetiva. Porque, no fundo, tudo se explica, mas não há razão.

 

 

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